Um treinador que exige posse de bola e ao mesmo tempo constrói times para vencer no contra-ataque: esse é o paradoxo central de Eduardo Coudet — e entendê-lo é a chave para compreender o que o River Plate está fazendo na Copa Sudamericana de 2026.
O esquema que ele sempre busca rodar
Coudet, nascido em setembro de 1974, pertence a uma geração de treinadores argentinos que cresceu vendo o futebol europeu dos anos 90 pelo retrovisor — e que internalizou a lição de que identidade tática não é rigidez, é disciplina. O esquema de base que ele privilegia é o 4-3-3 com variações para o 4-2-3-1 dependendo do bloco adversário. A diferença entre os dois não é cosmética: no 4-3-3, ele exige que o meio-campista central seja um construtor de saída de bola; no 4-2-3-1, um dos dois volantes assume função mais defensiva para liberar o meia-atacante central a se aproximar da área. É a mesma lógica que Marcello Lippi usava na Juventus dos anos 90 — adaptação dentro de uma identidade reconhecível, não abandono de princípios.
O que define o esquema de Coudet não é o número de jogadores em cada linha, mas a pressão após perda de bola. Ele exige que a equipe reconquiste a posse em no máximo cinco segundos após perder — uma diretriz que, se não cumprida, gera substituições táticas antes mesmo do intervalo. Quem acompanhou o futebol alemão nos anos 2000 reconhece o princípio: é o gegenpressing antes de Klopp popularizar o termo, aplicado com a intensidade física que o futebol sul-americano permite.
Como ele monta o time dentro desse esquema
A construção do time por Coudet parte de trás para frente — literalmente. O goleiro precisa jogar com os pés acima da média; os zagueiros têm que ser capazes de iniciar jogadas com passes de 30 a 40 metros; os laterais funcionam como meio-campistas adicionais quando a equipe tem a bola. É um modelo que exige atletas polivalentes, o que historicamente foi o ponto de tensão entre o treinador e elencos montados por outros critérios.

No River Plate de 2026, essa exigência encontra um clube com tradição de revelar jogadores tecnicamente apurados — o que facilita a aplicação do modelo. O Monumental, com sua capacidade de pressão atmosférica sobre os adversários, também serve ao esquema: times que visitam o River tendem a recuar, e Coudet sabe explorar blocos baixos com movimentação de segunda linha. Não é coincidência que ele prefira meias com capacidade de chute de fora da área — o gol de fora da área é, no modelo dele, uma solução tática, não um bônus.
Onde o esquema funciona melhor e onde quebra
O modelo de Coudet funciona com precisão cirúrgica contra adversários que jogam em bloco médio e aceitam a pressão sem reagir. Na Copa Sudamericana, onde equipes de orçamentos variados frequentemente adotam postura conservadora fora de casa, o esquema encontra terreno fértil. A movimentação dos extremos, que cortam para dentro enquanto os laterais sobem, cria superioridade numérica na entrada da área — um mecanismo que guarda parentesco com o que o Milan de Sacchi fazia nos anos 80 com os extremos de Gullit e Van Basten, embora em contexto e intensidade distintos.
O ponto de fragilidade aparece quando o adversário pressiona alto e tem qualidade técnica para sustentar essa pressão. Nesse cenário, a saída de bola pelos zagueiros — que é o ponto de partida do esquema — fica comprometida. Times que aplicam pressing organizado nos 40 metros finais do campo do River conseguem desorganizar a estrutura antes que ela se forme. Foi o que algumas equipes europeias fizeram contra clubes sul-americanos que adotam modelos similares na fase de grupos de competições internacionais: a intensidade física do pressing europeu expõe a construção de baixo que parece fluida no continente.
Publicado em análise do SportNavo, esse padrão de vulnerabilidade não é exclusivo de Coudet — é estrutural em qualquer esquema que exige saída de bola pelos zagueiros sem um pivô fixo para servir de opção de segurança.

Os jogadores que ele privilegia para fazer funcionar
Coudet tem um perfil de jogador preferido em cada posição que se repete independentemente do clube. No meio-campo, ele valoriza o jogador que entende o espaço antes de receber a bola — não o que dribla, mas o que posiciona. Nos extremos, prefere velocidade com finalização a dribles em série: o extremo no modelo dele é um finalizador disfarçado de ponta, não um criador de jogadas individuais. No centro do ataque, o critério é a movimentação sem bola — a capacidade de arrastar zagueiros para criar espaço para os meias que chegam de trás.
Esse perfil explica por que Coudet, ao longo de sua trajetória, teve dificuldades pontuais com jogadores tecnicamente brilhantes mas tacticamente indisciplinados. O futebol argentino produz esse tipo de jogador em abundância — talento individual que resiste à função coletiva. Quando Coudet encontra atletas que aceitam a função sem negociar, o esquema ganha velocidade de execução que poucas equipes sul-americanas conseguem sustentar por 90 minutos.
No Monumental, no fim de uma tarde em que o River fechou o placar cedo e administrou o resultado sem ansiedade, Coudet permanece de pé na beira do campo — não gesticulando, apenas observando. O paradoxo se resolve ali: um treinador que exige tanto do jogo coletivo que parece, de longe, não estar fazendo nada.













