— Cara, mas esse ten Hag não é aquele que saiu do United na porrada?
— É ele mesmo. Mas você lembra o que ele fez no Ajax?
— Ah, aí é outra conversa...
Esse tipo de diálogo acontece em bares de Sydney, de Manchester e, provavelmente, de São Paulo. Erik ten Hag é um desses treinadores que polarizam não por falta de convicção, mas por excesso dela — um homem que nunca abriu mão do seu modelo de jogo, mesmo quando o contexto insistia em empurrar o barco para outra direção.
O momento em que tudo balançou
A saída do Manchester United em outubro de 2024 foi o ponto de inflexão mais visível de uma carreira construída sobre certezas. Ten Hag chegou a Old Trafford em junho de 2022 com a missão quase impossível de reorganizar um clube que havia perdido a bússola tática há anos. Nos dois primeiros anos, entregou a Copa da Liga Inglesa e a FA Cup — troféus concretos, não promessas. Mas o ambiente do United, com sua estrutura de poder fragmentada e a pressão permanente da imprensa britânica, criou um atrito que foi se tornando insustentável.
Para quem viveu os anos de tiki-taka no Camp Nou e acompanhou de perto a revolução do gegenpressing em Anfield, era nítido que o problema em Manchester não era o método — era a incompatibilidade entre um treinador que exige controle total do processo e uma diretoria que operava por impulso. Ten Hag precisava de estrutura para fazer sua filosofia funcionar. E o United, naquele momento, não conseguia oferecê-la.
O que ele mudou imediatamente
Antes de chegar ao United, ten Hag havia passado por uma escola que poucos treinadores europeus tiveram a oportunidade de frequentar com tanta profundidade. No Ajax, entre 2018 e 2022, ele não apenas ganhou títulos holandeses consecutivos — construiu uma das equipes mais admiradas do continente, com um jogo posicional sofisticado, pressing alto coordenado e uma capacidade rara de desenvolver jovens para o mercado de elite. A semifinal da Champions League 2018/2019, onde o Ajax eliminou Juventus e Real Madrid antes de cair para o Tottenham, ainda é referência em qualquer debate sobre futebol de ideias.
O que ten Hag fez naquele Ajax foi, em essência, o mesmo que havia testado no Utrecht e no Bayern München II: impor uma identidade clara desde o primeiro treino. No Utrecht, entre 2015 e 2017, transformou um clube de meio de tabela num time que desafiava as grandes potências holandesas com organização e intensidade. No Bayern II, de 2013 a 2015, aprendeu a lidar com jovens talentos que precisavam de estrutura sem perder a liberdade criativa. Cada passagem foi um laboratório — e ele saiu de cada uma com o método mais refinado.
Como o time respondeu à mudança
Agora à frente do Sydney Kings na Premier League, ten Hag enfrenta um desafio de natureza diferente. Não é mais o peso de uma instituição centenária nem a pressão de uma imprensa que transmite ao vivo cada decisão de banco. É, talvez, um exercício de reinvenção dentro de uma convicção que nunca mudou.
"Treinadores como ele não mudam o que pensam — eles mudam onde pensam. O contexto é novo, mas a gramática do jogo é a mesma." — Comentarista esportivo europeu especializado em futebol holandês
A resposta de um elenco a um treinador de método forte costuma seguir um padrão que o SportNavo já documentou em outros perfis: resistência inicial, adaptação forçada, e — quando o processo funciona — uma identidade coletiva que transcende nomes individuais. Ten Hag, aos 55 anos, já viu esse ciclo acontecer no Go Ahead Eagles, no Utrecht, no Ajax e no United. Sabe exatamente em que ponto do processo o time começa a jogar o futebol que ele imagina.
O que diferencia sua gestão de vestiário não é a rigidez — é a clareza. Jogadores que trabalharam com ele em Amsterdã descreveram um ambiente onde as regras eram duras, mas as razões para cada regra eram explicadas. Nada era arbitrário. Esse tipo de autoridade fundamentada é raro e, quando funciona, cria times que jogam com uma coesão que parece orgânica, mas é produto de trabalho diário.
O que ficou de aprendizado para ele
A trajetória de ten Hag ensina que filosofia tática sem estrutura institucional é música sem instrumento. O Ajax tinha a estrutura. O Utrecht tinha a humildade de um projeto em construção. O Bayern München II tinha a paciência de uma formação de longo prazo. O Manchester United, apesar de toda sua grandeza histórica, não tinha, naquele ciclo, a coerência interna que o método dele exige.
Esse aprendizado é valioso e, de certa forma, libertador. Treinadores que passam por experiências de alta pressão e saem com a identidade intacta — sem se tornar pragmáticos por conveniência — são figuras raras no futebol moderno. Ten Hag poderia ter suavizado seu estilo após o desgaste em Old Trafford. Não o fez. E é exatamente isso que torna seu trabalho atual digno de atenção, seja no hemisfério norte ou no sul.
O SportNavo seguirá acompanhando o desenvolvimento dessa fase da carreira de um dos técnicos mais consistentes metodologicamente da sua geração. Porque, no fim, ten Hag lembra aquele arquiteto que projeta o mesmo tipo de edifício em climas completamente diferentes — adaptando os materiais, nunca a planta.








