Não, Fabian Schär não é o zagueiro mais celebrado da Premier League desta temporada. Mas talvez seja o mais intrigante — e a distinção importa. Enquanto a conversa sobre defensores costuma girar em torno de nomes mais jovens ou mais midiáticos, o suíço de 34 anos segue acumulando algo que o mercado moderno tende a subestimar: consistência técnica com capacidade de desequilíbrio ofensivo. Quatro gols e uma assistência em 36 jogos na temporada atual pelo Newcastle United não são números de um zagueiro qualquer. São a assinatura de um jogador que aprendeu, ao longo de anos, a transformar a posição em algo maior do que apenas impedir gols.

A assinatura técnica que o identifica

Há um tipo específico de zagueiro que aparece raramente no futebol europeu — aquele capaz de iniciar jogadas com passes de 40 metros, avançar para cobranças de falta com naturalidade e ainda ser disciplinado o suficiente para não comprometer a linha defensiva ao fazer isso. Schär pertence a essa categoria. Nascido em Wil, no cantão de São Galo, em 20 de dezembro de 1991, o suíço de 186 cm e 84 kg desenvolveu um estilo que combina robustez física com elegância técnica — uma combinação que, no futebol inglês dos anos 2000, era quase exclusividade de jogadores como Rio Ferdinand ou John Terry, embora em moldes diferentes.

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O que distingue Schär de outros defensores da mesma faixa etária é a qualidade de leitura antecipatória. Ele raramente precisa de velocidade para resolver situações porque, na maior parte das vezes, já posicionou o corpo no lugar certo antes do atacante adversário decidir para onde ir. Essa leitura — desenvolvida ao longo de anos em ligas com exigências táticas distintas — é o elemento mais difícil de quantificar, mas o mais fácil de perceber para quem assiste com atenção.

Como ele aprendeu a fazer aquilo

A trajetória de Schär até o futebol de alto nível passa por uma formação europeia que, nos anos 2000, ainda valorizava o zagueiro técnico acima do zagueiro puramente físico. Quando a Suíça — um país que raramente exporta defensores de elite — começou a revelar jogadores como Schär, o contexto era o de uma geração influenciada tanto pela escola alemã de organização tática quanto pela tradição italiana de leitura posicional. Não por acaso, a seleção suíça — que aqui cabe a referência à Nati, como os suíços chamam carinhosamente o time nacional — integrou Schär ao seu elenco para os Jogos Olímpicos de 2012, quando o jogador tinha apenas 20 anos.

A Copa do Mundo de 2014 no Brasil e a Eurocopa de 2016 foram marcos importantes nessa formação. Jogar em competições de alto nível ainda jovem, diante de atacantes de elite mundial, acelera o aprendizado de maneiras que nenhum treino consegue replicar. Para um zagueiro, especificamente, a experiência de Copa do Mundo equivale a anos de rodagem em liga doméstica — o nível de pressão, a velocidade das jogadas e a qualidade dos adversários criam adaptações que ficam gravadas no repertório técnico do jogador. A Copa de 2018 na Rússia completou esse ciclo formativo em alto nível internacional.

Como ele aprimorou ao longo dos anos

A temporada 2024/2025 — a mais produtiva dos registros disponíveis — ilustra bem o pico de maturidade do jogador: 42 jogos, 6 gols e 1 assistência. Para um zagueiro, esses números evocam comparações com defensores dos anos 90 que foram redefinindo o papel da posição na Europa. Ronald Koeman, por exemplo, marcou 14 gols pela Barcelona na temporada 1993/94, mas era uma exceção tão rara que a imprensa espanhola da época tratava cada gol dele como notícia de primeira página. Schär não chega a esse nível de produção, mas a consistência ao longo de múltiplas temporadas — 4 gols em 2023/2024, 6 em 2024/2025 — sugere algo diferente de lampejo: sugere método.

Na temporada atual 2025/2026 — com 18 jogos e 1 gol até o momento —, os números são mais modestos, o que pode refletir uma combinação de gestão de minutagem e o desgaste natural de um jogador de 34 anos em uma liga tão exigente fisicamente quanto a Premier League. Mas o histórico recente indica que Schär não é um jogador em declínio; é um jogador que aprendeu a administrar energia ao longo de uma temporada longa. Cinco cartões amarelos na temporada completa pelo Newcastle — 36 jogos, 4 gols, 1 assistência — mostram um defensor que ainda compite com intensidade, mas sem a impulsividade de alguém que perdeu o controle técnico.

Como aplica em jogos diferentes

A versatilidade de Schär dentro de um sistema defensivo — seja em linha de quatro ou de três zagueiros — é o que o torna valioso em contextos táticos distintos. Em jogos nos quais o Newcastle precisa construir desde a saída de bola, Schär funciona como um pivô de distribuição, iniciando jogadas com passes longos precisos. Em partidas de pressão alta do adversário, ele usa a leitura posicional para antecipar e interceptar antes que a situação se torne crítica. Essa adaptabilidade — rara em defensores que chegam à casa dos 34 anos — é o que prolonga carreiras além do esperado.

A assinatura técnica que o identifica Fabian Schär e a arte de ser zagueiro qu
A assinatura técnica que o identifica Fabian Schär e a arte de ser zagueiro qu

Há um paralelo histórico interessante aqui. Nos anos 2000, a Bundesliga produziu uma geração de zagueiros que envelheceram bem justamente por priorizar inteligência posicional sobre atletismo puro — Lucio, que seguiu jogando em alto nível até os 37 anos, é o exemplo mais citado, embora sua trajetória seja diferente da de Schär em termos de perfil físico. O ponto comum é a longevidade sustentada por leitura de jogo, não por velocidade. Schär parece trilhar esse caminho — um zagueiro que, aos 34 anos, ainda acumula mais de 40 jogos em temporadas de pico, o que no futebol inglês de hoje é uma declaração de relevância em si mesma.

O que esperar dos próximos 12 meses? Um contrato novo, uma renovação ou uma saída do Newcastle são possibilidades que dependem de variáveis fora do campo — mas o que os números das últimas temporadas indicam é que Schär ainda tem condições de competir em alto nível. A questão não é se ele vai declinar, mas quando — e tudo sugere que, pelo menos por mais uma temporada completa, o suíço de Wil ainda tem argumentos técnicos suficientes para ocupar a camisa 5 do Newcastle com autoridade.