É uma faca de cozinha japonesa em cozinha italiana. Só quem sabe o que procura entende o que está vendo.

Evaristo de Toledo Piza, 53 anos, nascido em São Paulo em julho de 1972, comanda o Napoli na Champions League numa temporada 2025/2026 que já exige respostas rápidas e nervo firme. Num clube historicamente marcado pela intensidade — da torcida à diretoria, do vestiário à imprensa napolitana —, o brasileiro traz algo que poucos esperavam encontrar: uma frieza calculada que não se confunde com indiferença. Ele observa. Ele processa. E então age com precisão cirúrgica. A faca corta, mas sem barulho desnecessário.

Como ele lida com a estrela do elenco

Treinadores que chegam ao futebol europeu vindos de trajetórias em construção costumam cometer o mesmo erro: supervalorizar o nome estampado na camisa. Piza não comete esse equívoco. Sua abordagem com jogadores de alto perfil é a de quem cresceu vendo o tiki-taka de Guardiola ser desmontado justamente quando os egos individuais pesaram mais do que o sistema. O Napoli, clube que já viveu o paradoxo de ter um dos maiores jogadores da história e ainda assim sangrar por dentro, conhece bem esse risco.

A relação de Piza com as estrelas do elenco parece pautada por um princípio silencioso: o sistema protege o jogador, não o contrário. Quem entra em campo sabe que o pressing alto não é sugestão — é obrigação coletiva. A estrela que recusa o trabalho defensivo encontra um treinador que não negocia em público, mas que tampouco hesita em comunicar suas expectativas de forma direta no dia a dia do CT. Esse equilíbrio entre respeito e exigência é raro, e é o que diferencia gestores de elenco de meros escaladores de time.

Como ele lida com o jovem em ascensão

O futebol europeu tem uma tendência que observei de perto durante os anos que passei entre Barcelona e Londres: jovens talentos são frequentemente superexpostos antes de estarem prontos, ou subaproveitados por treinadores que preferem a segurança do veterano. Piza parece navegar entre os dois extremos com uma maturidade que contrasta com a relativa novidade do seu nome nos grandes palcos.

O gegenpressing que ele parece favorecer — pressão intensa logo após a perda da bola, exigindo reação imediata de todos os jogadores em campo — é, paradoxalmente, um sistema que pode tanto revelar quanto destruir um jovem. Revela quando o atleta tem leitura de jogo e disposição física. Destrói quando ele ainda não internalizou os gatilhos do sistema. A habilidade de Piza estaria, segundo a dinâmica que se observa no Napoli desta temporada, em calibrar o momento de exposição do jovem: ele entra em situações controladas, cresce dentro do método, e só assume protagonismo quando o sistema já está em seu corpo. É como plantar em solo preparado — a colheita não é rápida, mas é sólida.

Como ele lida com o veterano em queda

Aqui está talvez o aspecto mais delicado da gestão de qualquer treinador — e o que mais revela sobre seu caráter. Veteranos em queda carregam dois pesos simultâneos: o peso do passado glorioso e o peso do presente que não corresponde mais. No Napoli, clube com memória afetiva intensa e torcida que não esquece facilmente, esse gerenciamento tem implicações que vão além do campo.

Piza, ao que tudo indica pela atmosfera que se construiu ao redor do clube nesta temporada, não trata o veterano como problema a ser escondido nem como ícone a ser preservado à custa do resultado. Há um pragmatismo que lembra, de certa forma, o que Ancelotti praticou em diferentes momentos da carreira: o jogador experiente é um recurso estratégico, não uma herança sentimental. Ele joga quando o jogo pede o que ele ainda tem. Quando o jogo pede o que ele não tem mais, ele fica no banco — e essa comunicação, quando feita com respeito e clareza, raramente gera crise.

O ambiente que ele cria no vestiário

O vestiário do Napoli é, historicamente, um ambiente de alta temperatura emocional. A cidade exige, a torcida pressiona, e a diretoria tem histórico de intervenções que deixaram marcas em treinadores anteriores. Nesse contexto, Piza opera como um temporal sem trovão — a pressão existe, a intensidade é real, mas não há o caos visível que frequentemente acompanha clubes dessa natureza quando os resultados oscilam.

O que se percebe, a partir do contexto desta campanha na Champions League, é que ele construiu um ambiente de responsabilidade compartilhada. Não há um único culpado quando algo dá errado — o sistema é coletivo, e a cobrança também. Isso, paradoxalmente, alivia o peso individual e cria uma coesão que vestiários fragmentados raramente conseguem. Conforme registrado pelo SportNavo em coberturas anteriores desta temporada europeia, o Napoli de Piza tem demonstrado uma consistência comportamental que vai além da qualidade técnica dos jogadores disponíveis.

Há algo de escola inglesa nessa abordagem — a cultura do accountability coletivo que vi de perto nos anos em que acompanhei o futebol da Premier League em Londres. Mas há também algo genuinamente brasileiro na forma como ele humaniza o processo: a conversa direta, o olho no olho, a compreensão de que jogador motivado rende mais do que jogador com medo. Essa síntese entre a disciplina europeia e a inteligência emocional brasileira pode ser, no fim das contas, o maior diferencial de Evaristo de Toledo Piza.

Não é promessa. É método.