— Neymar vai ou não vai pra Copa? — pergunta um torcedor ao amigo, copo de cerveja na mão.
— Depende do Ancelotti. E Ancelotti não fala nada.
— Exatamente. E é isso que tá me matando.

Essa cena, repetida em bares de Porto Alegre ao Rio de Janeiro, resume o impasse que a Seleção Brasileira vive neste maio de 2026. Neymar entra em campo neste domingo (17), às 11h (horário de Brasília), pelo Santos contra o Coritiba, na que pode ser sua última aparição antes de Carlo Ancelotti divulgar a lista dos 26 convocados para a Copa do Mundo. E quem escolheu falar mais alto nesta semana foi Elano — ex-jogador do Santos, hoje gerente de futebol das categorias de base do clube — em entrevista concedida durante o São Paulo Innovation Week, evento realizado entre os dias 13 e 15 de maio.

O que Elano viu em Neymar que convenceu o ex-camisa 11 Elano quer Neymar na Copa
O que Elano viu em Neymar que convenceu o ex-camisa 11 Elano quer Neymar na Copa

O que Elano viu em Neymar que convenceu o ex-camisa 11

Elano participou da Copa do Mundo de 2010 pela Seleção Brasileira, marcou dois gols no torneio e conhece o peso de uma convocação de dentro. Sua declaração, portanto, não é de torcedor qualquer — é de alguém que viveu o processo. E o argumento dele começa no estado emocional do atacante:

"Ele está motivado, está feliz! Agora, realmente agora, ele está 100% adaptado, porque a lesão dele não foi simples e precisamos entender isso também. E eu não tenho dúvida de que, se convocado, ele vai nos ajudar muito para que a gente vá em busca desse hexa tão esperado"

A lesão mencionada por Elano foi uma artroscopia no menisco realizada no início de 2026 — procedimento frequente no futebol de alto nível, mas que exige tempo e atenção na recuperação. Neymar voltou aos gramados pelo Santos com desempenho crescente, e Elano conecta esse retorno diretamente à possibilidade de convocação:

"Agora, vencendo com o Santos, ele também fica bem. Consequentemente, a convocação traz novamente para ele tudo aquilo que a gente imagina e espera dele. Eu gosto muito dele e espero que ele seja convocado, que é bom para ele, bom para nós e bom para o Santos"

A fala de Elano condensa três níveis de interesse — individual, coletivo e institucional — numa frase só. O que ela não resolve, contudo, é a questão técnica que Ancelotti está avaliando com muito mais frieza.

Os números que pesam contra Neymar na balança de Ancelotti

Para entender a hesitação do técnico italiano, é útil olhar para o histórico recente do jogador com a mesma seriedade que se analisa qualquer atleta de 34 anos. Neymar acumula três lesões graves nos últimos cinco anos — ruptura do ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo em outubro de 2023, período de recuperação que se estendeu por mais de um ano no Al-Hilal, e agora a artroscopia no menisco em 2026. Para efeito de comparação, Ronaldo Fenômeno — convocado para o Mundial de 2002 após uma temporada inteira no banco por lesão — tinha 25 anos quando levantou a taça no Japão. Neymar chega ao torneio com 34 anos e um histórico de interrupções que nenhuma boa vontade apaga.

A concorrência no setor ofensivo da Seleção é real. Vinicius Jr., Rodrygo, Raphinha, Endrick e Savinho — levantamento feito pela redação do SportNavo ao longo desta temporada — somam mais de 60 partidas combinadas por seus clubes em 2025/2026, com ritmo de jogo contínuo que Neymar simplesmente não teve. Ritmo é o que mais se perde numa lesão de menisco, e é o que mais demora a voltar — mesmo quando o atleta declara estar "100%".

Ancelotti — treinador que ao longo de sua carreira conduziu Milan, Chelsea, Real Madrid, Bayern de Munique e PSG — tem adotado postura deliberadamente cautelosa ao tratar publicamente da relação com o atacante santista. Esse silêncio calculado, para quem conhece o estilo do italiano, não é indiferença: é método.

A decisão que ainda não saiu e o que muda com o jogo deste domingo

O duelo contra o Coritiba, neste domingo, tem peso simbólico desproporcional ao que o calendário do Brasileirão 2026 normalmente reservaria para uma partida de maio. Neymar sabe disso, o Santos sabe, e a comissão técnica da Seleção — que certamente terá olheiros no estádio ou assistirá ao jogo ao vivo — também sabe. Uma atuação consistente, com boa movimentação e participação em jogadas de perigo, pode ser o argumento prático que falta para Ancelotti incluir o camisa 10 na lista.

Há um paralelo histórico que merece ser colocado na mesa. Na Copa de 1994 — torneio que o Brasil venceu nos pênaltis contra a Itália nos Estados Unidos — Romário e Bebeto formaram uma dupla que chegou ao torneio com controvérsias internas e questionamentos sobre forma física. Romário havia passado por problemas musculares no Barcelona e chegou ao Mundial sem a sequência de jogos que a comissão técnica de Carlos Alberto Parreira idealmente queria. Resultado: artilheiro do torneio com cinco gols, eleito melhor jogador. A história mostra que talento fora do padrão pode superar limitações físicas — mas também mostra que 1994 foi há 32 anos, e o futebol de 2026 cobra ritmo como nunca antes na história do esporte.

O que torna a situação ainda mais delicada é que Ancelotti não tem obrigação pública de justificar sua escolha antes de fazê-la. A lista sai quando o técnico decidir, e o jogo deste domingo é a última janela real de influência — tanto para Neymar quanto para os que o defendem, como Elano. A partida contra o Coritiba começa às 11h de Brasília e termina com uma resposta que, mesmo sem palavras, já vai sendo lida por todos que acompanham a Seleção.