A terceira eliminação consecutiva da Itália para uma Copa do Mundo desencadeou uma crise institucional sem precedentes na Federação Italiana de Futebol (FIGC). O ministro do esporte italiano, Andrea Abodi, fez cobrança pública por renovação na liderança federativa após a Azzurra perder a repescagem para a Copa de 2026, consolidando um jejum de 16 anos sem participação no principal torneio mundial.
Os números revelam a dimensão da crise: desde 2006, quando conquistou o tetracampeonato mundial na Alemanha, a seleção italiana participou apenas de uma Copa do Mundo - a de 2014 no Brasil, onde foi eliminada na primeira fase. O aproveitamento nas eliminatórias para 2026 ficou em 58%, com 7 vitórias, 4 empates e 3 derrotas em 14 jogos disputados, insuficiente para garantir vaga direta ou mesmo classificação via repescagem.
Pressão ministerial acelera movimento por mudanças na FIGC
O ministro Abodi não poupou críticas à atual gestão da FIGC, comandada por Gabriele Gravina desde 2018. Em declaração oficial, o ministro destacou que "o futebol italiano precisa de liderança renovada e visão estratégica para superar esta fase de declínio institucional". A pressão governamental representa fator inédito na política federativa italiana, tradicionalmente autônoma em relação ao poder público.
Gravina, que assumiu a presidência após o escândalo de corrupção que culminou com a renúncia de Carlo Tavecchio, enfrenta contestação crescente dentro da própria FIGC. Nos últimos seis anos de gestão, a seleção principal conquistou apenas a Eurocopa de 2021, mas acumulou três eliminações para Copas do Mundo - recorde negativo que mancha o histórico de quatro títulos mundiais conquistados entre 1934 e 2006.
Cenário sucessório divide grupos internos da federação italiana
Fontes próximas à FIGC indicam três principais correntes políticas na disputa pela renovação federativa. O primeiro grupo, ligado aos clubes da Serie A, defende maior representatividade do futebol profissional nas decisões estratégicas. Atualmente, a Liga Serie A detém apenas 12% dos votos nas assembleias federativas, proporção considerada insuficiente pelos dirigentes de clubes como Juventus, Milan e Inter.
A segunda corrente articula candidatura técnica, com perfil mais próximo ao modelo alemão de gestão. Nomes como Demetrio Albertini, ex-meio-campista da seleção e atual vice-presidente da FIGC, ganham força entre dirigentes que defendem reestruturação dos métodos de trabalho com base em dados e análise científica do desempenho.
O terceiro movimento busca manter Gravina no cargo, argumentando que a renovação do comando técnico da seleção - com possível saída de Roberto Mancini - seria suficiente para reverter o cenário de crise. Este grupo conta com apoio das federações regionais e ligas menores, que historicamente mantêm maior peso político nas decisões da FIGC.
Impacto da crise federativa nos clubes e na seleção azzurra
A instabilidade institucional reflete diretamente no desempenho dos clubes italianos em competições europeias. Na atual temporada 2025-26, apenas dois times italianos permanecem na fase de grupos da Champions League - Juventus e Milan ocupam respectivamente a 18ª e 22ª posições na classificação geral, com aproveitamento de 44% e 38% nos primeiros seis jogos.
Na seleção principal, a crise federativa coincide com renovação geracional problemática. Jogadores como Federico Chiesa (27 anos, 9 gols em 34 jogos pela azzurra) e Nicolo Barella (28 anos, 4 gols em 42 partidas) não conseguiram assumir protagonismo deixado pela geração de Gianluigi Buffon e Francesco Totti. O atacante Ciro Immobile, com 34 anos e 15 gols em 57 jogos internacionais, representa o último elo com a geração vitoriosa da Eurocopa 2021.
A renovação técnica também apresenta desafios estruturais. O atual comando de Roberto Mancini, no cargo desde 2018, acumula 37 vitórias, 16 empates e 9 derrotas em 62 jogos oficiais - aproveitamento de 69% que inclui o título europeu, mas também as três eliminações para Copas do Mundo. A pressão por mudança no comando técnico intensifica-se paralelamente à crise federativa.
Cenários futuros para a reestruturação do futebol italiano
A assembleia extraordinária da FIGC, prevista para março de 2026, deverá definir os rumos institucionais do futebol italiano para os próximos quatro anos. Três cenários principais emergem das articulações políticas internas: manutenção de Gravina com reformas estruturais, eleição de candidato técnico com perfil renovador, ou ascensão de representante ligado aos grandes clubes.
O primeiro cenário apostaria em continuidade administrativa com mudanças pontuais no comando técnico e métodos de trabalho. Gravina defenderia permanência argumentando que a estabilidade institucional favoreceria recuperação gradual da seleção, especialmente considerando o ciclo da Copa de 2030.
A segunda alternativa prevê renovação completa na presidência, com candidato de perfil técnico-científico capaz de implementar modelo similar ao adotado pela Alemanha após a eliminação na Copa de 2018. Este cenário incluiria reestruturação das categorias de base e maior investimento em tecnologia aplicada ao futebol.
O terceiro caminho contempla maior participação dos clubes profissionais nas decisões federativas, modelo defendido principalmente por Juventus e Milan. Esta alternativa poderia resultar em reformas no sistema de votação da FIGC, garantindo representatividade proporcional à relevância econômica e esportiva de cada segmento.
A crise federativa italiana representa marco histórico no futebol mundial, considerando que nenhuma seleção tetracampeã mundial havia acumulado três eliminações consecutivas para Copas do Mundo. A solução para esta crise institucional definirá não apenas o futuro da azzurra, mas também o modelo de governança que orientará o futebol italiano na próxima década.

