O silêncio da comissão técnica suíça durou dias. Enquanto os 47 outros atletas convocados por Murat Yakin embarcavam normalmente para os Estados Unidos, Breel Embolo, o centroavante mais experiente do grupo com 24 gols internacionais antes desta Copa, tinha o nome preso numa pendência migratória que ameaçava encerrar sua participação no torneio antes mesmo de começar. O visto americano só foi regularizado às vésperas do Mundial — e neste sábado, 13 de junho, no Levi's Stadium de Santa Clara, Califórnia, ele marcou o primeiro gol da Copa do Mundo de 2026 pela Suíça. O Catar, porém, arrancou o empate em 1 a 1 com um cabeceio de Khoukhi já nos acréscimos do segundo tempo.
A condenação de 2018 que quase varreu Embolo do Mundial
Segundo a imprensa britânica, havia uma pendência migratória no passaporte de Embolo diretamente relacionada a uma condenação judicial ocorrida em Basileia, em 2018. O episódio, cujos detalhes jurídicos nunca foram completamente esclarecidos em declarações oficiais da federação suíça, foi suficiente para que as autoridades americanas abrissem uma investigação sobre o atacante. O visto de entrada nos Estados Unidos chegou a ser negado em razão desse antecedente, gerando apreensão na comissão técnica e na torcida durante os dias que antecederam a abertura do grupo.
A situação guarda paralelo com um episódio histórico que os mais velhos ainda lembram: em 1994, a Copa dos Estados Unidos, o zagueiro argentino Diego Simeone enfrentou restrições de entrada no país por pendências documentais — resolvidas a tempo, mas que deixaram a delegação albiceleste em pânico por 72 horas. Naquela edição, a Argentina foi eliminada nas oitavas de final pela Romênia de Hagi, 3 a 2, num jogo que entrou para a história pela ausência de Maradona, suspenso por doping. Burocracia e Copa do Mundo raramente combinam, mas o futebol tem longa memória de crises de última hora que terminam em campo.
No caso de Embolo, a regularização chegou às vésperas da partida. O atacante nascido em Yaoundé, Camarões, naturalizado suíço, integrou normalmente o grupo de Yakin para a estreia. Conforme registrado pelo SportNavo durante o acompanhamento do grupo B, a federação suíça não emitiu nota oficial sobre o episódio, mas fontes ligadas ao staff confirmaram o alívio com a resolução da pendência.
Um roteiro que Embolo já conhecia desde 2022
Quem acompanha a Suíça em Mundiais sabe que Embolo tem uma relação especial com estreias. Na Copa do Qatar, em novembro de 2022, foi ele quem abriu o placar na vitória suíça sobre Camarões por 1 a 0, em Doha — curiosamente, marcando contra a seleção do país onde nasceu. Naquele torneio, a Suíça avançou às oitavas de final, onde foi eliminada pela Portugal de Cristiano Ronaldo por 6 a 1, placar que ainda dói nos helvéticos.
Em Santa Clara, o script se repetiu parcialmente. Aos 13 minutos do primeiro tempo, Zakaria cruzou na área, Embolo desviou para Freuler, e o meia suíço foi derrubado pelo goleiro Abunada dentro da pequena área. Pênalti marcado pelo árbitro Said Martínez, de Honduras, confirmado pelo VAR após checagem de possível impedimento. Na cobrança, Embolo deslocou Abunada e abriu o placar. Era o gol que parecia abrir caminho para uma vitória tranquila.
"A Suíça criou para fazer mais três, quatro gols. E não acertou os ponteiros na hora agá", escreveu o colunista do UOL Esporte, sintetizando com precisão a tarde europeia desperdiçada na Califórnia.
O goleiro Abunada, que havia cometido o pênalti após se chocar com Freuler e cair imóvel no gramado por quase um minuto — num susto que paralisou os dois bancos de reservas —, se recuperou e transformou a tarde numa sessão de defesas. Parou finalizações de Ndoye, Zakaria e Vargas. Quando foi batido no último lance do primeiro tempo, o lateral Alamin salvou um chute de Aebischer em cima da linha. Embolo ainda desperdiçou uma chance clara aos 31 minutos do segundo tempo, finalizando para fora livre na pequena área.
O Catar e seu primeiro ponto em toda a história das Copas
Para entender o peso do empate catari, basta olhar o único precedente: na Copa de 2022, disputada em casa, o Catar integrou o Grupo A ao lado de Equador, Senegal e Holanda. O saldo foi de três derrotas — 0 a 2 para o Equador, 1 a 3 para o Senegal e 0 a 2 para a Holanda — com apenas um gol marcado a favor em todo o torneio. Nenhum ponto. A eliminação na fase de grupos foi a primeira de um anfitrião em toda a história do Mundial, desde que a competição existe em seu formato moderno, inaugurado em 1930.
O gol que mudou essa estatística veio aos 49 minutos do segundo tempo, quando a vitória suíça parecia matematicamente garantida. Al-Amin avançou pela esquerda e cruzou na medida. O zagueiro Boualem Khoukhi se antecipou à marcação na segunda trave e acertou cabeçada no canto, sem chance para o goleiro Kobel. Primeiro ponto do Catar em toda a sua história em Copas do Mundo.
"O resultado é uma grande decepção à seleção suíça, que chegou ao Mundial cercada por expectativa após uma boa campanha nas Eliminatórias Europeias, invicta durante toda a trajetória classificatória", apontou a ESPN Brasil em análise pós-jogo.
A Suíça, que não alcança as quartas de final desde 1954 — quando disputou a Copa em casa e foi eliminada pela Áustria por 7 a 5 numa das partidas com mais gols da história do torneio —, sonhava com algo maior neste ciclo. Com Granit Xhaka em sua quarta Copa do Mundo e um elenco de experiência europeia consolidada, Yakin havia construído uma campanha classificatória sem derrotas. O empate com o Catar não encerra o sonho, mas exige resposta imediata.

O Grupo B embolado e o que vem pela frente
Com o resultado de Santa Clara somado ao empate de 1 a 1 entre Canadá e Bósnia e Herzegovina, disputado na sexta-feira, 12, em Toronto, o Grupo B encerra a primeira rodada com todos os quatro times empatados em um ponto. A situação é matematicamente idêntica para todas as seleções, o que torna a segunda rodada decisiva para definir o perfil do grupo.
Na quinta-feira, 18 de junho, a Suíça enfrenta a Bósnia e Herzegovina em Los Angeles, às 16h de Brasília — um duelo europeu que os suíços precisam vencer para se recolocar no caminho esperado. No mesmo dia, às 19h de Brasília, o Catar enfrenta o Canadá em Vancouver, numa partida que pode ser o divisor de águas para a seleção árabe: vencer o anfitrião significaria uma virada histórica de roteiro. Embolo, com o visto regularizado e o gol marcado, segue como a principal referência ofensiva suíça — mas a Suíça precisará de muito mais do que um pênalti convertido para sair dos Estados Unidos com algo além de um ponto e um drama burocrático resolvido de última hora.
Um relógio suíço de precisão, quando para por um segundo, pode ser reajustado. O que não pode é continuar atrasado por três rodadas seguidas.








