Uma brasa que não apaga mesmo quando o vento para de soprar.
Felipe Azevedo tem 39 anos, nasceu em Ubatuba em 10 de janeiro de 1987 e ainda disputa a Copa do Nordeste com a intensidade de quem não recebeu o memorando de que deveria ter parado. A brasa da metáfora não é decorativa: é o tipo de jogador que parece apagado até que a bola aparece no espaço certo — e então o calor volta. Em 2026, defendendo o Botafogo PB, ele acumula 37 jogos nesta temporada, com 5 gols e 3 assistências. Para um atacante que já viveu de tudo no futebol brasileiro e até fez escala na Tailândia, esses números têm sabor de recado.
Se ele for transferido neste mercado
João Pessoa não é exatamente a vitrine mais iluminada do futebol nacional. Mas números são números, e 5 gols em 37 jogos numa competição regional de alto desgaste físico, aos 39 anos, é o tipo de dado que chega quieto nas planilhas de olheiros de clubes do interior do Nordeste. A diferença entre Felipe Azevedo e um atacante de 25 anos com estatística similar é, em distância, algo como a de Recife a Fortaleza — parece pouco no mapa, mas quem conhece a estrada sabe o que ela exige.
Se uma transferência acontecer neste mercado de meio de ano, o perfil mais realista seria um clube do Nordeste em busca de experiência para disputar o acesso à Série B ou para reforçar elenco em competição estadual. Felipe não seria contratado para fazer gols sozinho — seria contratado para ensinar o que não está no vídeo de treinamento: como se manter em campo quando o corpo pede desconto. Clubes como Fortaleza B, CSA ou alguma equipe da Série C com pretensões poderiam enxergar nele um ativo de liderança tão valioso quanto os 5 gols desta temporada.
O risco? Sair de um ambiente onde já conquistou o Campeonato Paraibano de 2026 e onde parece ter encontrado estabilidade. Trocar isso por uma promessa de mais exposição pode custar caro em ritmo e confiança — dois ativos que, nessa fase da carreira, valem mais do que salário.
Se permanecer no clube atual
Ficar no Botafogo-PB tem uma lógica que vai além do afeto. Em 2026, o clube já somou o título do Campeonato Paraibano ao seu histórico — e Felipe esteve lá. Esse tipo de conquista, simples no papel, pesa muito na identidade de um jogador que ao longo da carreira levantou taças em contextos completamente diferentes: o Troféu Chico Anysio e o Campeonato Cearense pelo Ceará em 2012, o Campeonato Pernambucano e a Copa do Nordeste pelo Sport em 2014, a Copa da Tailândia pelo Chiangrai United em 2017.
Permanecer significa continuar sendo o eixo de experiência num elenco que depende dele para mais do que os gols marcados. Três assistências nesta temporada dizem algo: Felipe não está apenas esperando a bola para finalizar. Ele está lendo o jogo, criando para os outros, funcionando como um segundo cérebro em campo. Isso tem valor crescente conforme os meses passam e os jogadores mais jovens do elenco ganham confiança.
A Copa do Nordeste ainda está em curso, e cada partida é uma chance de adicionar mais um capítulo a uma carreira que já atravessou três décadas e dois continentes. Permanecer é, provavelmente, o caminho que mantém a brasa acesa.
Se mudar de função tática
Atacantes que chegam aos 39 anos em atividade raramente o fazem sem adaptação. Felipe mede 174 cm e pesa 75 kg — um perfil físico que nunca dependeu de imposição muscular, mas de leitura de espaço e timing. A pergunta tática que se abre agora é se ele poderia recuar um pouco mais no campo, atuando como segundo atacante ou até como meia avançado em determinados sistemas.
Essa transição não seria inédita para jogadores de seu perfil. Mudar de função significa menos desgaste nos sprints longos e mais participação nas jogadas de construção — o que, ironicamente, poderia aumentar sua utilidade para o técnico. As 3 assistências desta temporada já sugerem que ele tem instinto de criação, não apenas de finalização.
O risco de mudar de função é perder a identidade que o manteve relevante: a de um atacante que ainda assusta. Recuar demais pode fazer com que os adversários deixem de se preocupar com ele como ameaça direta ao gol — e aí o poder de influência diminui. O equilíbrio, como em tudo na carreira de Felipe, estará nos detalhes.
O cenário mais provável dos três
Quem acompanha a trajetória de Felipe Azevedo — levantada em detalhes em matéria do SportNavo — sabe que ele nunca foi do tipo que muda de endereço por impulso. Sua carreira tem uma lógica de sobrevivente inteligente: vai onde há projeto, fica onde há respeito, sai quando o ciclo fecha.
O cenário mais provável é a permanência no Botafogo-PB até o fim da temporada 2026, com uma possível rediscussão de contrato no segundo semestre. A conquista do Campeonato Paraibano este ano criou um vínculo emocional e esportivo difícil de romper no meio de um ciclo. E os números desta temporada — 37 jogos, 5 gols, 3 assistências — não são os de um jogador em despedida. São os de alguém que ainda tem fome.
A questão para os próximos 12 meses não é se Felipe vai continuar jogando. É onde e com qual missão. A Copa do Nordeste é o palco imediato. O Nordeste, que já o viu campeão pelo Sport em 2014, pode vê-lo erguer mais uma taça — dessa vez com outra camisa, outra cidade, mas o mesmo fogo que nunca apagou de verdade.













