Uma delegação que não pode tocar o próprio chão antes da maior competição do planeta. É essa a imagem que melhor traduz a situação da Copa do Mundo 2026 para a República Democrática do Congo — um país que retorna ao torneio após 52 anos de ausência e que, para fazê-lo, precisou abrir mão do ritual mais elementar do futebol de seleção: preparar-se em casa, diante do próprio povo.
Na segunda-feira, 25 de maio, a Federação Congolesa de Futebol (FECOFA) anunciou oficialmente o cancelamento da fase de treinamentos que estava programada para Kinshasa, capital do país. A razão é objetiva e sanitariamente irreversível a curto prazo: um surto ativo de Ebola no território congolês levou as autoridades norte-americanas a impor uma quarentena mínima de 21 dias fora do continente africano para qualquer viajante proveniente da região. Sem esse intervalo, a delegação simplesmente não embarca para os Estados Unidos.
A decisão que veio de Kinshasa, mas foi construída em videoconferência
Reparemos no detalhe que a notícia bruta frequentemente apaga: a decisão não foi tomada unilateralmente pela federação africana. Segundo a FECOFA, na última sábado, 23 de maio, dirigentes congoleses participaram de uma videoconferência com representantes da FIFA para definir protocolos sanitários e garantir a participação do país no torneio. Há uma arquitetura institucional funcionando aqui — lenta, burocrática como toda governança esportiva global, mas funcionando.
O resultado prático desse alinhamento é que toda a preparação da seleção congolesa será realizada na Bélgica, país que abriga a maior parte do elenco convocado. A FECOFA foi explícita ao destacar que todos os jogadores chamados atuam em clubes europeus, assim como parcela significativa da comissão técnica — o que, do ponto de vista epidemiológico, reduz consideravelmente o risco de contaminação dentro da delegação. Membros da comissão que ainda permaneciam em Kinshasa deixaram o país no dia 20 de maio, justamente para cumprir o período de 21 dias exigido antes do embarque aos EUA.
Segundo a FECOFA, a decisão foi tomada em alinhamento com a FIFA, que garantiu que a seleção não enfrentará obstáculos para disputar a competição.
A Bélgica não é uma escolha aleatória ou meramente logística. É o país onde o futebol congolês pulsa com mais regularidade fora da África — jogadores como Cédric Bakambu construíram parte de suas carreiras no futebol europeu, e a diáspora congolesa no país é numericamente expressiva. Treinar em Bruxelas ou arredores é, de certa forma, treinar dentro de uma extensão cultural do próprio Congo.

O Ebola como variável macropolítica no calendário esportivo
Há uma dimensão que vai além do plano de campo e que merece ser nomeada com precisão. O Ebola não é apenas uma crise de saúde pública — é um indicador brutal das assimetrias estruturais que separam nações do Sul Global das condições plenas de participação em megaeventos esportivos. Quando os Estados Unidos estabelecem uma barreira sanitária de 21 dias para viajantes de determinado país africano, estão exercendo soberania epidemiológica que, no contexto de uma Copa do Mundo, se traduz em restrição logística para uma seleção que não escolheu o surto, mas que carrega seu peso.
Neste portal, o SportNavo tem acompanhado como as condições extracampo moldam a competitividade das seleções africanas em Copas do Mundo — e o caso congolês de 2026 é talvez o exemplo mais agudo dessa relação desde a Copa da África do Sul em 2010, quando questões de infraestrutura e acesso dominaram o debate pré-torneio. A diferença é que, desta vez, a barreira não é de estradas ou estádios, mas de vírus e vistos.
A questão dos ingressos é, nesse quadro, particularmente reveladora. A FECOFA informou que torcedores congoleses que adquiriram bilhetes para a Copa enfrentam dificuldades concretas para obter visto de entrada nos Estados Unidos em razão das novas restrições sanitárias. Pessoas que planejaram, pouparam e compraram ingressos para testemunhar o retorno histórico de seu país a um Mundial agora se veem diante de uma burocracia consular que não previu esse cenário. A FIFA, pressionada, comprometeu-se a estudar alternativas para os casos afetados, incluindo possíveis mecanismos de reembolso — resposta que, se vier tarde, chegará depois de sonhos desfeitos.
52 anos de espera e um grupo que não perdoa distrações
A RD Congo não disputava uma Copa do Mundo desde 1974 — quando ainda se chamava Zaire e foi a primeira seleção da África subsaariana a participar do torneio. Cinquenta e dois anos separam aquela experiência, marcada por uma derrota histórica de 9 a 0 para a Iugoslávia, desta nova tentativa. O peso simbólico é imenso, e ele não diminui porque o contexto sanitário é adverso.
Houston será a cidade-base da seleção durante o torneio, e o Grupo K reserva adversários de peso considerável: Copa do Mundo com Portugal, Colômbia e Uzbequistão. Portugal, atual vice-campeão europeu, e Colômbia, semifinalista da Copa América de 2024, são rivais que exigem uma preparação técnica e tática refinada — exatamente o tipo de trabalho que fica comprometido quando o calendário de treinos é reconfigurado às pressas por razões que nada têm a ver com futebol.
Segundo a FECOFA, a federação tranquilizou torcedores e comissão técnica ao destacar que todos os jogadores convocados atuam em clubes europeus, o que reduz significativamente qualquer risco de contaminação dentro da delegação.
Há uma ironia histórica que merece ser dita: a RD Congo chega ao seu segundo Mundial com um plantel profissionalizado na Europa, jogadores que conhecem o futebol de alto nível, e se vê forçada a uma adaptação logística que nenhuma seleção europeia jamais precisaria enfrentar. A preparação na Bélgica pode até ser tecnicamente adequada — estrutura, campos, suporte médico. Mas o que não se replica em nenhum campo europeu é o calor da torcida em Kinshasa, o peso de jogar diante de quem espera há 52 anos.
A Copa do Mundo de 2026 tem abertura marcada para 11 de junho, no Estádio Azteca, no México, e final no dia 19 de julho, no MetLife Stadium, em Nova Jersey. A estreia da RD Congo no Grupo K ainda não tem data confirmada, mas os congoleses chegarão aos Estados Unidos direto da Bélgica — sem o ritual, sem o chão de casa, mas com 52 anos de história carregados na bagagem de mão.








