Não, Endrick não está garantido na Copa do Mundo 2026. A narrativa de que o jovem atacante do Lyon é nome certo na lista de Carlo Ancelotti — alimentada por vídeos virais e manchetes apressadas — esbarra em um detalhe revelado pelo próprio jogador: ele ainda disputa, na largada de maio, uma das duas vagas que permanecem abertas entre os 26 convocados que serão anunciados no dia 18. A pergunta relevante, portanto, não é se Endrick merece ir ao Mundial. É se ele conseguirá uma cadeira num avião já bastante lotado.
A narrativa popular que os números de Lyon corrigem
Desde que chegou ao clube francês, Endrick acumula oito gols e seis assistências em 19 partidas — média de 0,74 participações diretas em gol por jogo, índice respeitável para um atleta de 18 anos adaptando-se ao futebol europeu. Na última Data Fifa, ele entrou aos 76 minutos contra a Croácia, sofreu o pênalti que Igor Thiago converteu e ainda forneceu a assistência para o terceiro gol, marcado por Gabriel Martinelli. Quatorze minutos de protagonismo que reacenderam o debate — mas que, convenhamos, não equivalem a uma campanha completa de titular.
"Tem duas vagas entre os 26 jogadores e eu estou lutando por uma delas. Não só eu, como Igor Thiago, o João Pedro, o Richarlison e vários outros atacantes que atuam no Brasil. Vou seguir lutando até o final, fazendo o que for preciso para estar lá", declarou Endrick à revista Placar.
A concorrência é real e documentada. João Pedro chega com sequência regular no Watford e histórico de convocações anteriores. Igor Thiago converteu o pênalti que deu a vitória ao Brasil sobre a Croácia e vive fase positiva. Richarlison, apesar das lesões recorrentes que limitaram sua temporada 2025/2026, carrega o peso de 19 gols em 59 jogos pela Seleção — artilheiro ativo do grupo. Ancelotti confirmou que a lista está "quase fechada", mas mantém Neymar como variável não resolvida, além de precisar cobrir as ausências de Éder Militão, Estêvão e Rodrygo.
O que Endrick entende que a torcida ainda não aceita
Existe uma lógica cinematográfica que o torcedor aplica ao futebol — a do herói solitário que carrega o time nas costas e entrega o troféu no último segundo, como numa cena de Rocky. Endrick, curiosamente, é o primeiro a recusar esse papel. Aos 18 anos, ele articula um discurso coletivo que contraria o personagem que as redes sociais construíram para ele.
"Essa coisa de ser 'o cara do hexa' não pode ser vista assim. O bom é a gente formar uma família, formar uma seleção dentro da seleção brasileira. Não pode ficar somente nas costas do Vini, que é um grande jogador. Se nos unirmos junto com a torcida, será a melhor coisa", completou o atacante.
A perspectiva histórica confirma o raciocínio do jogador. O Brasil de 1994 não venceu a Copa pelos pés de Romário sozinho — Mazinho, Mauro Silva e Aldair foram igualmente decisivos na campanha de cinco vitórias e um empate na fase de grupos. O time de 2002, com Ronaldo artilheiro de oito gols no torneio, precisou de Gilberto Silva como base e de Ronaldinho Gaúcho para desmontar a Inglaterra nas oitavas. Protagonismo individual existe, mas sempre dentro de uma estrutura coletiva funcional.

O que o dia 18 de maio vai revelar além dos nomes
Na avaliação do SportNavo, a convocação de 18 de maio será lida não apenas como uma lista de 26 nomes, mas como a declaração tática de Ancelotti para um torneio que começa em 11 de junho. As ausências confirmadas de Estêvão, Rodrygo e Éder Militão já redesenharam o perfil do grupo. O retorno ou não de Neymar — com apenas 17 minutos jogados desde a ruptura do ligamento cruzado em outubro de 2024 — será o termômetro da disposição do técnico italiano a apostar em potencial contra forma física comprovada.

Vanderson, que se recupera de lesão, disputa a lateral-direita com outros candidatos. No ataque, a matemática é simples e cruel: se Neymar entrar na lista, uma das quatro vagas em disputa — Endrick, Igor Thiago, João Pedro ou Richarlison — ficará de fora. A convocação acontece em 10 dias. Endrick tem 18 anos e, na Copa do Mundo 2026, completará 19 durante o torneio — a mesma idade que Pelé tinha quando marcou dois gols na final de 1958.









