Confesso: eu errei sobre o Santa Cruz em 2011. Quando o clube caiu para a Série D, escrevi nos comentários de um fórum que o Tricolor levaria uma década para voltar a ter relevância nacional. Levou cinco anos. E a estreia contra o Vitória, no Arruda, foi a prova concreta de que subestimei o tamanho desse clube.
Da Série D ao Brasileirão em cinco temporadas seguidas de subida
Em 2011, o Santa Cruz disputava a quarta divisão do futebol brasileiro — o patamar mais baixo entre os clubes profissionais do país. O clube foi campeão da Série D, subiu para a Série C, permaneceu na terceira divisão até 2013, quando conquistou o acesso para a Série B. Duas temporadas depois, o Tricolor estava de volta à Série A, dez anos após sua última aparição na elite.

A trajetória linear — D, C, B, A — sem nenhum tropeço que jogasse o clube de volta ao ponto de partida é rara no futebol brasileiro. Clubes como o próprio Vitória e o Sport oscilaram nesse mesmo período. O Santa Cruz não. Subiu em ritmo de escada, degrau por degrau, sem pular nenhum.
O técnico Milton Mendes — que chegou ao clube com histórico de bom desempenho à frente do Athletico-PR, onde chegou a liderar o Brasileirão por algumas rodadas — foi escolhido para comandar essa missão na Série A. Ele foi direto sobre o que precisa para competir na elite:
"Se nós tivéssemos um maior número de jogadores, um plantel mais robusto, poderíamos brigar mais tempo lá em cima. Quando começaram os jogos de quarta e domingo, ficou complicado. O segredo para brigar na parte de cima é ter um plantel homogêneo, com qualidade e um número bom de jogadores."
Títulos regionais que deram combustível para a volta à elite
O Santa Cruz não chegou à Série A apenas pela consistência na tabela. Chegou como campeão — da Copa do Nordeste e do Campeonato Pernambucano — o que transformou o clube em favorito regional antes mesmo de a bola rolar no Brasileirão.
Nos amistosos de pré-temporada, o Tricolor mostrou força. Bateu o Flamengo por 3 a 1 no Arruda pela Copa Chico Science e confirmou sequência de preparação contra o Botafogo-PB. Resultados que alimentaram a confiança do elenco e fizeram a torcida lotar as redes sociais — o perfil oficial do clube registrou pico de engajamento nas 48 horas após a vitória sobre o Fla, com o post do placar ultrapassando 12 mil interações no Twitter.
O clube ainda buscava reforços às vésperas da estreia. Foram anunciados quatro jogadores nas semanas anteriores — o volante Bolaños, o lateral-esquerdo Roberto, o atacante Everaldo Stum e o meia Fernando Gabriel. Destes, apenas Fernando Gabriel estava regularizado para o jogo de abertura, entrando como titular por conta das contusões dos meias Lelê e João Paulo.
A memória de 1999 que o clube manteve viva no Arruda
Enquanto o presente era construído, o Santa Cruz também resgatou o passado. O clube organizou um amistoso comemorativo — gratuito, com entrada solidária mediante doação de um quilo de alimento — para celebrar os 23 anos do acesso histórico à Série A em 1999, quando o time foi conduzido pelo técnico Nereu Pinheiro.
Aquela campanha de 1999 nasceu de uma crise interna. O empresário Jonas Alvarenga havia encabeçado uma campanha massiva de sócios — o clube chegou a 27 mil ativos — e contratado nomes como o volante argentino Mancuso e o zagueiro Almandoz. O projeto não funcionou. Nereu Pinheiro assumiu e fez uma exigência incomum: queria que um time inteiro de 11 jogadores fosse dispensado. A diretoria aceitou. Nasceram as chamadas "pratas da casa".
O time de 1999 — com Zé do Carmo, Maurício Pantera, Célio e Leto entre os confirmados para o amistoso comemorativo — venceu América-RN, Sampaio Corrêa, São Caetano (líder do torneio na época), Goiás, Vila Nova e Bahia na reta final para garantir o retorno histórico à elite. O evento havia sido planejado para 2020, mas a pandemia de Covid-19 cancelou tudo. Dois anos depois, o Arruda recebeu a celebração.
Essa conexão entre gerações — o time de 1999 que inspirou e o time de 2016 que executou — é exatamente o tipo de narrativa que explode nas redes. O documentário As Pratas da Casa, que registrou aquela campanha histórica, voltou a circular nos grupos de WhatsApp e no YouTube nas semanas que antecederam a estreia.
O desafio real de ficar na Série A com elenco curto
A festa tem prazo de validade. Milton Mendes foi honesto sobre isso. Com um plantel ainda incompleto às vésperas da estreia e peças importantes no departamento médico, o Santa Cruz enfrenta o desafio clássico dos recém-promovidos — equilibrar a euforia da chegada com a dureza de 38 rodadas contra os melhores do país.
A vitória por 2 a 0 sobre o Vitória da Conquista-BA fora de casa, pela segunda fase da Copa do Brasil — com time misto — indicou que a equipe tem profundidade de elenco suficiente para rodar. Mas a Série A exige muito mais do que isso.
O Vitória, adversário da estreia no Arruda, também subiu em 2015 e chegava à Série A no mesmo ciclo. Dois nordestinos, dois históricos de queda e reconstrução, dividindo o mesmo campo na primeira rodada. O contexto não poderia ser mais simbólico para uma estreia.
A primeira rodada do Santa Cruz na Série A aconteceu no Arruda, em Recife, às 11h de um domingo — com a torcida tricolor em peso e o clube carregando dez anos de ausência da elite. Em 17 de maio, após cinco rodadas disputadas, saberemos se a reconstrução foi sólida o suficiente para segurar o clube onde ele sempre quis estar.









