Diz-se que Rodrygo tem o posto garantido no lado direito da Seleção Brasileira. Na verdade, não tem — e o motivo está numa sala de ressonância magnética no Chelsea, onde um médico ficou sem palavras diante de uma imagem que não fazia sentido.

A cena aconteceu há cerca de duas semanas. Estêvão, o garoto de 19 anos revelado pelo Palmeiras e hoje no Chelsea, entrou no aparelho carregando a memória de uma ruptura de 80% do bíceps femoral da coxa direita — lesão sofrida em 18 de abril contra o Manchester United, pela Premier League. Saiu de lá com o médico ao lado, confuso.

"Ele falou que não via mais nenhuma lesão. Ele falou que não sabe o que aconteceu, porque no prazo que está, não deveria estar daquele jeito, tão bem estruturado. Ele falou que nem sabia porque os médicos queriam que eu fizesse a cirurgia", contou Estêvão em testemunho na Igreja Visão do Evangelho, em Franca, sua cidade natal no interior de São Paulo.

O atacante recusou a cirurgia que o próprio dono do Chelsea recomendou. Apostou no tratamento conservador. E o corpo respondeu mais rápido do que qualquer protocolo previa. O problema é que a Copa do Mundo não esperou: Estêvão ficou fora da pré-lista de Carlo Ancelotti. Rodrygo entrou. E agora os dois convergem para o mesmo corredor do campo, o mesmo espaço tático, a mesma vaga.

A volta de Rodrygo e o teste em campo aberto

Há um precedente que a torcida brasileira conhece bem. Em 2018, Willian e Douglas Costa disputaram a ponta direita de Tite até a véspera da Copa da Rússia. Willian começou. Douglas Costa entrou no banco. Nenhum dos dois decidiu nada. O Brasil caiu nas quartas para a Bélgica. A disputa por posição existe, o critério de escolha, nem sempre.

Ancelotti, ao menos, tem sido mais transparente nos testes. Em Seul, durante a preparação para o amistoso contra a Coreia do Sul, o treinador italiano montou um quarteto ofensivo com Vinicius Júnior, Rodrygo, Estêvão e Matheus Cunha — num período em que Estêvão ainda estava disponível. A formação indicava o italiano testando Rodrygo mais aberto pela direita, com Vini Jr. operando mais perto do gol. A mensagem tática era clara: o Real Madrid voltou como bloco para a Seleção… e aí vem o problema.

Rodrygo retornou à Seleção após seis meses de ausência. Sua volta, registrada pelo GE durante os treinos em Seul, foi recebida como evento — câmeras, coletes, Ancelotti observando de perto. O jogador do Real Madrid atua exatamente no mesmo corredor que Estêvão ocupa quando está disponível: a ponta direita que corta para dentro, cria superioridades e finaliza. Não há como escalar os dois no mesmo sistema sem mover um deles de função.

O que Ancelotti testou e o que os amistosos revelam

Nos amistosos de preparação, o técnico italiano tem variado o quarteto ofensivo com consistência. Contra o Panamá, no Maracanã, em 31 de maio, Matheus Cunha, Luiz Henrique, Vinicius Júnior e Raphinha foram os escolhidos — com Rodrygo ainda sendo integrado ao grupo. Contra a Coreia do Sul, Rodrygo apareceu no time que Ancelotti testou em treino, ao lado de Estêvão, numa das últimas vezes em que o garoto do Chelsea esteve disponível antes de confirmar a lesão.

Nas atividades em Londres, já sem Estêvão, a provável escalação apontada pelo Lance! para o amistoso contra o Senegal tinha Rodrygo como titular, com Wesley, Marquinhos, Gabriel Magalhães e Caio Henrique na defesa, Casemiro e Bruno Guimarães no meio, e o quarteto ofensivo completado por Matheus Cunha e Vini Júnior. O 4-2-4 de Ancelotti funciona com dois atacantes abertos e dois centralizados — e a briga real é por qual dos dois extremos-direitos ocupa aquela faixa.

Em matéria do SportNavo, o esquema tático preferido de Ancelotti ficou mais claro após o amistoso contra o Chile, pelas Eliminatórias: o treinador confirmou que quer jogar rápido, com pressão alta e quatro atacantes.

"Queremos fazer uma boa pressão ofensiva e jogar rápido com bola. Acho que podemos repetir o jogo contra o Paraguai para a torcida ficar contente com o nosso jogo"
, disse Ancelotti à época. Nesse modelo, o lado direito precisa de um jogador que pressione, que dribble em velocidade e que finalize. Estêvão e Rodrygo atendem os três critérios — mas com perfis diferentes.

A volta de Rodrygo e o teste em campo aberto Estêvão some da ressonância e Rodry
A volta de Rodrygo e o teste em campo aberto Estêvão some da ressonância e Rodry

Perfis distintos, mesma posição e um único lugar no time

Estêvão tem 19 anos e um estilo que lembra os melhores momentos de Robinho jovem: arranca pelo lado, inverte o jogo, aparece onde ninguém espera. Peça fundamental desde a chegada de Ancelotti, ele foi titular nos primeiros jogos do ciclo até a lesão interromper tudo. O médico do Chelsea disse que a recuperação está mais rápida do que o esperado — mas mais rápida não significa a tempo. A estreia do Brasil na Copa é em 13 de junho, contra Marrocos, no MetLife Stadium, em Nova Jersey.

Rodrygo tem 24 anos, experiência de Champions League com o Real Madrid e a capacidade de jogar tanto pela direita quanto pelo lado esquerdo em caso de necessidade. A volta após seis meses de ausência exigiu reintegração — e Ancelotti fez questão de testá-lo em campo real antes de qualquer definição. O italiano não costuma garantir titularidade por nome. Garantiu por desempenho nos treinos, como mostrou a escalação em Seul.

O Brasil enfrenta o Egito em Cleveland no dia 6 de junho, último teste antes do Mundial. Esse jogo vai dizer mais do que qualquer análise: se Rodrygo começar pela direita e mostrar entrosamento com Vini Jr., a vaga está encaminhada. Se Ancelotti testar outro jogador naquela posição, a disputa segue aberta. Estêvão, por sua vez, ainda tem uma chance mínima de ser incluído se a recuperação continuar no ritmo que surpreendeu os médicos — mas o prazo é de 13 dias.

O prazo que decide tudo antes de Marrocos

A Seleção Brasileira viajou para os Estados Unidos em 1º de junho. Neymar ficou em Nova Jersey recuperando a panturrilha direita, sem condições de jogar contra o Egito. Estêvão está fora da lista. O grupo que Ancelotti tem à disposição para o amistoso de Cleveland é, na prática, o grupo que vai estrear contra Marrocos.

Rodrygo está lá. Em campo. Sendo testado. Com seis meses de ausência nas costas e a titularidade pela direita como prêmio possível. Estêvão está em Franca, com uma ressonância que deixou um médico sem palavras e uma recuperação que desafiou o protocolo do Chelsea. A diferença entre os dois, agora, não é de qualidade. É de disponibilidade. E no futebol de Copa do Mundo, disponibilidade no dia 13 de junho é tudo o que importa — faltam exatos 9 dias.