O placar já marcava 106 a 93 quando a buzina soou no TD Garden, e o que se viu nas arquibancadas foi o silêncio de quem não acredita no que acabou de acontecer. Joel Embiid, 30 anos, pivô dos Philadelphia 76ers, acabava de vencer seu primeiro Game 7 na carreira — e, junto com ele, derrubava 44 anos de derrota consecutiva dos 76ers contra o Boston Celtics nos playoffs.
O que dizem os envolvidos
Nick Nurse manteve o mesmo quinteto titular que funcionou nos Jogos 5 e 6: Tyrese Maxey, V.J. Edgecombe, Kelly Oubre Jr., Paul George e Embiid. Do outro lado, Joe Mazzulla foi obrigado a improvisar. Com Jayson Tatum fora por lesão na perna esquerda — ele havia deixado o Jogo 6 ainda no terceiro quarto —, o técnico do Celtics escalou um quinteto que nunca havia jogado junto na temporada 2025/2026: Derrick White, Baylor Scheierman, Jaylen Brown, Ron Harper Jr. e Luka Garza. Nas palavras do próprio Mazzulla após a partida, a decisão foi de não arriscar Tatum numa série já perdida, priorizando a saúde do astro para o futuro.
"Ele deu tudo o que tinha. Não havia como pedir mais." — Nick Nurse sobre Embiid, segundo relatos da cobertura pós-jogo.
Jaylen Brown terminou com 18 pontos, e Tatum, nos minutos que jogou no Jogo 6, havia somado 17. Nenhum dos dois conseguiu sustentar o Celtics em momentos decisivos. O português Neemias Queta, que iniciou no banco e atuou por mais de 20 minutos no Jogo 7, registrou 4 pontos e 11 rebotes — números discretos para uma noite em que Boston precisava de heróis em qualquer posição do elenco.
O que dizem os números
A estatline de Embiid no Jogo 6 — 19 pontos, 10 rebotes e 8 assistências — não é apenas uma linha de box score. Ela representa a primeira vez que o pivô camaronês-americano chegou a um Game 7 e saiu do outro lado. O histórico anterior era pesado: a série de 2021 contra Atlanta, em que Ben Simmons recusou arremessos decisivos e os 76ers colapsaram com vantagem de 3-2; a bola de Kawhi Leonard em 2019, que eliminou Philadelphia na segunda rodada contra Toronto com um arremesso na buzina que quicou quatro vezes no aro antes de entrar.
A análise do SportNavo mostra que Philadelphia havia perdido 18 séries consecutivas quando chegou a estar em desvantagem de 3-1 — um índice de 100% de fracasso nessa situação específica. O Celtics, por sua vez, tinha 32 séries sem ser eliminado após abrir 3-1. Dois recordes absolutos da NBA caíram na mesma noite. Para contextualizar a raridade: desde 1946, apenas 13 equipes na história da liga haviam conseguido virar uma série após perder os três primeiros jogos de vantagem do adversário — Philadelphia se tornou a 14ª.
O desempenho de Boston no arremesso de três pontos no Jogo 6 também explica parte do colapso: 29% de aproveitamento, convertendo apenas 12 de 41 tentativas. Para uma equipe que chegou à série como segunda cabeça de chave e favorita declarada, essa eficiência no perímetro foi estruturalmente insuficiente para sustentar qualquer sistema ofensivo.
A rivalidade entre as duas franquias acumula o maior número de Game 7s da história da NBA — nove confrontos nesse formato, com os primeiros datando dos anos 1960, passando por Bill Russell, Julius Erving, Larry Bird e Allen Iverson. Boston liderava o retrospecto nesses jogos decisivos, incluindo duas viradas sobre os próprios 76ers a partir de desvantagem de 3-1: uma em 1968, que encerrou o ciclo de Wilt Chamberlain na franquia rival, e outra em 1981, que abriu caminho para o primeiro título de Larry Bird.
O que digo eu sobre o quadro
Seria injusto chamar de era o que Embiid está construindo agora — mas é uma era em escala doméstica, comprimida em três jogos consecutivos que reescreveram o que se esperava de um pivô que carregou por anos o rótulo de jogador que some quando o jogo pesa.
O que me interessa nessa virada não é apenas o aspecto esportivo. Philadelphia é uma cidade com um dos maiores índices de desigualdade econômica entre as metrópoles norte-americanas, e a relação da torcida com os 76ers reflete esse peso social de forma bastante direta. A franquia passou anos apostando no chamado Process — a estratégia deliberada de perder para acumular escolhas de Draft —, o que gerou uma base de torcedores acostumada a projetar esperança em ciclos longos e frequentemente frustrados. Cada eliminação precoce de Embiid não era só uma derrota esportiva; era a confirmação de um padrão que a cidade já conhecia bem.

Do ponto de vista de mercado, a eliminação do Celtics — campeões em 2024 e uma das franquias com maior valor de mercado estimado da liga, acima de 5 bilhões de dólares segundo avaliações recentes — e o avanço dos 76ers para enfrentar o New York Knicks nas próximas rodadas cria um confronto de enorme apelo comercial para a NBA. Celtics-76ers já era a série com mais Game 7s da história; Sixers-Knicks é o duelo entre dois dos maiores mercados do país, com impacto direto em ratings de TV e engajamento digital. A NBA sabe disso, e o calendário da próxima fase vai refletir esse peso.
Philadelphia enfrenta o New York Knicks na semifinal da Conferência Leste. O primeiro jogo da série está programado para esta semana, com os Knicks chegando ao confronto após eliminar os Atlanta Hawks. Para Embiid, que completou 30 anos em março, essa pode ser a janela mais real de título que ele terá na carreira — e os números desta série contra Boston sugerem que ele finalmente aprendeu a não desperdiçá-la.










