Se a temporada do Erick fosse avaliada apenas pelos minutos jogados, o diagnóstico seria simples: presença, regularidade, confiança do treinador. Mas futebol não se mede só pela permanência em campo — e é exatamente aí que a conta do camisa 33 do Vitória ainda não fecha.
O pernambucano de Recife, nascido em 10 de dezembro de 1997, chegou ao Vitória com 28 anos e um currículo que inclui passagens pelo São Paulo e pelo Ceará, além de participações em Libertadores, Sudamericana, Copa do Brasil e Copa do Nordeste. No Brasileirão Série A de 2026, ele soma 31 jogos, 3 gols e 5 assistências — números que contam uma história de utilidade, mas também de uma lacuna que o próprio desempenho em temporadas anteriores torna difícil de ignorar.
O que ele ainda não resolveu
A comparação que define o problema de Erick está em 2023, quando atuava pelo Ceará na Série B: foram 10 gols e 4 assistências em 30 partidas pelo campeonato, além de 5 gols em 11 jogos na Copa do Nordeste. Era um futebolista diferente em termos de produção ofensiva — ou ao menos estava em um contexto que o liberava para aparecer com mais frequência na área adversária. O que para o meia argentino é naturalidade no último terço — uma herança tática de clubes que jogam em bloco baixo e exploram transições —, para o meia brasileiro formado em contextos de posse e criação como o São Paulo costuma ser uma adaptação constante a diferentes demandas posicionais. Erick vive esse dilema: quando tem espaço e liberdade, produz; quando a função exige mais contenção e disciplina posicional, os números ofensivos murcham.
Na temporada de 2024 pelo São Paulo, foram 35 jogos na Série A com apenas 1 gol e 2 assistências. A diferença em relação ao pico de 2023 é brutal e não se explica apenas pela qualidade do elenco ao redor ou pelo nível do adversário — ela aponta para uma questão mais profunda: Erick ainda não encontrou a versão de si mesmo que funcione em alta intensidade e dentro de um sistema mais exigente taticamente.
Onde está hoje em relação a esse buraco
Com 31 jogos em 2026 e 8 participações diretas em gols (3 gols + 5 assistências), Erick está num patamar intermediário. É melhor do que 2024 no São Paulo, mas distante da eficiência que demonstrou na Série B de 2023. O dado das 5 assistências, no entanto, merece atenção: sugere que o jogador encontrou no Vitória uma função mais conectada à criação do que à finalização, o que pode ser tanto uma solução tática inteligente quanto uma fuga inconsciente da área de risco.
O físico de 1,73 m e 63 kg nunca foi um entrave — há meias de dimensões semelhantes que dominam ligas de alto nível por décadas. O que define Erick não é a estrutura, mas a tomada de decisão no terço final: quando chegar, quando combinar, quando arriscar. Em 2026, ele parece mais consciente do papel de articulador, mas isso ainda não se traduziu em protagonismo ofensivo consistente dentro do Vitória.
O caminho técnico para tapá-lo
A trajetória de Erick pelo Ceará em 2022 oferece uma pista. Naquele ano, na Série A e na Sudamericana combinadas, ele marcou 5 gols em 32 jogos — números modestos, mas que revelam uma capacidade de aparecer em competições de alto nível quando bem posicionado. A Sudamericana, especificamente, foi o ambiente em que ele marcou 3 gols em 8 jogos, um aproveitamento que indica que o jogador responde bem a contextos nos quais há espaço entre as linhas e menos pressão de marcação organizada.
O caminho técnico passa por consolidar essa capacidade de infiltração no ambiente da Série A, que é mais lento em termos de transição mas mais exigente em termos de posicionamento. Erick precisa transformar as 5 assistências de 2026 em uma plataforma — não apenas servir, mas também chegar. A diferença entre um meia de apoio e um meia decisivo está nessa dupla função, e é ela que ainda separa o jogador atual do jogador que ele foi em 2023.

O que isso destrava na carreira
Erick tem 28 anos — uma idade que, no futebol brasileiro, costuma ser tratada como o início do declínio, mas que, na prática, representa o pico de maturidade técnica e tática para a maioria dos meias. Se ele conseguir consolidar no Vitória uma temporada com pelo menos 6 gols e 6 assistências na Série A, estará construindo um argumento concreto de mercado para 2027.
O histórico em competições continentais — Libertadores pelo São Paulo em 2024, Sudamericana pelo Ceará em 2022 — mostra que o jogador já transitou por níveis de exigência acima da média nacional. O que falta é a consistência que transforma episódios em padrão. Um Vitória que permaneça na Série A e mantenha Erick como titular tem nas mãos a oportunidade de ser o clube onde esse padrão finalmente se estabelece.
Se a temporada do Erick fosse avaliada apenas pelos jogos disputados, o diagnóstico seria simples — mas futebol, como a carreira deste meia pernambucano já provou mais de uma vez, raramente é.










