Confesso: eu errei sobre Ji Bowen em 2025. Quando o chinês começou a aparecer no circuito mundial, escrevi que era mais um nome da fila asiática tentando incomodar Isaquias Queiroz sem consistência para sustentar uma rivalidade real. Szeged me deu um tapa na cara — e Brandemburgo, no sábado (16), me deu a dimensão exata do que essa disputa representa para o ciclo olímpico que termina em Los Angeles.
Dez centésimos que separam dois mundos e uma derrota não digerida
Isaquias Queiroz cruzou a linha de chegada dos 500 metros da categoria C1 em 1min52s55, superando Ji Bowen por exatos 10 centésimos de segundo. Para quem não é da modalidade, 0s10 parece insignificante — mas na canoagem velocidade, é a diferença entre dois atletas que remaram praticamente no mesmo nível técnico por pouco mais de um minuto e cinquenta e dois segundos. Uma semana antes, na etapa de Szeged, na Hungria, Ji Bowen havia invertido essa conta e deixado o baiano com a prata. O chinês chegou a Brandemburgo como favorito moral. Saiu em segundo.
O que torna o resultado ainda mais expressivo é o contexto estatístico: Isaquias, 32 anos, acumula cinco medalhas olímpicas — uma de ouro, conquistada em Tóquio 2020 — e construiu uma regularidade que poucos atletas do circuito mundial conseguem manter na fase de preparação para Jogos. A margem de 0s10 sobre Ji Bowen equivale, proporcionalmente ao percurso de 500 metros, a algo da ordem de 1,4 metro de distância na chegada. É menos do que o comprimento de uma canoa… e aí vem o problema.
Gabriel Assunção e a dobradinha que muda o cálculo tático do Brasil
O pódio de Brandemburgo nos 500m C1 não foi apenas a vitória de Isaquias. O jovem Gabriel Assunção, 20 anos, garantiu o bronze com 1min54s60 — ou seja, 2s05 atrás do compatriota. A presença de Assunção no pódio é um dado que merece análise própria: em uma prova de elite do circuito mundial, com os melhores C1 do planeta, um atleta de 20 anos termina em terceiro. Para comparação, a diferença de tempo entre Assunção e Isaquias (2s05) é menor do que a distância entre o quarto e o décimo colocados em edições anteriores da Copa do Mundo na mesma prova. O Brasil não apenas venceu — fechou o pódio com representantes de gerações distintas, o que sinaliza profundidade real no setor.
A dobradinha também tem implicação tática direta para os próximos meses. Com dois brasileiros entre os três primeiros em Brandemburgo, o técnico da seleção passa a ter o luxo de calibrar a preparação de Assunção como peça de pressão sobre rivais — inclusive Ji Bowen, que precisará dividir atenção estratégica entre dois adversários do mesmo país.
Sete medalhas no total e o quadro completo da etapa alemã
O Brasil encerrou a etapa de Brandemburgo com sete medalhas: dois ouros, três pratas e dois bronzes. Cinco delas vieram das provas paralímpicas, onde a delegação verde-amarela demonstrou a mesma solidez que marcou os Jogos de Paris 2024. Fernando Rufino, o "Cowboy de Aço" de Itaquiraí (MS), foi ouro nos 200m da classe VL2 no sábado (16), com 53s44 — mais de um segundo à frente do ucraniano Andrii Kryvchun (54s96). No domingo (17), Rufino voltou à raia e terminou com a prata na KL2 200m, superado pelo australiano Curtis McGrath (44s98) por 37 centésimos. Bicampeão paralímpico — Tóquio 2020 e Paris 2024 — e com 41 anos completados em 22 de maio, Rufino segue sendo a referência absoluta da paracanoagem brasileira.
"Foi uma prova disputada, muito dura, valendo pontos para os Jogos Olímpicos. Rolou um acidente. Eu estava em quarto, disputando o terceiro lugar, mas o adversário acabou me derrubando na água. A partir daí, a coisa começou a desandar, mas eu não desisti. Fui para cima e ainda fiquei em quinto. É aprendizado, voltar para o Brasil, treinar e, se Deus quiser, subir ao pódio na próxima etapa", disse Mateus Nunes Bastos após ser empurrado pelo bielorrusso Ivan Patapenka no C1 5000m.
A cena protagonizada por Mateus Nunes Bastos e Patapenka no C1 5000m foi o episódio mais tenso do domingo. O bielorrusso empurrou o brasileiro em um momento de transição — quando os atletas saem da água para entrar novamente —, derrubando Mateus na raia. O resultado imediato foi a queda para a sexta posição, mas Patapenka foi desclassificado pela arbitragem, e Mateus subiu para o quinto lugar. A declaração do atleta, citada acima, traduz bem a mentalidade que a comissão técnica tenta cultivar: absorver o imprevisto e projetar a próxima oportunidade.
Miqueias Rodrigues garantiu a segunda prata do domingo nos 200m da classe KL3, com 44s91, ficando atrás do georgiano Serhii Yemelianov (44s14) e à frente do neozelandês Finn Murphy. Luis Carlos Cardoso, o piauiense que era dançarino antes de uma infecção na medula o tornar cadeirante, somou prata no KL1 200m com 49s85 — superado pelo húngaro Peter Kiss (47s09), pentacampeão mundial e bicampeão paralímpico. Giovane Vieira de Paula fechou o quadro de medalhas com bronze no VL3 200m, em 49s00, a 15 centésimos do ucraniano Vladyslav Yepifanov.
O que os números de Brandemburgo revelam sobre a rota até Los Angeles
A rivalidade entre Isaquias e Ji Bowen é, neste momento, o duelo mais matematicamente equilibrado da canoagem velocidade masculina no C1. Em duas etapas consecutivas da Copa do Mundo de 2026, os dois atletas alternaram a vitória com margens inferiores a 0s15. Para ter uma referência concreta: a diferença acumulada entre os dois em Szeged e Brandemburgo somadas é menor do que a distância entre dois postes de energia elétrica numa estrada vicinal do interior do Piauí. É dizer: estatisticamente, estamos diante de um empate técnico prolongado que só será resolvido na prova que importa.
A Copa do Mundo de canoagem velocidade segue com a próxima etapa prevista para o calendário internacional de 2026, e tanto Isaquias quanto Ji Bowen devem estar presentes — cada um carregando uma vitória na bagagem e a pressão de quem sabe que o adversário não vai dar margem. Gabriel Assunção, por sua vez, tem 20 anos e um bronze no currículo que já supera o que boa parte dos canoístas brasileiros produziu na mesma faixa etária. A Copa do Mundo ainda tem etapas pela frente, e o Brasil chega à sequência com confiança técnica e numérica para sustentar o protagonismo.









