Um goleiro que completa 36 anos em campo não está em declínio — está em refinamento. É esse paradoxo que define Éverson em 2026, e é exatamente essa contradição que o Atlético Mineiro decidiu manter sob as traves na temporada atual do Brasileirão Série A.
A assinatura técnica que o identifica
Éverson Felipe Marques Pires nasceu em Pindamonhangaba em 22 de abril de 1990 e construiu sua identidade como goleiro sob um princípio que poucos arqueiros modernos conseguem sustentar por tanto tempo: a leitura de jogo como substituto da espetacularização. O que para o goleiro argentino é instinto e explosividade física, para o goleiro do futebol brasileiro consolidado é posicionamento e antecipação — e Éverson representa o segundo modelo em sua forma mais madura. Aos 191 centímetros e 85 quilos, ele não é um goleiro que impressiona pela acrobacia. Ele impressiona pela consistência.
Na temporada atual, o arqueiro acumula 36 partidas disputadas pelo Galo no Brasileirão. Nenhum gol sofrido é dado que o portal SportNavo separa por jogo, mas o volume de jogos por si só já é declaração: em um elenco que atravessa ciclos de renovação, Éverson não foi substituído. Ele foi mantido. E em futebol, essa distinção importa.
Como ele aprendeu a fazer aquilo
A trajetória de Éverson até o futebol de elite não seguiu o caminho dos grandes centros formadores. Ele passou por clubes do interior e do Nordeste antes de chegar ao radar nacional, percorrendo estados e divisões que não aparecem em relatórios de olheiros europeus. Pelo River do Piauí, conquistou o Campeonato Piauiense de 2014 — um título regional que, para muitos goleiros, seria o teto da carreira. Para Éverson, foi o ponto de partida.
Em 2015, defendendo o Confiança, levantou o Campeonato Sergipano. No Ceará, entre 2016 e 2018, somou três títulos consecutivos: a Taça Asa Branca de 2016 e os Campeonatos Cearenses de 2017 e 2018. Essa fase nordestina não foi apenas acúmulo de troféus regionais — foi a construção de um repertório técnico sob pressão real, em ambientes onde o goleiro precisa ser líder de vestiário e referência técnica ao mesmo tempo.
Como ele aprimorou ao longo dos anos
O turning point da carreira de Éverson tem data precisa: 2021. No Atlético Mineiro, ele viveu a temporada mais vitoriosa de sua vida profissional. O clube conquistou o Campeonato Brasileiro e a Copa do Brasil no mesmo ano — dobradinha que o futebol brasileiro não via um clube mineiro realizar há décadas. Éverson estava sob as traves nas duas campanhas. Naquele mesmo ano, levantou também o Campeonato Mineiro.
O desempenho na temporada 2021 gerou consequência direta: em 27 de agosto daquele ano, Éverson recebeu sua primeira convocação para a Seleção Brasileira, chamado para as Eliminatórias da Copa do Mundo de 2022. Em março de 2022, foi convocado novamente para cobrir a ausência do titular Ederson, que estava indisposto. Dois chamados para a amarelinha depois dos 30 anos são a prova de que o goleiro não apenas performou bem em um clube grande — ele convenceu a comissão técnica nacional.
Após 2021, o Atlético Mineiro continuou confiando no arqueiro. Éverson foi campeão do Campeonato Mineiro em 2022, 2023, 2024 e 2025 — quatro títulos estaduais consecutivos que representam uma regularidade raramente vista em uma posição tão exposta a críticas. Em 2022, somou ainda a Supercopa do Brasil ao seu currículo.
Como aplica em jogos diferentes
Goleiros com mais de 35 anos no futebol brasileiro de alto nível enfrentam um teste que vai além do físico: o teste da leitura situacional. Em partidas de mata-mata, como Copa do Brasil e Libertadores, a diferença entre um goleiro experiente e um jovem em desenvolvimento aparece nos momentos de maior pressão — cobranças de pênalti, saídas de bola sob pressão, comunicação com a zaga. Éverson construiu esse repertório ao longo de anos em ambientes diferentes, do Nordeste ao Sudeste, de campeonatos estaduais a competições nacionais de peso.
Com 36 partidas na temporada de 2026, ele não é um goleiro que o Atlético Mineiro usa como reserva de luxo ou como solução emergencial. Ele é o titular. Em um clube que tem oscilado entre ciclos de renovação e manutenção de base, manter um goleiro de 36 anos como escolha número um é uma declaração técnica da comissão. Isso não acontece por sentimentalismo — acontece porque os dados de desempenho sustentam a decisão.
O que Éverson representa em 2026 não é uma história de sobrevivência no futebol. É uma história de especialização acumulada. Cada título regional no Nordeste, cada temporada no Ceará, cada campanha decisiva pelo Galo foi um bloco de conhecimento técnico que se traduz hoje em posicionamento, tomada de decisão e liderança. Aos 36 anos, ele não joga apesar da idade. Ele joga com ela.










