A tabela da Champions League 2026/27 ainda tem dois nomes em aberto na Itália — e um deles pode pertencer a um clube que, há dois anos, disputava a Serie B. O Como de Cesc Fàbregas terminou a penúltima rodada da Serie A com 68 pontos, apenas dois abaixo do Milan (70) e da Roma (67 em quarto, mas com 68 contando vitória posterior), numa situação que obriga a perguntar: é possível que um clube com orçamento de médio porte italiano elimine um gigante centenário de uma das maiores competições do mundo?
O que Fàbregas construiu no Como que ninguém esperava
Quando Cesc Fàbregas assumiu o Como no início da temporada 2024/25, o clube havia acabado de subir para a Serie A após décadas de anonimato. A maioria dos analistas europeus classificou a contratação do ex-meia como um experimento simpático — um nome famoso num projeto de nicho. O que ninguém previu foi a consistência tática que o espanhol imprimiria à equipe. Fàbregas montou um time que pressiona alto, transita em velocidade e usa as linhas laterais com inteligência, algo que remete, curiosamente, ao Arsenal de Wenger nos anos 2000 — escola onde o próprio treinador se formou como jogador entre 2003 e 2011.
Na penúltima rodada, o Como venceu o Parma e chegou a 68 pontos — número que, em várias temporadas recentes da Serie A, seria mais do que suficiente para garantir vaga na Champions. Para efeito de comparação, na temporada 2015/16, a Roma terminou em terceiro lugar com apenas 63 pontos. O futebol italiano mudou, mas a referência serve para dimensionar o que o Como construiu.
"Quando um time promovido chega à última rodada brigando pela Champions, não é sorte — é metodologia. Fàbregas trouxe uma identidade que poucos técnicos conseguem instalar tão rápido", disse um comentarista da RAI Sport durante a transmissão da rodada de sábado.
O orçamento do Como é notoriamente menor do que o de Milan, Juventus e Roma. Enquanto os rossoneri e a Juventus movimentam centenas de milhões de euros em transferências a cada janela, o clube do Lago de Como opera com uma folha salarial que não figura entre as dez maiores da liga. Essa assimetria financeira torna a campanha ainda mais notável — e historicamente rara.
Milan, Roma e Juventus na berlinda da última rodada
O Milan chega à rodada decisiva em situação mais confortável: terceiro colocado com 70 pontos, recebe o Cagliari em casa. A vitória por 2 a 1 sobre o Genoa neste domingo foi o tipo de resultado que os rossoneri precisavam depois de tropeços consecutivos nas semanas anteriores. Se vencer, a classificação está garantida independentemente do que aconteça com os rivais.
A Roma ocupa o quarto lugar — última posição que dá acesso à Champions — com 67 pontos, mas jogará fora de casa contra o Verona, já rebaixado. O triunfo de 2 a 0 sobre a Lazio no clássico da capital deu fôlego à equipe giallorossi, mas jogar contra um adversário rebaixado nem sempre é sinônimo de facilidade. A história da Serie A tem exemplos dolorosos: em 2002/03, o Milan quase tropeçou na última rodada contra o Ancona, que já havia descido, antes de confirmar o título.
A Juventus vive o pior cenário dos quatro candidatos. A derrota por 2 a 0 para a Fiorentina no sábado jogou a Vecchia Signora para fora do grupo dos classificados e a obriga a vencer o Torino no clássico derby fora de casa — enquanto torce contra Milan, Roma e Como simultaneamente. É uma equação improvável para um clube que, entre 2012 e 2020, somou nove títulos italianos consecutivos e raramente dependeu de cálculos de terceiros para definir seu destino europeu.
O que está em jogo para o Como além da glória esportiva
Uma vaga na Champions League não é apenas prestígio para um clube do porte do Como — é uma transformação financeira estrutural. A UEFA distribui, na fase de liga da Champions, um valor base que supera 15 milhões de euros antes mesmo de contabilizar cotas de desempenho e direitos televisivos. Para um clube que opera com orçamento restrito, esse ingresso equivale, em alguns casos, a mais de uma janela de transferências inteira.
Há um paralelo histórico que me vem imediatamente à cabeça: o Kaiserslautern de 1997/98. O clube alemão havia subido da segunda divisão e, na temporada seguinte, venceu a Bundesliga — feito que nunca mais se repetiu no futebol europeu de alto nível. O Como não está brigando pelo título (a Inter já foi campeã), mas a possibilidade de um clube recém-promovido classificar para a Champions na primeira temporada de volta à elite italiana tem uma magnitude histórica comparável.
Fàbregas, que completou 37 anos em maio de 2024 e iniciou sua carreira como técnico sem passagens anteriores por categorias de base ou divisões inferiores, estaria confirmando uma tese que poucos ousam defender: a de que ex-jogadores de alto nível com inteligência tática superior podem queimar etapas no processo de formação como treinadores. Guardiola fez algo semelhante — foi direto do Barcelona B para o Barcelona principal em 2008. A analogia não é perfeita, mas a trajetória tem pontos de contato.
Na última rodada, marcada para o domingo, 24 de maio, o Como enfrenta a Cremonese — clube que luta para evitar o rebaixamento. É exatamente o tipo de adversário que pode ser perigoso: desesperado, sem nada a perder e com a necessidade de pontuar para sobreviver na Serie A. A Cremonese e o Lecce chegam à rodada final nessa situação, o que transforma o duelo em algo bem mais tenso do que a diferença de classificação sugere.
Se o Como vencer e o Milan ou a Roma tropeçar, o clube do Lago de Como estará na Champions pela primeira vez em sua história. A rodada decisiva acontece no domingo, 24 de maio, com todos os jogos simultâneos — e o Como precisará de 90 minutos perfeitos contra um adversário que vale a própria vida na Serie A. Dois pontos separam o sonho da realidade: essa é a margem exata que Fàbregas precisa fechar.










