Confesso: eu errei sobre Devin Vassell em 2024. Achei que ele era bom demais para ser role player e bom de menos para ser estrela — aquele limbo que costuma definir carreiras medianas. Hoje, com os Spurs nas Finals, entendo que esse limbo pode ser exatamente o que San Antonio precisava.
Dois caminhos completamente diferentes até o mesmo palco
Os Spurs chegaram às Finals da NBA pelo caminho mais difícil disponível. Foram sete jogos contra o Oklahoma City Thunder, campeão defensor, vencendo duas vezes em Oklahoma City — incluindo o decisivo Jogo 7. No Jogo 7, Victor Wembanyama somou os números que já viraram rotina: 23,2 pontos, 10,8 rebotes e 2,5 bloqueios de média na pós-temporada, com o time sendo +62 com ele em quadra e -36 quando saía.
Os Knicks, por outro lado, dominaram o Leste de forma que não tem precedente histórico. Diferença de 19,4 pontos por jogo nos playoffs — a maior de toda a história da NBA nesta fase. Jalen Brunson está com 26,9 pontos e 6,6 assistências de média, e o time venceu 11 jogos seguidos antes de o Jogo 1 das Finals começar, nesta quarta-feira às 21h30 (horário de Brasília), pela ABC.
Por que Vassell pode ser o maior problema de Brunson
A narrativa óbvia desta série é Wembanyama contra Brunson. Mas a narrativa que pode decidir o título está uma camada abaixo. Devin Vassell tem a função mais ingrata e mais importante da série: marcar Brunson enquanto também precisa ser ameaça ofensiva para que os Spurs não deixem o armador dos Knicks relaxar defensivamente.
Segundo análise publicada no FanSided, Brunson não enfrentou guardas defensivos do nível dos Spurs desde Dyson Daniels na primeira rodada. Vassell é exatamente esse perfil — atlético, comprometido no perímetro e capaz de pressionar a bola sem perder posição. Se ele conseguir transformar as posses de Brunson em decisões mais lentas e menos eficientes, o sistema ofensivo dos Knicks perde fluidez.

Mas Vassell não é só defesa. Nos playoffs, ele tem sido consistente o suficiente para que adversários não possam ignorá-lo no perímetro — o que abre espaço para Wembanyama operar na área restrita, onde os Spurs têm o melhor diferencial de pontos dos playoffs: +8,8 por jogo.
Josh Hart e o trabalho sujo que os Knicks precisam manter
Do lado de Nova York, Josh Hart representa algo diferente: a capacidade de o time manter intensidade física mesmo quando Brunson não está brilhando. Hart não aparece nas caixas de estatísticas com números que viralizam, mas os Knicks têm o melhor índice de rebotes dos playoffs — 54,8% dos disponíveis — e ele é parte estrutural disso.
A diferença entre Hart e Vassell nesta série é quase do tamanho da distância entre Recife e São Paulo: um joga para que o sistema funcione sem precisar de crédito, o outro joga para que o sistema funcione antes de Wembanyama precisar resolver sozinho. São funções distintas, mas igualmente decisivas.
"Não sei se existe um time melhor equipado para segurar Wembanyama do que o Thunder — e mesmo eles não conseguiram", escreveu o analista Tom Haberstroh, do Yahoo Sports, ao avaliar os caminhos até as Finals.
Essa observação muda o peso do que Hart e os grandes dos Knicks — OG Anunoby e Mitchell Robinson — precisam fazer. Não se trata de parar Wembanyama completamente. Trata-se de tornar cada posse dele mais cara, mais lenta, mais desgastante. Hart é o tipo de jogador que faz esse trabalho invisível aparecer no placar.
O que os números dizem sobre o impacto das rotações
Julian Champagnie, ala dos Spurs que já foi dispensado pelo 76ers, está com 11,3 pontos, 5,8 rebotes e 39,3% de três pontos nos playoffs — dois jogos com 20 ou mais pontos na final do Oeste. Dylan Harper, segundo pick do último draft, aparece com 13,1 pontos e 52,5% de aproveitamento. Esses dois nomes confirmam que San Antonio tem profundidade real, não apenas Wembanyama.
Nos Knicks, a dominância de primeiro quarto é dado relevante: +27,6 pontos por 100 posses nesse período, o melhor de qualquer time nos playoffs nos últimos oito anos. Se o ritmo inicial favorecer Nova York, o papel de Hart e dos outros role players é manter essa vantagem antes que os Spurs ajustem no intervalo — onde San Antonio tem o segundo melhor diferencial de terceiro quarto (+26,0) de toda a pós-temporada.
"A batalha entre role players de elite e jogadores de esforço pode decidir quais trechos do banco os times sobrevivem", apontou análise do FanSided antes do Jogo 1, conforme registrado pelo SportNavo.
Os dados sustentam a tese: quando Wembanyama descansa, os Spurs perdem o fio. Quando Brunson descansa, os Knicks dependem exatamente de quem está em quadra no banco. Vassell e Hart não são coadjuvantes — são os jogadores que determinam se as estrelas chegam ao quarto período com energia ou com desgaste acumulado.
O Jogo 1 acontece nesta quarta-feira. Se Vassell marcar Brunson abaixo de 22 pontos ou Hart terminar com dois ou mais rebotes ofensivos decisivos, o placar final vai contar uma história que os destaques de Wembanyama não vão mostrar. O Jogo 7, se houver, está marcado para 19 de junho — e até lá saberemos se esses dois nomes entraram para a história ou ficaram como trivia de Finals esquecidas.









