Quando Endrick Felipe Moreira de Sousa concedeu entrevista ao The Guardian nas últimas semanas, não poupou palavras para traduzir seu estado mental: a Copa do Mundo de 2026 domina cada pensamento seu antes de dormir. O centroavante de 18 anos, atualmente no Lyon após passagem pelo Real Madrid, falou com uma franqueza que raramente se ouve de jogadores tão jovens no cenário internacional.
"Meu primeiro desejo é jogar a Copa do Mundo. Preciso, portanto, estar lá. Esse é o meu primeiro pensamento. Antes de pensar no título, preciso fazer bem o meu trabalho no Lyon. Estou focado aqui."
A declaração ecoa um padrão conhecido da história do futebol brasileiro. Ronaldo Nazário, em 1994, tinha 17 anos quando Zagallo o levou ao torneio como reserva — não entrou em campo em nenhuma partida, mas a vivência moldou o centroavante que viria a ser artilheiro da Copa de 1998, com quatro gols, e de 2002, com oito. A maturidade forçada costuma produzir jogadores maiores.
O momento de Endrick no Lyon e o jogo contra a Croácia
A passagem pelo Lyon tem funcionado como laboratório de reconstituição. Após um período errático no Real Madrid — clube em que atuou em apenas 16 partidas com um rendimento abaixo do esperado na temporada 2024-25 —, Endrick recuperou ritmo e confiança na Ligue 1. A virada de chave, segundo ele próprio, começou na vitória da Seleção sobre a Croácia por 3 a 1, em Orlando, durante a Data-Fifa de março de 2025.
"Foi uma noite de dúvidas e um senso de urgência. Eu sabia que poderia ser minha última chance. Rezei muito. Sabia que aquele dia poderia ser um ponto de virada para mim. Joguei bem, uma das minhas melhores atuações."
O placar de 3 a 1 contra os croatas — semifinalistas em 2018 (vice-campeões) e em 2022 (terceiro lugar) — não é um adversário qualquer para servir de referência. A atuação de Endrick naquela noite em Orlando foi suficiente para recolocá-lo no radar de Carlo Ancelotti como opção viável para a Copa do Mundo de 2026, cuja convocação oficial dos 26 jogadores está marcada para 18 de maio, no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro.
Vinícius Júnior — os números que o colocam acima da discussão
Qualquer análise honesta precisa partir de um ponto fixo: Vinícius Júnior não disputa posição com Endrick no esquema tático. Os dois operam em funções distintas. Vini atua preferencialmente pela esquerda, como extremo com liberdade para finalizar, enquanto Endrick é centroavante por formação e vocação. O equívoco narrativo de colocá-los em oposição direta obscurece a leitura tática real que Ancelotti faz do grupo.

Ainda assim, a hierarquia é incontestável nos dados. Vinícius Júnior marcou 24 gols e distribuiu 11 assistências pelo Real Madrid na temporada 2023-24, sendo peça central no título da Champions League conquistado em Wembley sobre o Borussia Dortmund por 2 a 0. Pela Seleção Brasileira, acumula 30 gols em 87 partidas — média de 0,34 por jogo —, número expressivo para um jogador que não joga como centroavante fixo. Na Copa do Mundo de 2022, anotou um gol e participou diretamente de outros dois, interrompidos pela eliminação para a Croácia nas quartas de final, nos pênaltis.
A análise do SportNavo sobre o desempenho dos atacantes brasileiros nas últimas seis edições da Copa do Mundo revela um padrão preocupante: nenhum centroavante do Brasil marcou mais de dois gols em um único torneio desde Ronaldo, em 2006, quando o Fenômeno anotou três tentos — coincidentemente seu último Mundial. Adriano, Fred, Jo, Gabriel Jesus e Richarlison tiveram campanhas artilheiras modestas diante da grandeza esperada.
O que Ancelotti efetivamente valoriza em um atacante
Carlo Ancelotti conviveu com Endrick no Real Madrid entre julho de 2024 e janeiro de 2025. O período foi curto e o italiano optou por poupar o jovem brasileiro da pressão de grandes jogos, priorizando Kylian Mbappé e Vinícius como titulares. A decisão de ceder Endrick ao Lyon foi, segundo informações circulantes no mercado europeu, parte de uma estratégia para garantir ao atacante minutos reais de alta intensidade.

Ancelotti tem histórico de privilegiar jogadores com capacidade de pressão alta e mobilidade no último terço. Nos seus títulos de Champions League — quatro ao todo, com AC Milan em 2003 e 2007, e Real Madrid em 2014 e 2022 — sempre trabalhou com atacantes capazes de pressionar a saída de bola adversária. Filippo Inzaghi, Karim Benzema e Ronaldo (o Fenômeno, ainda que brevemente) compartilhavam essa característica. Endrick demonstrou exatamente esse perfil na partida contra a Croácia em março.
O levantamento do SportNavo sobre as convocações brasileiras desde 2002 mostra que técnicos com experiência europeia — Luiz Felipe Scolari em 2002 e 2014, Tite entre 2019 e 2022 — tenderam a priorizar atacantes com bom desempenho nos últimos 90 dias antes do torneio, independentemente do histórico anterior. Para Endrick, isso significa que as rodadas finais da Ligue 1 com o Lyon são literalmente decisivas.
A vaga existe — e ela pertence a ambos por razões diferentes
Há espaço para Vinícius Júnior e Endrick no mesmo grupo de 26. A questão real não é uma exclusão do outro, mas sim qual dos dois exercerá a função de referência ofensiva central caso a Seleção adote um sistema com centroavante fixo. Raphinha, do Barcelona — 27 gols na temporada 2024-25 pela La Liga —, Rodrygo e o próprio Vini compõem o grupo de atacantes já consolidados. Endrick disputa, efetivamente, as vagas de centroavante com Igor Jesus, do Botafogo.
A convocação de Ancelotti no dia 18 de maio dirá se o técnico optará por um ou dois centroavantes puros na lista. Considerando que nas últimas duas Copas o Brasil levou três centroavantes em 2018 (Gabriel Jesus, Roberto Firmino e Taison) e dois em 2022 (Gabriel Jesus e Richarlison), a tendência histórica favorece ao menos duas peças para a função. Endrick, após a atuação contra a Croácia e os minutos acumulados no Lyon, tem argumentos concretos para garantir seu passaporte para os Estados Unidos no dia 1º de junho.










