Confesso: quando o Real Madrid cedeu Nico Paz ao Como em 2023, pensei que fosse uma daquelas negociações de prateleira — o tipo de acordo que os clubes grandes fazem para se livrar de jovens que ainda não encaixaram no projeto principal. Errei. E hoje, diante dos números desta temporada e das declarações de Cesc Fàbregas, entendo por quê.
Os 12 gols que mudaram o argumento
Nesta temporada 2025/2026 da Serie A, Nico Paz encerrou o campeonato com 12 gols marcados e sete assistências — números que muitos meias titulares das grandes equipes europeias gostariam de apresentar ao próprio técnico. O argentino de 21 anos foi peça central na campanha histórica do Como, clube que garantiu pela primeira vez uma vaga em competições europeias. Para quem acompanhou o futebol italiano de perto, a transformação do Como de recém-promovido a clube com presença continental tem o nome e o número 10 de Nico Paz gravados na narrativa.
Formado nas categorias de base do Real Madrid, o meia ofensivo deixou a capital espanhola em busca de minutagem real — algo que o gegenpressing de Ancelotti e a profundidade do elenco merengue dificilmente ofereceriam a um garoto de 19 anos. Em Como, sob o comando de Fàbregas, encontrou um ambiente que lembra, em escala menor, o que Pep Guardiola construiu no Barcelona dos anos 2010: posse com propósito, transições rápidas e liberdade posicional para o jogador mais técnico do elenco.
A fala de Fàbregas que encerrou o debate sobre a Inter
A semana foi movimentada nos bastidores do mercado italiano. Rumores ligando Nico Paz à Internazionale circularam com intensidade, e Javier Zanetti — vice-presidente do clube nerazzurri e lenda do futebol argentino — foi associado a conversas informais com o entorno do jogador. Fàbregas não deixou o assunto escalar.
"Zanetti não trabalha para o Real Madrid nem para o Como. É preciso ter respeito. Durante toda a temporada houve fotografias, mensagens e muitas coisas. No final, o Nico é jogador do Como em 50%. A única equipe que pode dizer alguma coisa sobre o futuro dele é o Real Madrid. A única coisa que sei é que o Nico não vai jogar na Inter", afirmou Fàbregas em coletiva prévia ao duelo com a Cremonese, pela última rodada do Campeonato Italiano.
A declaração foi cirúrgica. Ao citar o Real Madrid como única instância decisória, Fàbregas — ele mesmo formado na La Masia e com carreira entre Arsenal, Barcelona e Chelsea — sinalizou com clareza a estrutura contratual que governa o futuro do argentino. O clube espanhol detém uma vantagem contratual que lhe permite repatriar o jogador, e essa cláusula transforma qualquer negociação paralela em ruído.
"Nico Paz regressará ao Real Madrid ou jogará no Como na próxima época. Estamos muito felizes com ele e veremos o que acontece nas próximas quatro ou cinco semanas", completou o treinador.
Dois destinos. Zero menção à Inter. A mensagem para Zanetti foi enviada em campo aberto.
Por que o Real Madrid tem razões concretas para agir agora
O timing do Real Madrid raramente é por acaso. O clube que vendeu Nico Paz por uma fração do que ele hoje vale no mercado — estimativas apontam para uma cláusula de recompra na casa dos 9 milhões de euros, valor absurdamente abaixo do seu preço atual — tem agora o argumento estatístico que faltava para justificar a repatriação diante da própria diretoria e da torcida.
Qual clube, com acesso contratual a um meia de 21 anos que fez 12 gols e 7 assistências em uma temporada de Serie A, não acionaria essa cláusula?

Segundo a avaliação do SportNavo, o cenário se encaixa também na lógica esportiva merengue. Com Luka Modrić completando 41 anos em setembro e o ciclo do croata claramente em fase final, a posição de meia criativo com capacidade de jogar entre linhas — exatamente o perfil de Nico Paz — é uma das mais sensíveis do elenco de Ancelotti para o médio prazo. O argentino, capaz de acelerar transições ofensivas e participar da construção posicional que o tiki-taka evoluído de Madri exige, preenche um gap real.
O que a janela de julho pode confirmar
A janela de transferências europeia abre oficialmente em julho, e as próximas quatro a cinco semanas — o prazo que o próprio Fàbregas colocou na mesa — serão decisivas. O Como, que estreará em competições europeias na próxima temporada, teria interesse em manter o jogador, mas a estrutura contratual não lhe dá poder de veto. Cabe ao Real Madrid decidir se exerce a opção ou permite que o argentino siga no clube italiano por mais um ciclo.
A Inter, ao que tudo indica, já foi retirada da equação pelo próprio técnico do Como. O que resta é a escolha entre Madri e a continuidade em um projeto menor, porém protagonista. Para um jogador de 21 anos que passou a temporada inteira como referência técnica de um elenco — algo que dificilmente teria no Santiago Bernabéu imediato —, a decisão envolve também o equilíbrio entre ambição de título e garantia de espaço.
A resposta oficial sobre o futuro de Nico Paz deve sair até o final de junho, quando o Real Madrid precisa comunicar ao Como se exercerá ou não a opção de recompra. Em 30 de junho de 2026, saberemos se o argentino volta a Madrid ou se Fàbregas tem mais uma temporada com sua peça mais valiosa.










