O calor de Los Angeles atravessa as janelas do estúdio. Luiz Felipe Scolari ajusta o microfone e respira fundo. Aos 75 anos, o homem que ergueu a quinta taça mundial ainda carrega no olhar a intensidade de quem comandou a geração mais vitoriosa do futebol brasileiro. Na entrevista exclusiva ao programa Esporte Record, Felipão quebrou o silêncio sobre os bastidores de 2002 e disparou análises certeiras sobre o momento atual da Seleção.
A revelação veio como um soco no estômago dos brasileiros. Ricardo Teixeira, então presidente da CBF, pediu para o técnico campeão mundial deixar o cargo mesmo após conquistar o pentacampeonato. "Eu queria ter ficado na Seleção após o título em 2002. Apresentei um projeto, mas Ricardo Teixeira me pediu para sair", confessou Felipão, com a voz ainda carregada de mágoa.
A era dourada que terminou por política
Junho de 2002, Yokohama. O estádio explode quando Ronaldo marca o segundo gol contra a Alemanha. Nas arquibancadas, 70 mil pessoas vibram. No banco brasileiro, Felipão aperta os punhos. Aquela "Família Scolari" havia conquistado o mundo com um aproveitamento de 85,7% durante toda a campanha - sete vitórias em sete jogos, 18 gols marcados e apenas 4 sofridos.
O ambiente construído durante aqueles 23 dias no Japão e na Coreia do Sul foi único. Ronaldo, que havia sofrido a convulsão misteriosa na final de 1998, marcou 8 gols e se tornou artilheiro da competição. Rivaldo contribuiu com 5 gols, enquanto Ronaldinho encantou o mundo com dribles e assistências. A conexão entre jogadores e comissão técnica era tão forte que o grupo ficou conhecido mundialmente como "Família Scolari".
Mas a política falou mais alto. Mesmo com o projeto apresentado e a vontade de continuar, Felipão foi obrigado a deixar a Seleção no auge. A CBF optou por Carlos Alberto Parreira, que assumiu o comando em julho de 2003. A primeira grande mudança na gestão da Seleção Brasileira pós-penta estava consumada.
Duas décadas de instabilidade técnica
A saída de Felipão marcou o início de uma era de constantes mudanças no comando técnico da Seleção. De 2003 até hoje, passaram pela equipe nacional nove treinadores diferentes: Parreira (2003-2006), Dunga (2006-2010), Mano Menezes (2010-2012), Felipão novamente (2012-2014), Dunga pela segunda vez (2014-2016), Tite (2016-2022), Ramón Menezes interinamente, Fernando Diniz (2023-2024) e agora Carlo Ancelotti.
O ar condicionado do centro de treinamento da CBF em Teresópolis sempre funcionou perfeitamente. O que mudou foram os métodos, as filosofias e os resultados. Tite conseguiu estabilidade por seis anos, com aproveitamento de 76,4% em 81 jogos - 56 vitórias, 13 empates e 12 derrotas. Mas mesmo ele não resistiu à eliminação nas quartas de final da Copa do Mundo de 2022, quando o Brasil caiu nos pênaltis para a Croácia.
Dunga, em suas duas passagens, mostrou números contrastantes. Na primeira (2006-2010), conquistou a Copa América de 2007 e a Copa das Confederações de 2009, mantendo aproveitamento de 71,8%. Na segunda (2014-2016), o aproveitamento despencou para 63,6%, culminando com a eliminação na fase de grupos da Copa América Centenário.
A revolução Ancelotti e os novos tempos
A chegada de Carlo Ancelotti representa uma mudança radical na política de contratações da CBF. Pela primeira vez desde 1965, quando João Saldanha assumiu a Seleção, um estrangeiro comanda a equipe nacional. O italiano de 65 anos traz no currículo cinco títulos da Liga dos Campeões - três como jogador e dois como técnico -, além de conquistas em todos os principais campeonatos europeus.
O perfil de Ancelotti contrasta com o modelo brasileiro tradicional. Enquanto Felipão construía sua liderança na proximidade e na gestão emocional do grupo, o italiano é conhecido pela frieza tática e pela capacidade de gerenciar egos em vestiários estrelados. No Real Madrid, comandou Benzema, Modric e Vinicius Jr com pulso firme, conquistando La Liga 2021-22 e a Champions League no mesmo ano.
"A Seleção hoje tem qualidade técnica individual superior à nossa de 2002", avalia Felipão na entrevista. "Mas falta aquela união, aquele espírito de grupo que tínhamos. Ancelotti precisa encontrar esse equilíbrio." O técnico campeão mundial destacou jogadores como Vinicius Jr, que marcou 24 gols na temporada 2023-24 pelo Real Madrid, e Rodrygo, autor de 17 gols na mesma temporada, como exemplos da nova geração talentosa.
CBF 2024: profissionalização tardia
A CBF de hoje pouco lembra a entidade que Felipão conheceu em 2001. O centro de treinamento em Teresópolis foi reformado, a estrutura médica modernizada e os processos de seleção de jogadores digitalizados. Ednaldo Rodrigues assumiu a presidência em 2022 prometendo transparência e gestão técnica, contrastando com o modelo personalista dos antecessors.
A contratação de Ancelotti por 12 milhões de euros anuais - maior salário já pago pela CBF a um técnico - simboliza essa nova fase. O investimento representa confiança no trabalho de longo prazo, algo que faltou nas gestões anteriores. A meta é clara: conquistar a Copa do Mundo de 2026, nos Estados Unidos, Canadá e México.
"Sinto que a CBF finalmente entendeu que precisava se profissionalizar", comenta Felipão. "Na nossa época, tudo era mais artesanal, mais baseado na intuição. Hoje existe ciência, dados, análise de performance. Ancelotti vai saber usar isso."
O silêncio do estúdio é quebrado apenas pelo zumbido das câmeras. Felipão olha para o horizonte através da janela, como se enxergasse o futuro da Seleção. Vinte e dois anos depois daquele julho mágico de 2002, o Brasil busca reencontrar o caminho para o topo do mundo. Com Ancelotti no comando e uma nova geração liderada por Vinicius Jr e Endrick, a esperança renasce. O penta foi apenas o começo de uma história que ainda precisa ser reescrita.

