Confesso: eu errei sobre Sean Strickland em 2024. Quando ele perdeu o cinturão para Dricus Du Plessis por decisão dividida, escrevi que sua fase de topo havia passado. Hoje, diante de uma luta pelo título contra Khamzat Chimaev no UFC 328, em Newark, Nova Jersey, vejo com clareza o quanto aquela análise foi precipitada — e o quanto o estilo dele ainda assusta qualquer adversário que prefira trocação de longa distância.
A rivalidade que Newark vai resolver no octógono
Poucos confrontos no MMA contemporâneo acumularam tanto atrito fora do cage quanto este. Chimaev e Strickland protagonizaram trocas verbais ao longo de meses, com provocações que extrapolaram o script habitual de pré-luta. Na coletiva de imprensa realizada no Prudential Center, em 7 de maio de 2026, os dois precisaram ser separados após Chimaev desferir um chute em direção a Strickland durante o face-off — um episódio registrado pelo fotógrafo Ed Mulholland e amplamente divulgado. Analistas do MMA Fighting, como Jed Meshew e Alexander K. Lee, classificaram a rivalidade como uma das mais carregadas de bad blood na história recente do UFC, colocando-a no grupo seleto das três maiores da organização.
"Esta não é uma rivalidade de marketing. É pessoal, e o octógono vai cobrar isso dos dois", avaliou Jed Meshew no preview show do UFC 328.
O contexto vai além das palavras. Chimaev carrega um cartel de 14 vitórias e 0 derrotas, com finish rate de 78,5% — onze finalizações entre nocautes e submissions. Strickland, por sua vez, acumula 30 vitórias em 32 lutas, sendo 11 por nocaute e 1 por finalização, com um volume de striking que poucos na divisão conseguem sustentar por 25 minutos.
O que os números revelam antes do primeiro round
A diferença de abordagem entre os dois é quantificável. Chimaev registra takedown accuracy de 57% ao longo da carreira, com média de 4,2 tentativas por luta — um índice superior ao de Ben Askren durante toda a passagem pelo UFC, atleta que foi considerado referência em wrestling de controle. Quando o russo consegue levar a luta ao chão, o ground and pound gerado é suficiente para forçar o árbitro a intervir: cinco das suas onze finalizações partiram de posição dominante no solo.
Strickland, por outro lado, tem striking differential positivo de +3,8 golpes significativos por minuto nos últimos quatro combates — número que supera a média combinada de striking differential dos outros quatro lutadores mais ativos da divisão dos médios na mesma janela. Ele opera no clinch com eficiência defensiva, usa o sprawl com consistência acima de 70% nas tentativas de queda sofridas e raramente permite que o adversário estabeleça posição de montada. A questão central é se o wrestling de Chimaev consegue romper essa barreira defensiva antes de acumular dano no striking.
"Ele [Chimaev] vai tentar me derrubar. Eu sei disso. Todo mundo sabe disso. Mas derruba para fazer o quê?", disse Strickland em entrevista divulgada pela equipe do UFC 328.
O que ainda falta resolver antes do cinturão mudar de mãos
A pergunta que estrutura essa análise é direta: Chimaev aguenta cinco rounds de pressão de striking sem depender exclusivamente do takedown? Nas suas três lutas mais recentes, o russo levou rounds quando o adversário conseguiu manter a distância e negar o clinch de forma consistente. Strickland é o lutador mais qualificado da divisão para executar exatamente esse plano — e o faz com volume, não com power, o que torna o knockout menos provável mas o dano acumulado mais difícil de gerenciar.

A variável que ainda não tem resposta é a resistência psicológica de Chimaev sob pressão verbal prolongada. A encarada do Prudential Center, onde ele iniciou o contato físico antes do sinal, levanta a hipótese de que o nível de animosidade entre os dois pode comprometer o game plan russo nos primeiros minutos — um erro de gerenciamento emocional que Strickland, veterano de 32 lutas profissionais, certamente tentará explorar desde o gongo inicial.
O UFC 328 acontece neste sábado, 9 de maio de 2026, no Prudential Center, em Newark, Nova Jersey. O card principal começa às 22h (horário de Brasília), com Chimaev e Strickland previstos para entrar no octógono por volta de 01h30 do domingo. Quem vencer leva o cinturão dos médios e, possivelmente, encerra uma das rivalidades mais densas dos últimos anos no MMA.








