Parou. A Ferrari de Marquinhos fica ali, na garagem parisiense, como um símbolo de uma conquista que o capitão da Seleção Brasileira celebrou à sua maneira — comprando o carro e quase não tocando nele. A imagem é irresistível como metáfora: o zagueiro que dirige a defesa do Brasil com frieza cirúrgica é, fora de campo, um homem que prefere acolher compatriotas recém-chegados à Europa a acelerar em estradas francesas.

A narrativa do atleta-máquina que a série 'Pop da Seleção' veio desmontar

Por décadas, o imaginário popular construiu o jogador de futebol profissional como uma figura monolítica: treino, jogo, recuperação, repetição. A série Pop da Seleção, apresentada pelo jornalista Leo Lepri e disponível no GloboPop, parte de uma premissa diferente — e necessária. São 26 perfis em vídeo, um para cada convocado por Carlo Ancelotti para a Copa do Mundo, que começam pelo mais óbvio (o futebol) e terminam onde poucos jornalistas chegam: a vida real do atleta quando as chuteiras estão no armário.

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O primeiro perfil foi o de Vinícius Jr., mas foram os retratos de Marquinhos e de Alisson Becker que mais circularam nas últimas horas — e não por acaso. Os dois carregam histórias que contradizem os estereótipos mais arraigados sobre jogadores de elite.

Marquinhos, 30 anos, capitão do Brasil e peça central do PSG há mais de uma década, foi apelidado de Pequeno Monstro ainda na base do Corinthians — uma referência direta ao estilo de Thiago Silva, com quem divide não apenas a posição, mas a elegância defensiva. Dentro de campo, o apelido faz sentido. Fora dele, o capitão é quase o oposto: recebe brasileiros que chegam a Paris com dicas sobre colégios para os filhos, ajuda com burocracia de visto de trabalho e age como embaixador informal de uma comunidade que cresce a cada temporada europeia. A Ferrari comprada quando se consolidou no clube francês? Fica ali, mais como troféu do que como meio de transporte.

Alisson Becker e os 33 anos de um goleiro que pesca o silêncio no Sul do Brasil

Alisson Becker, gaúcho de 33 anos, chega à Copa do Mundo de 2026 na condição de titular absoluto da Seleção há aproximadamente uma década — um reinado de solidez que remete ao tempo em que Taffarel segurou o gol brasileiro por 15 anos consecutivos, entre 1987 e 2002. Mas o goleiro do Liverpool, que já marcou um gol histórico de cabeça pelo clube inglês em maio de 2021 para garantir a classificação à Liga dos Campeões, escolhe formas bem mais silenciosas de se expressar quando está longe das quatro linhas.

Pescar no Sul do Brasil — onde nasceu, em Novo Hamburgo — é o ritual de descompressão do arqueiro. O outro é o violão. Não há show, não há plateia: é o instrumento como ferramenta de equilíbrio mental, algo que jogadores de outras gerações buscavam em práticas bem diferentes. Ronaldo Fenômeno tinha sua paixão pela Fórmula 1. Romário jogava sinuca. Alisson toca acordes.

"Alisson já fez gol de cabeça. Agora marca um golaço como embaixador da boa vontade da Organização Mundial da Saúde ao lado da esposa, Natália Loewe, que é médica." — Perfil Pop da Seleção, GloboPop

A esposa médica, o engajamento com a OMS e a presença no tapete vermelho da Bola de Ouro ao lado de Natália compõem um retrato de atleta que transcende a função. Não é um fenômeno novo — Sócrates era médico formado e militante político —, mas é raro o suficiente para merecer registro.

O que esses hobbies revelam sobre o Brasil que vai à Copa

Há um padrão nessa geração da Seleção que Ancelotti convocou para o torneio nos Estados Unidos, Canadá e México. Não é a geração do ostentacionismo digital — ou pelo menos não só isso. Marquinhos ajuda burocratas involuntários em Paris. Alisson pesca em silêncio no Rio Grande do Sul. São perfis que falam de enraizamento, de identidade preservada apesar dos contratos milionários e das vitrines europeias.

Historicamente, as seleções brasileiras que foram mais longe em Copas do Mundo carregavam essa coesão de grupo fora do campo. O tetracampeonato de 1994 foi construído sobre uma disciplina coletiva incomum para os padrões brasileiros da época — Parreira impôs regras rígidas de convivência, e Taffarel, Mauro Silva e Mazinho eram os guardiões desse ambiente. Em 2002, a harmonia entre Ronaldo, Ronaldinho e Roberto Carlos dentro do ônibus do time era lendária. A pergunta que essa série de perfis levanta, sem precisar responder diretamente, é se essa geração de 2026 tem o mesmo substrato humano.

"O zagueiro que dispensa carrinhos desesperados em campo é diferente fora das quatro linhas e gosta de um carrão. Marquinhos quase não usa, mas comprou uma Ferrari assim que se consolidou em Paris." — Perfil Pop da Seleção, GloboPop

Os 26 perfis da série serão publicados progressivamente até o início da Copa do Mundo. O Brasil estreia no torneio no Grupo D, e Ancelotti já confirmou que Alisson segue como titular absoluto sob as traves — sua terceira Copa do Mundo consecutiva, igualando a sequência de Taffarel entre 1990 e 1998. A Ferrari de Marquinhos continua na garagem. O violão de Alisson, provavelmente, vai na mala.

A Seleção joga futebol. Mas é fora dele que se entende quem esses jogadores realmente são.