Mas quem é esse cara, afinal?
— Suíço. Veio de fora do circuito habitual.
— E o time tá jogando bem?
— Tá jogando diferente. Que é melhor.

Essa conversa, em qualquer bar de Sevilha nas últimas semanas, resume com precisão o fenômeno Fabio Celestini. Nascido em 31 de outubro de 1975, o técnico suíço comanda o Real Betis nesta temporada 2025/2026 da La Liga com uma autoridade que não se explica por títulos acumulados nem por sobrenome de prestígio — e é exatamente isso que o torna interessante de se observar.

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O momento em que tudo balançou Fabio Celestini e o Real Betis que La Li
O momento em que tudo balançou Fabio Celestini e o Real Betis que La Li

O momento em que tudo balançou

O Benito Villamarín já conheceu treinadores de perfil mais alto, de currículos mais ruidosos. Quando Celestini assumiu o comando do Real Betis, a expectativa do torcedor andaluz era aquela mistura típica de ceticismo e esperança cautelosa — o clube tem uma identidade forte, um elenco com personalidade, e não tolera bem períodos prolongados de indefinição tática. O momento de pressão inicial foi real: adaptar um grupo acostumado a determinados ritmos e referências a uma nova linguagem de jogo não é tarefa que se resolve em duas semanas de pré-temporada.

O que distinguiu Celestini nesse período de turbulência foi a recusa em negociar os princípios. Treinadores que chegam sob pressão costumam ceder ao pragmatismo imediato — um bloco médio aqui, uma saída direta lá — para comprar tempo. O suíço escolheu o caminho oposto: impôs o modelo antes do resultado, sabendo que a conta chegaria mais tarde, mas que a conta seria mais honesta.

O que ele mudou imediatamente

A mudança mais visível foi no comportamento da equipe sem a bola. Celestini trouxe ao Real Betis uma cultura de pressing alto estruturado — não o pressing caótico que às vezes se confunde com intensidade, mas aquele pressing coordenado por linhas, onde cada jogador sabe exatamente quando pressionar e quando recuar para compactar o bloco. É o tipo de organização que remete ao gegenpressing popularizado por Klopp no Borussia Dortmund dos anos 2010, mas com uma camada de controle posicional que lembra mais a escola ibérica do que a alemã.

Uma métrica que ajuda a entender essa transformação é o PPDA — Passes Permitidos por Ação Defensiva, uma estatística que mede a intensidade do pressing de uma equipe: quanto menor o número, mais agressiva é a pressão. Times como o Liverpool de Klopp ou o Bayer Leverkusen de Alonso ficaram famosos por PPDAs baixíssimos; na prática, isso significa que o adversário raramente conseguia encadear mais de cinco ou seis passes antes de ser pressionado. O Real Betis de Celestini busca esse mesmo padrão — não deixar o oponente respirar na construção.

No aspecto ofensivo, a mudança foi igualmente significativa. O Betis passou a trabalhar mais as transições rápidas após recuperação de bola, explorando os espaços deixados por equipes que tentam pressionar alto contra ele — um tipo de jogo que exige leitura rápida e qualidade técnica nos metros finais.

Como o time respondeu à mudança

O vestiário de um clube como o Real Betis não é território simples. Há jogadores com passagens por seleções, por clubes de maior visibilidade na Europa, com opiniões formadas sobre o que funciona e o que não funciona. Celestini, no entanto, parece ter encontrado a linguagem certa para atravessar essa resistência natural.

A resposta do elenco ao novo modelo foi gradual, mas perceptível. Equipes que absorvem bem um pressing alto tendem a apresentar maior compactação entre as linhas — a distância entre defensores e atacantes diminui, o time funciona como um bloco coeso em vez de duas equipes separadas por um corredor vazio no meio-campo. Esse ajuste posicional não é automático; exige repetição, confiança no treinador e, sobretudo, disposição para correr mais do que o adversário.

O que o torcedor do Benito Villamarín passou a perceber foi um time com mais identidade coletiva — menos dependente de lampejos individuais, mais capaz de criar situações a partir de uma lógica de grupo. Numa liga tão competitiva quanto a atual edição da La Liga, onde o espaço entre posições pode ser mínimo, essa coesão tem peso direto na tabela.

O que ficou de aprendizado para ele

Celestini chega ao Real Betis carregando uma trajetória construída fora dos grandes holofotes do futebol continental — e isso, paradoxalmente, pode ser sua maior vantagem. Treinadores formados à margem dos circuitos de elite tendem a desenvolver um pragmatismo criativo: sem os recursos dos grandes clubes, aprendem a extrair o máximo de elencos limitados, a identificar padrões táticos que grandes orçamentos mascaram.

O aprendizado mais visível em seu trabalho atual é a capacidade de manter a coerência do modelo mesmo quando os resultados oscilam — uma qualidade rara, que separa treinadores de processo de treinadores de reação. No futebol europeu moderno, onde o ciclo de demissão se encurtou drasticamente e a paciência dos dirigentes com períodos de transição virou artigo de luxo, essa estabilidade metodológica é, em si, uma declaração de identidade.

Nas próximas semanas, com a temporada 2025/2026 da La Liga em sua fase decisiva, o Real Betis terá confrontos que testarão exatamente essa consistência. O que Celestini construiu até aqui — um modelo reconhecível, um elenco que responde ao pressing coordenado, uma identidade que vai além do resultado imediato — é o tipo de fundação que clubes como o Betis precisam para competir com regularidade numa liga que não perdoa inconsistências.

Fabio Celestini não chegou ao Real Betis para ser lembrado — chegou para ser entendido.