Abril de 2026. O nocaute sofrido diante de Mike Malott, no Canadá, foi o ponto final de uma sequência de cinco derrotas consecutivas no octógono — e também o gatilho que levou Gilbert 'Durinho' Burns a encerrar sua carreira no MMA profissional. Menos de dois meses depois, o niteroiense de quase 40 anos estará de volta à competição, mas desta vez sobre o tatame onde construiu sua identidade atlética.
No dia 4 de junho, Durinho faz sua estreia no UFC BJJ, a 9ª edição do evento, sediada no Meta Apex, em Las Vegas. O adversário será o compatriota Horlando Monteiro, num duelo de jiu-jitsu sem quimono — a modalidade No-Gi em que Burns já demonstrou domínio técnico de nível mundial ao longo de sua trajetória nos tatames.
O cartel que explica a decisão de Durinho
A saída do MMA não foi impulsiva. O histórico de desempenho dos últimos dois anos conta uma história clara: cinco derrotas seguidas no UFC, sequência que corroeu a posição de Burns como ex-desafiante ao cinturão dos meio-médios (77 kg). O striking differential do brasileiro foi negativo em quatro dessas cinco lutas, e o takedown accuracy, que já foi uma das ferramentas de entrada para seu jogo de chão, perdeu efetividade à medida que os adversários evoluíram no sprawl e no clinch defensivo.
Com 32 lutas profissionais no MMA e um cartel construído ao longo de mais de uma década no esporte mais exigente do planeta, Burns acumulou vitórias sobre nomes como Kamaru Usman — então campeão — e Stephen Thompson. A finish rate ao longo da carreira ficou acima de 60%, reflexo direto de um jogo de chão que poucos rivais conseguiram neutralizar completamente. A aposentadoria, nesse contexto, não é derrota. É leitura técnica de momento.
Durinho bicampeão mundial No-Gi e o que esperar no UFC BJJ
Antes de qualquer discussão sobre o MMA, existe um fato que estrutura toda a análise: Gilbert Burns foi campeão mundial de jiu-jitsu com quimono em 2011 e bicampeão mundial No-Gi — além de ter conquistado o bronze no ADCC em 2015, um dos torneios de grappling mais difíceis do planeta. A distância entre esse currículo e o de um competidor comum de submission wrestling é comparável à distância entre Manaus e Salvador: são mais de 2.500 quilômetros de diferença técnica.
No contexto do UFC BJJ, onde as regras favorecem finalizações e o ambiente No-Gi exige domínio de posições como back mount, half guard e leg entanglement sem o auxílio do tecido do kimono, Burns chega com vantagem estrutural. Seu rear naked choke foi arma recorrente no MMA — e no grappling puro, sem o risco do ground and pound adversário, a eficiência dessas finalizações tende a ser ainda maior.
"Durinho volta ao lugar onde ele sempre foi elite. O No-Gi é a modalidade em que ele tem os títulos mais expressivos — e agora, sem a pressão do MMA, a tendência é que o jogo dele flua com mais naturalidade", avaliou um analista de grappling ouvido pelo SportNavo durante a cobertura do evento.
Horlando Monteiro e o duelo que vai testar o retorno
O adversário escolhido para a estreia de Durinho não é figurante. Horlando Monteiro é competidor brasileiro com experiência sólida no circuito de jiu-jitsu No-Gi, e a escolha de um compatriota para esse reencontro com os tatames tem lógica técnica e narrativa: ambos compartilham a base do jiu-jitsu brasileiro, o que tende a produzir confrontos de alto nível técnico, com disputa intensa de posição antes de qualquer tentativa de finalização.
O ponto de atenção para Burns será o condicionamento físico específico do grappling competitivo. Após anos com o corpo calibrado para as demandas do MMA — explosão de striking, resistência para absorver impacto, recuperação entre rounds com trocação — a transição para um esforço puramente de grappling exige readaptação neuromuscular. O ritmo de pressão no clinch, a explosão para o takedown e a mobilidade no guard game são exigências distintas das de um camp de MMA.
"Estou voltando para onde tudo começou. O jiu-jitsu sempre foi minha base, e agora quero competir nele com o mesmo nível de seriedade que tive no MMA", declarou Burns ao anunciar sua participação no UFC BJJ 9.
A estreia de Gilbert Durinho no UFC BJJ 9 acontece em 4 de junho, no Meta Apex, em Las Vegas. O card completo da 9ª edição ainda não foi divulgado na íntegra, mas o confronto contra Horlando Monteiro já é o duelo mais aguardado da noite — e o primeiro teste real de quanto o bicampeão mundial No-Gi ainda tem a oferecer sobre o tatame.









