Se alguém dissesse, em 2016, que o meia paraibano que acabara de ganhar a Série C pelo Boa Esporte chegaria aos 35 anos defendendo a elite do futebol brasileiro com regularidade de titular, poucos apostadores aceitariam a proposta. Pois é exatamente isso que Fellipe Mateus está fazendo no Criciúma em 2026.

Fellipe Mateus de Sena Araújo nasceu em 12 de fevereiro de 1991, em Campina Grande, Paraíba. Tem 178 cm, pesa 71 kg e veste a camisa 7 do Criciúma na Série A do Brasileirão. Na temporada atual, soma 31 jogos — um número que, por si só, já conta a história de um profissional que sobreviveu onde outros não conseguiram.

Início de carreira

A formação de Fellipe Mateus passou pelo São Bernardo, clube que o cedeu por empréstimo ao Mauaense logo no começo da carreira. O início foi de adaptação difícil: ele não conseguiu se firmar como titular no Tigre e seguiu um caminho tortuoso de empréstimos — Cuiabá, Ferroviária, União Barbarense, Boa Esporte e Juventude compõem a lista de passagens antes de qualquer estabilidade.

Reparemos no detalhe: cada um desses empréstimos representa não apenas uma mudança de cidade, mas uma renegociação de valor de mercado, de contrato, de expectativa. Para um meia sem grande visibilidade midiática, esse percurso é, ao mesmo tempo, escola e filtro.

Em 2013, ainda vinculado ao São Bernardo, conquistou a Copa Paulista. Em 2016, pelo Boa Esporte, veio o título do Campeonato Brasileiro Série C — o primeiro grande marco coletivo de uma carreira que ainda levaria anos para encontrar porto fixo.

Em 28 de setembro de 2018, retornou à Ferroviária em caráter definitivo. Em 7 de abril de 2019, foi emprestado ao Figueirense para o restante daquela temporada. Eram, ainda, anos de indefinição — contratos curtos, sem a segurança de um projeto de médio prazo.

Números que importam

Em 20 de maio de 2021, Fellipe Mateus assinou com o Criciúma. A data marca o ponto de inflexão real da carreira. Desde então, acumulou 138 jogos pelo clube, com 13 gols e 14 assistências em competições como Copa do Brasil, Campeonato Catarinense, Série B e Série A do Brasileirão — conforme registrado pelo SportNavo a partir dos dados oficiais do clube.

Na temporada atual de 2026, são 31 partidas disputadas na Série A, com 3 gols marcados e nenhuma assistência até o momento. O volume de jogos é o dado mais expressivo: em um elenco que disputa a elite nacional, estar em campo em 31 das rodadas disputadas significa confiança técnica e física acima da média para um atleta de 35 anos.

Em 3 de abril de 2023, após conquistar o acesso à Série A e o Campeonato Catarinense Série B de 2022, o clube renovou seu contrato até dezembro de 2024 — sinal de que a diretoria reconhecia o valor do meia muito antes de qualquer janela de transferências movimentar o mercado em torno dele.

Estilo de jogo

Fellipe Mateus opera no espaço entre as linhas com a leitura de jogo de quem passou por muitos sistemas táticos diferentes ao longo de uma década e meia de profissionalismo. Não é um meia de dribles ou de volume ofensivo explosivo — seus 3 gols em 31 jogos na temporada atual refletem um perfil mais de construção do que de finalização.

A ausência de assistências nesta temporada é um dado que merece contexto qualitativo: em um Criciúma que disputa a Série A com recursos limitados em comparação aos clubes do eixo Rio-São Paulo, o meia funciona mais como organizador de fluxo do que como último passe. É o tipo de função que não aparece na tabela de artilharia, mas que define o ritmo de uma equipe em jogos de pressão.

Início de carreira Fellipe Mateus aos 35 — o meia paraibano
Início de carreira Fellipe Mateus aos 35 — o meia paraibano

Veja-se isto: no empate em 2 a 2 contra o Fortaleza no Castelão, em 20 de abril de 2026, pela Série B — resultado que evidencia o nível de competitividade do Criciúma mesmo fora de casa —, Fellipe Mateus esteve em campo, contribuindo para um resultado que poucos esperavam do clube visitante.

Conquistas e momentos marcantes

O currículo de Fellipe Mateus tem cinco títulos documentados. Pelo São Bernardo, a Copa Paulista de 2013. Pelo Boa Esporte, o Campeonato Brasileiro Série C de 2016. Pelo Criciúma, o Campeonato Catarinense Série B de 2022, o Campeonato Catarinense de 2023 e de 2024, além da Recopa Catarinense de 2024 e de 2025.

São sete troféus no total — e cinco deles conquistados depois dos 30 anos, o que inverte a narrativa convencional de que atletas nessa faixa etária estão em fase de declínio. No caso específico do Criciúma, o período de maior produtividade de Fellipe Mateus coincide com o crescimento institucional do clube, que passou da Série B para a Série A com o meia como parte do projeto.

A renovação de abril de 2023 não foi apenas um ato administrativo: representou o reconhecimento de que o jogador paraibano havia se tornado parte estrutural da identidade do time catarinense — algo raro para quem chegou sem alarde em 2021.

O que esperar daqui pra frente

Com 35 anos e contrato que precisará ser reavaliado pela diretoria do Criciúma, Fellipe Mateus enfrenta o tipo de decisão que todo atleta veterano encontra em algum momento: provar que o rendimento justifica a renovação ou encerrar um ciclo vitorioso de forma planejada.

Os 31 jogos na Série A de 2026 indicam que o treinador ainda conta com ele como peça de rotação — ou mais. Para um meia de 35 anos, manter esse volume de participação em um campeonato com o nível físico da Série A é, por si só, argumento de mercado.

O cenário mais realista para os próximos 12 meses é a permanência no Criciúma, com eventual renovação por mais uma temporada, condicionada ao desempenho coletivo do clube na Série A de 2026. Uma eventual queda do time para a Série B abriria a possibilidade de rescisão ou de saída para outro clube da primeira divisão — mas, por ora, os dados apontam para continuidade.

Não há números de salário ou cláusulas contratuais disponíveis publicamente para esta análise. O que há é um histórico: sete títulos, 138 jogos pelo Criciúma e a consistência de quem aprendeu, ao longo de uma década de empréstimos, que regularidade vale mais do que promessa.