Confesso: eu subestimei a gravidade da situação de Estêvão quando os primeiros boletins médicos chegaram. Pensei que o grau 4 da lesão muscular na coxa seria tratado com a velocidade que a medicina esportiva moderna costuma impor. Hoje, relendo os dados clínicos e comparando com casos históricos na Seleção Brasileira, vejo o porquê do ceticismo que domina os bastidores da CBF.
O diagnóstico do momento
Uma ruptura muscular grau 4 — classificação máxima na escala de lesões musculares — representa comprometimento total das fibras, com sangramento interno e perda funcional imediata. O prazo convencional de recuperação para esse tipo de trauma em atletas de alto rendimento oscila entre 90 e 120 dias, dependendo da extensão e da localização exata da lesão. Estêvão tem, na melhor das hipóteses, 40 dias até a estreia do Brasil na Copa do Mundo, marcada para 13 de junho contra o Marrocos, no MetLife Stadium, em Nova Jersey. A matemática não favorece.

O Chelsea autorizou o retorno ao Brasil mediante uma condição objetiva: um funcionário do clube inglês acompanha todo o processo de recuperação nas instalações do Palmeiras. A CBF mantém contato direto com o staff do jogador, mas não tem poder de interferir no protocolo médico. A lista final de Ancelotti sai no dia 18 de maio, em evento na sede da confederação, no Rio de Janeiro. Entre hoje e essa data, há menos de duas semanas — tempo insuficiente para qualquer conclusão definitiva sobre a aptidão física do atleta.
A possibilidade de cirurgia para reparo muscular, ventilada nos primeiros dias após o diagnóstico, foi o elemento que mais assustou a comissão técnica. Uma intervenção cirúrgica, nesse tipo de lesão, adiciona entre 60 e 90 dias ao processo de recuperação, eliminando qualquer chance de participação no torneio. Por ora, o caminho conservador — fisioterapia intensiva, nutrição específica e monitoramento diário — é o que está em curso, com a nutricionista Mirtes Stancanelli, referência no Palmeiras e profissional que acompanhou Estêvão durante sua formação no clube, integrada ao processo.
Os fatores que explicam o quadro
Para entender a dimensão da perda potencial, basta olhar para os números do ciclo de Ancelotti. Estêvão é o artilheiro da Seleção sob o comando do italiano, com cinco gols marcados — três a mais do que Rodrygo, já descartado por lesão, e três a mais do que Martinelli e Vinícius Jr. no mesmo período. Ele operava como titular pela faixa direita do ataque, função que nenhum outro nome no elenco atual ocupa com a mesma naturalidade técnica.
A análise do SportNavo sobre os últimos quatro ciclos de Copa do Mundo do Brasil revela um padrão preocupante: em todas as edições em que a Seleção perdeu um atacante titular por lesão nos 60 dias anteriores ao torneio — como aconteceu com Ronaldo em 1998 (convulsão às vésperas da final) e com Neymar em 2014 (fratura de vértebra nas quartas contra a Colômbia) — o rendimento ofensivo caiu de forma mensurável. Em 1998, o Brasil marcou apenas um gol na final contra a França. Em 2014, sem Neymar, a Seleção sofreu 7 a 1 da Alemanha na semifinal.
O retorno ao Brasil foi uma decisão do próprio Estêvão e de sua equipe, motivada por fatores que vão além do protocolo médico: a familiaridade com o ambiente, a estrutura de ponta do CT do Palmeiras e a proximidade com familiares. O jogador chegou a ter contato breve com o elenco alviverde antes de o time embarcar para Lima, onde enfrentou adversário pela Copa Libertadores no último domingo.
Quantos jogadores, na história recente do futebol mundial, conseguiram se recuperar de uma lesão grau 4 em menos de seis semanas e ainda atuar em competição de alto nível?
Os cenários possíveis daqui
O cenário mais otimista — e o único que mantém Estêvão na Copa — prevê uma recuperação acelerada sem cirurgia, convocação no dia 18 de maio, apresentação na Granja Comary no dia 27 e continuidade do tratamento junto ao grupo da Seleção. Mesmo nesse caso, Ancelotti já sinalizou internamente que o atacante provavelmente não estaria em condições de atuar na estreia contra o Marrocos. A pergunta real é se ele chegaria a tempo para a segunda rodada da fase de grupos.
O cenário intermediário é a convocação com restrição: Estêvão integra o grupo, faz o tratamento paralelo, mas fica disponível apenas a partir das oitavas de final — se o Brasil chegar lá. É um risco calculado que Ancelotti pode aceitar, considerando que o jogador representa uma solução tática que nenhum outro nome da lista reproduz com a mesma eficiência.
O cenário mais provável, segundo a avaliação do SportNavo com base nos prazos médicos documentados para lesões de grau 4, é a exclusão da lista. Ancelotti precisaria convocar um substituto para a faixa direita — posição em que Savinho, Luiz Henrique e Pepê são os nomes mais cotados no momento — e reorganizar o esquema ofensivo que havia sido construído em torno da mobilidade e da velocidade de Estêvão.
A lista final de 26 jogadores será divulgada em 18 de maio. O Brasil estreia em 13 de junho. Entre essas duas datas, há 26 dias — tempo em que Estêvão precisaria provar, em campo, que a medicina errou os prognósticos.
Estêvão tem talento para reescrever o roteiro — falta o corpo confirmar o que o futebol já sabe.









