Diz-se que a Liga Europa é um torneio de segundo escalão, que os grandes treinadores a evitam ou a encaram como consolo. Unai Emery passou os últimos doze anos desmontando essa narrativa peça por peça — e nesta quarta-feira, 20 de maio de 2026, ele enterrou de vez o argumento com uma goleada de 3 a 0 sobre o Freiburg na final disputada em Istambul. Cinco títulos. Três clubes diferentes. Um feito sem precedente na história do futebol europeu.

De Sevilha a Birmingham, uma obsessão construída em fases

A história começa em 2014, quando um Sevilla modesto em orçamento mas cirúrgico na Copa da UEFA recebeu um treinador basco de 42 anos com uma ideia fixa: organização defensiva em bloco médio e transições verticais rápidas. O resultado foram três títulos consecutivos — 2014, 2015 e 2016 — algo que nem o grande Juventus de Giovanni Trapattoni havia conseguido na era pré-Champions. Para efeito de comparação, Trapattoni acumulou três troféus na competição, mas em dois ciclos separados e com dois clubes distintos; Emery fez os três em sequência, com o mesmo elenco, numa compressão histórica que seria injusto chamar de era — mas é uma era em escala doméstica.

Bournemouth - Manchester City

O segundo ato veio em 2021, quando o Villarreal — um clube de 50 mil habitantes na Comunitat Valenciana — eliminou o Arsenal nas semifinais e depois bateu o Manchester United nos pênaltis na final de Gdańsk. Emery havia saído do Emirates Stadium em 2019 com um vice-campeonato da própria Liga Europa e uma demissão. Dois anos depois, ele voltou à competição pela porta da frente, com um clube menor, e ganhou de novo. Quem acompanhou a carreira de Ottmar Hitzfeld nos anos 90 — campeão da Champions com Borussia Dortmund em 1997 e com Bayern em 2001 — reconhece o padrão: treinadores que constroem sistemas, não dependem de estrelas.

O que a goleada sobre o Freiburg revela taticamente

O 3 a 0 sobre o Freiburg não foi um acidente de placar. O time alemão chegou à final com uma das defesas mais organizadas da Europa nesta temporada 2025/2026, baseado num 4-2-3-1 compacto que sufocou adversários na Bundesliga durante meses. O Aston Villa de Emery respondeu com algo que o treinador aperfeiçoou desde os tempos de Sevilha: pressão alta nos 20 metros finais do adversário, recuperação rápida e saída em velocidade pelos lados. Quem assiste ao Villa de 2026 e lembra o Sevilla de 2015 nota a mesma geometria — os laterais avançados criando superioridade numérica nas faixas, o pivô segurando a bola no espaço entre linhas.

Na avaliação do SportNavo, o detalhe tático mais revelador da final foi o posicionamento dos volantes do Villa, que bloquearam sistematicamente as saídas do Freiburg pelo centro, forçando o time alemão a jogar pelos lados — exatamente onde a pressão inglesa era mais intensa. Emery não improvisou; ele preparou.

Quantos treinadores na história europeia venceram a mesma competição com três clubes de países diferentes?

Emery, Mourinho e o mapa dos técnicos com cinco títulos europeus

Com a quinta taça, Emery igualou José Mourinho em conquistas europeias — o português soma duas Champions League (Porto em 2004, Inter em 2010), uma Copa da UEFA (Porto em 2003), uma Liga Europa (Manchester United em 2017) e uma Conference League (Roma em 2023). São cinco títulos, mas distribuídos entre quatro competições distintas. Emery fez os cinco na mesma competição. A comparação é válida, mas os perfis são opostos: Mourinho construiu sua lenda em torneios de elite, Emery transformou a Liga Europa em território pessoal.

O espanhol aparece agora ao lado de Zinedine Zidane e Bob Paisley — ambos com cinco títulos continentais — numa lista encabeçada por Carlo Ancelotti, o único treinador com 11 conquistas europeias na carreira. A diferença entre Ancelotti e Emery, porém, é que o italiano distribuiu seus títulos por Champions League, Copa da UEFA e Supercopa Europeia; Emery construiu o seu legado dominando um torneio específico de forma que não tem paralelo histórico documentado.

Trapattoni, segundo colocado entre os maiores vencedores da Liga Europa com três títulos, agora está a dois troféus de distância. Emery tem 54 anos. Se permanecer no Villa — contrato em vigor — e o clube mantiver o nível de investimento da janela de 2024, uma sexta taça não é especulação: é uma possibilidade concreta que o próprio histórico do treinador autoriza.