Confesso: eu errei ao escrever, no começo desta temporada, que Eberechi Eze ainda não estava pronto para carregar responsabilidades em momentos de alta pressão. O pênalti perdido na final da Champions League contra o PSG pareceu confirmar minha leitura — mas a resposta pública do meia nas últimas 48 horas me fez revisar o argumento com a seriedade que o tema merece.
O que Eze disse ao Guardian e por que a declaração importa
Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, publicada neste domingo (14), três dias antes da estreia da Inglaterra contra a Croácia — marcada para quarta-feira (17), às 17h de Brasília, em Arlington, no Texas, pelo Grupo L da Copa do Mundo —, Eze foi direto ao ponto quando questionado sobre uma eventual cobrança pela seleção.
"Por que eu não bateria?"
A frase tem peso específico quando colocada em contexto histórico. A Inglaterra acumulou sete eliminações em disputa de pênaltis entre 1990 e 2022, incluindo as derrotas para a Alemanha na Copa de 1990, para a Argentina em 1998 e para Portugal em 2006. O trauma era tão enraizado que jogadores experientes recusavam a responsabilidade de forma sistemática — o que tornou a cena de Gareth Southgate perdendo contra a Alemanha na Eurocopa de 1996 quase uma metáfora geracional.
Eze completou a declaração sem rodeios.
"Se for chamado, com certeza", disse o meia, acrescentando que o episódio contra o PSG é "parte da jornada" e que sua postura diante de um erro é simples: "Se eu errar, eu errei. Se eu marcar, eu marquei."
O pênalti perdido na final da Champions e o que os dados dizem sobre batedores que erram
A cobrança desperdiçada por Eze na final da Champions League pelo Arsenal contra o PSG gerou críticas específicas à técnica do meia: a paradinha antes do chute, que desorientou o goleiro mas não converteu. O próprio Eze descartou mudar a abordagem, tratando a escolha como parte de seu repertório consolidado.
A história do futebol registra padrão semelhante em grandes batedores. Roberto Baggio errou o pênalti decisivo na final da Copa de 1994 contra o Brasil — e voltou a bater cobranças pela Itália nas edições seguintes. Zico desperdiçou cobrança nas quartas de final da Copa de 1986 contra a França, num dos episódios mais dolorosos da história da Seleção. Nenhum dos dois abandonou a função.
Os números da Inglaterra recente, aliás, indicam uma curva ascendente. Sob o comando de Southgate, a seleção venceu a Colômbia nos pênaltis nas oitavas da Copa de 2018 — primeira vitória inglesa em disputa de pênaltis em Copas do Mundo — e superou a Suíça da mesma forma nas quartas da Eurocopa de 2024. A mudança de mentalidade foi construída com treinamento específico e jogadores dispostos a assumir a responsabilidade.
Por que Tuchel precisa de batedores com essa mentalidade no Grupo L
Thomas Tuchel herda uma seleção inglesa que, apesar dos avanços recentes, ainda não conquistou um título mundial desde a Copa de 1966, quando venceu a Alemanha Ocidental por 4 a 2 na prorrogação, em Wembley. A campanha desta edição começa com a Croácia — adversária que eliminou a Inglaterra na semifinal da Copa de 2018, em Moscou, por 2 a 1, após a seleção ter aberto o placar com gol de Trippier logo aos cinco minutos.
Além da Croácia, a Inglaterra enfrenta Gana e Panamá na fase de grupos. O calendário favorece uma classificação tranquila, mas a experiência de 1998 — quando a seleção foi eliminada pela Argentina nas oitavas após uma disputa de pênaltis em que David Batty e Paul Ince desperdiçaram cobranças — lembra que nenhum mata-mata é previsível.
Ter um jogador de nível técnico elevado e mentalidade declaradamente aberta à responsabilidade é um ativo real para Tuchel, que precisará montar uma hierarquia de batedores antes de qualquer eventual disputa decisiva. Eze, aos 26 anos, chega ao Mundial como um dos meias mais criativos do futebol inglês, com 11 gols e 7 assistências na temporada 2025/2026 pelo Arsenal na Premier League.
A resposta mais concreta virá em campo.
Na quarta-feira (17), em Arlington, Eze entra no gramado com a camisa da Inglaterra e a chance de transformar a narrativa — não pelo que disse ao Guardian, mas pelo que fizer nos 90 minutos contra a Croácia.










