Não foi um colapso de demanda estrutural. Foi uma virada de fluxo institucional — precisa, datada e mensurável. Na sexta-feira, dia 30, os ETFs à vista de Bitcoin listados nos Estados Unidos registraram saída líquida de US$ 616 milhões em um único pregão, o pior resultado desde 26 de fevereiro. O IBIT, fundo da BlackRock, respondeu sozinho por US$ 430 milhões dessas retiradas, segundo dados da SoSoValue. Com esse movimento, encerrou-se uma sequência de 34 dias consecutivos de fluxo positivo — o maior streak da série histórica dos ETFs de BTC.
O IBIT lidera as saídas e desfaz o recorde de 34 dias
O número 34 importa. Desde que os ETFs spot de Bitcoin foram aprovados pela SEC, em janeiro de 2024, nenhuma sequência de entradas havia durado tanto. A ruptura, portanto, não é apenas estatística — sinaliza uma mudança de postura dos gestores institucionais que usavam esses produtos como veículo primário de exposição ao ativo.
Nos dias seguintes ao corte, o preço do Bitcoin respondeu em cascata. O ativo, que operava acima de US$ 104 mil no início da semana, caiu abaixo de US$ 99 mil — sua maior baixa em cinco meses — e depois recuou para a faixa dos US$ 76 mil. Na quarta-feira (27), era negociado a US$ 74.921,50, queda de 2,4% em 24 horas, equivalente a R$ 378.825,10 no mercado doméstico, conforme o CoinTrader Monitor.
O acúmulo de retiradas nas duas semanas anteriores já somava US$ 2,26 bilhões, segundo Gil Herrera, diretor de estratégia e expansão da Bitget para a América Latina.
"Isso mostra uma redução relevante do apetite dos investidores por exposição ao ativo neste momento", afirmou Herrera.
O índice Fear & Greed do mercado cripto despencou para 25 pontos na quarta-feira, mais de 10 pontos abaixo da sessão anterior — nível que indica medo elevado entre participantes do mercado.
Guerra comercial de Trump e ataques ao Irã amplificam a pressão vendedora
O gatilho institucional encontrou um cenário macroeconômico hostil. A guerra comercial conduzida pelo governo Trump elevou a aversão ao risco em ativos voláteis, e os novos ataques americanos contra alvos iranianos na noite de segunda-feira (26) intensificaram a incerteza geopolítica. Washington classificou a ação como defensiva; Teerã afirmou que o cessar-fogo foi violado, antes de anunciar um esboço de acordo.
Inflação.
O CPI americano de abril registrou alta de 3,8% em 12 meses, com pressão concentrada em energia e serviços. O dado reposicionou as apostas do mercado: investidores passaram a precificar não apenas a manutenção dos juros elevados pelo Federal Reserve, mas a possibilidade de uma alta ainda em 2026. Esse cenário retira atratividade de ativos de alto risco como o Bitcoin.
A Bitfinex destacou em relatório que o enfraquecimento dos ETFs coincidiu com perda de força em produtos ligados à Strategy, como o STRC, removendo duas fontes simultâneas de demanda. As entradas mensais de capital seguem positivas — US$ 2,8 bilhões —, mas abaixo dos volumes registrados nos ciclos de alta mais intensos.
No mesmo período, os ETFs de Ethereum também sangraram. Combinados com os de BTC, os fundos à vista registraram saída de US$ 797 milhões em 24 horas em um dos dias mais pesados do mês de novembro de 2025, acumulando US$ 718,9 milhões de retiradas no ETH em apenas sete dias.
Bitcoin monitora suportes em US$ 71,5 mil e US$ 68,9 mil no curto prazo
Com a perda dos suportes técnicos relevantes, o mercado passou a monitorar três níveis de atenção. O primeiro, em torno de US$ 74,4 mil, já foi testado. Caso a pressão vendedora persista, os próximos pontos de suporte estão em US$ 71,5 mil e US$ 68,9 mil, segundo análise de Herrera.
As altcoins acompanharam o movimento de baixa. O Ethereum recuava 2,8%, a US$ 2.053,38; o XRP caía 2,3%, a US$ 1,32; a BNB perdia 1,8%, a US$ 649,87; e a Solana recuava 2,3%, negociada a US$ 83,00.
Enquanto o fluxo institucional se retraía, a Metaplanet, empresa japonesa de capital aberto, anunciou a compra de mais 1.088 bitcoins ao custo de US$ 117,5 milhões, elevando seu total para 8.888 BTC — equivalentes a US$ 930 milhões. A meta da companhia é chegar a 10.000 BTC até o fim do ano. No Brasil, a Méliuz registrou oferta pública de 17.006.803 ações ordinárias, com captação estimada entre R$ 150 milhões e R$ 450 milhões, destinada integralmente à aquisição de Bitcoin como ativo estratégico de tesouraria.
No campo regulatório, o avanço do Clarity Act no Comitê Bancário do Senado americano representa um ponto positivo de médio prazo para o setor, ao estabelecer regras mais claras para ativos digitais. No curto prazo, porém, conforme apuração do SportNavo, a direção do Bitcoin segue atrelada ao fluxo dos ETFs, ao comportamento dos juros longos americanos e à capacidade do ativo de sustentar preços acima de US$ 74 mil.
"O índice Fear & Greed do mercado cripto caiu para 25 pontos nesta quarta-feira, uma baixa de mais de 10 pontos em relação à sessão anterior", reforçou Herrera, da Bitget.
O próximo dado relevante para o mercado é a leitura do PCE americano, prevista para esta semana, que pode reforçar ou amenizar as apostas de alta de juros pelo Fed. Quem monitora posição em Bitcoin vale acompanhar o comportamento do fluxo dos ETFs nos próximos três pregões — se as saídas continuarem acima de US$ 200 milhões por dia, o suporte de US$ 71,5 mil vira o novo centro de gravidade do debate.








