Se alguém tivesse dito, em julho de 2019, que o Arsenal estaria numa final de Champions League seis anos depois, o Emirates teria respondido com ceticismo coletivo. O clube estava fora da Champions há dois anos, vinha de uma sequência humilhante de 29 partidas sem vencer nenhum rival do Big Six fora de casa — sequência que durava desde janeiro de 2015 — e carregava o peso psicológico de uma era Wenger que, gloriosa como foi, também deixou a instituição despreparada para o presente. A pergunta não era se o Arsenal voltaria a ser grande. Era se alguém dentro do clube tinha coragem de fazer as escolhas certas para que isso acontecesse.
A resposta veio em duas etapas: Edu Gaspar, contratado como diretor esportivo em julho de 2019, e Mikel Arteta, que assumiu o comando técnico cinco meses depois, em dezembro, substituindo Unai Emery. O espanhol chegava sem experiência como técnico principal, vindo diretamente do staff de Pep Guardiola no Manchester City — e isso, paradoxalmente, era parte do plano. O Arsenal não queria um nome consagrado. Queria uma filosofia.
Os anos que ninguém quer lembrar mas que explicam tudo
Os primeiros anos do projeto foram, para usar um termo que os ingleses conhecem bem, unglamorous. A FA Cup de 2020 — conquistada numa final contra o Chelsea, 2 a 1 em Wembley, com gols de Pierre-Emerick Aubameyang — foi o único título de peso num período que também incluiu duas Community Shields, em 2021 e 2024. Para um clube da dimensão do Arsenal, esse cardápio parecia magro. A torcida pressionava. A imprensa londrina, impaciente como sempre, questionava Arteta publicamente após cada tropeço doméstico.
Mas havia algo acontecendo abaixo da superfície. Arteta começou a derrubar tabus em sequência: a vitória no Old Trafford em novembro de 2020, gol solitário de Aubameyang, encerrou 14 anos sem vencer na casa do Manchester United. Depois vieram Stamford Bridge — oito anos de jejum eliminados — e a quebra da freguesia histórica contra o Tottenham como visitante na Premier League, que durava quase nove temporadas. Cada um desses resultados era, antes de qualquer coisa, um recado interno: o Arsenal estava aprendendo a competir nos lugares onde antes só sabia sofrer.
As peças que Edu montou temporada a temporada
A inteligência do trabalho de Edu Gaspar está na coerência das contratações ao longo de seis anos — não na espetacularidade de um único transfer window. Gabriel Magalhães chegou do Lille em 2020 por cerca de 27 milhões de euros e se tornaria um dos melhores zagueiros da Premier League. Martin Ødegaard foi emprestado pelo Real Madrid em janeiro de 2021, convenceu, e foi comprado definitivamente no verão seguinte por aproximadamente 34 milhões. Bukayo Saka, revelado nas categorias de base, virou o símbolo mais nítido de tudo que o clube representa na era Arteta — técnica, comprometimento, identidade.
O volante Declan Rice chegou em 2023 por 105 milhões de libras, então recorde do clube, e transformou a dinâmica do meio-campo. Leandro Trossard, contratado do Brighton, deu profundidade ao ataque. Gabriel Martinelli, brasileiro revelado pelo próprio Arsenal após chegar em 2019 com apenas 18 anos por 6 milhões de euros, consolidou-se como peça titular. Cada contratação seguia um critério que Arteta repete em entrevistas com frequência: character first. Caráter antes de talento.
"O que construímos aqui vai além do futebol. É uma cultura, uma forma de trabalhar, uma identidade que o clube não tinha há muito tempo", disse Arteta em coletiva após a classificação para a final da Champions League 2025/26.
O Arsenal que aprendeu a viver entre os grandes
Há um dado que resume bem a trajetória: entre 2017 e 2022, o Arsenal era visto como o clube que havia herdado o papel de "quinto grande" da Inglaterra, num momento em que Liverpool e Manchester City dominavam o cenário e Chelsea e United alternavam entre crises e recuperações. A partir da temporada 2022/23, quando os Gunners lideraram a Premier League por longos períodos antes de ceder o título ao City, o enquadramento mudou. O Arsenal deixou de ser coadjuvante e passou a ser candidato permanente — uma distinção que parece óbvia mas exigiu anos de trabalho para ser construída.
A relação com Liverpool e Manchester City ilustra essa evolução com precisão. Se Anfield e o Etihad Stadium ainda resistem como as duas praças onde o Arsenal não venceu nesta era, desde 2024 os empates tornaram-se frequentes — o que, no contexto de quem passou anos sendo goleado nessas visitas, representa uma mudança de patamar real. O pressing alto que Arteta implementou, influenciado diretamente pelo gegenpressing que absorveu ao lado de Guardiola, tornou o Arsenal um time que compete de igual para igual em qualquer estádio da Europa.
31 de maio e o peso de uma data que o Arsenal precisa cumprir
A final da Champions League 2025/26, marcada para 31 de maio, colocará o Arsenal diante de Bayern de Munique ou PSG — dois clubes com infraestrutura financeira e histórico europeu muito superiores ao do adversário londrino. Mas essa assimetria, que em outro momento seria paralisante, hoje parece alimentar o grupo de Arteta. O clube que passou 20 anos sem disputar uma final europeia chegou até aqui sem ter conquistado ainda um título da Premier League nesta era — o último campeonato inglês foi em 2004 — e carrega, portanto, uma fome específica que não se fabrica com dinheiro.
"Este clube merece este momento. Cada pessoa que trabalhou aqui nos últimos anos merece estar nesta final", declarou Edu Gaspar logo após a classificação, numa frase que resume bem a lógica do projeto: coletivo antes de individual, processo antes de resultado.
A dobradinha — Premier League mais Champions — ainda é possível matematicamente nesta temporada 2025/26, o que tornaria o ciclo iniciado com a chegada discreta de Edu num julho de 2019 algo próximo do extraordinário. O Arsenal joga a final em 31 de maio. Antes disso, tem mais três partidas pela Premier League para definir se chega à decisão europeia já campeão inglês ou ainda com esse capítulo em aberto.
O projeto resistiu. A final chegou. Agora falta o troféu.









