É um relógio com pavio curto — e ninguém ainda decidiu quem vai cortá-lo.

Na quarta-feira, 13 de maio, milhares de torcedores foram às ruas de Teerã para despedir a seleção iraniana rumo à Copa do Mundo. Bandeiras, cânticos, emoção genuína. O problema é que, no momento em que as câmeras registravam a festa, nenhum dos jogadores convocados pelo Irã possuía visto para entrar nos Estados Unidos — país-sede do torneio que começa em junho. A informação foi confirmada pelo próprio presidente da Federação Iraniana de Futebol, Mehdi Taj, em entrevista à agência estatal Irna nesta quinta-feira, 14 de maio.

O abismo diplomático de quatro décadas que chegou ao campo de futebol

Irã e Estados Unidos romperam relações diplomáticas nos anos 1980, após a Revolução Islâmica e a crise dos reféns na embaixada americana em Teerã. Quarenta anos depois, esse vácuo institucional produz um efeito concreto e imediato: não há consulado ou embaixada americana em Teerã capaz de processar vistos. Para que os jogadores iranianos obtenham autorização de entrada nos EUA, precisam se deslocar até a Turquia para a coleta de impressões digitais — etapa obrigatória no processo de emissão do documento. Não se trata de burocracia ordinária. Trata-se de uma operação logística que envolve deslocamento internacional de um grupo de atletas em plena preparação para uma Copa do Mundo.

O dirigente iraniano foi direto ao delimitar responsabilidades.

"Nós não temos nada a ver com os Estados Unidos. Nos classificamos para a Copa do Mundo e é a Fifa que deve organizá-la", declarou Taj à agência Irna.
A frase revela a estratégia iraniana: transferir o ônus político para o organismo que vendeu ao mundo a ideia de que o futebol transcende fronteiras. A Fifa, ao escolher os EUA como sede — decisão anunciada em 2018 —, assumiu implicitamente a responsabilidade de garantir que todas as delegações classificadas pudessem participar sem restrições de natureza política.

A reunião decisiva com a Fifa e o prazo que não perdoa

Mehdi Taj anunciou que uma reunião com representantes da Fifa ocorrerá nos próximos dias — amanhã ou depois de amanhã, segundo suas palavras. O tom utilizado pelo dirigente não deixa margem para interpretações amenas.

"Amanhã, ou depois de amanhã, teremos uma reunião decisiva com a Fifa. Ela deve nos apresentar garantias, porque o problema dos vistos continua sem solução", afirmou.
O uso da palavra "garantias" é revelador: a federação iraniana não quer apenas promessas de intermediação — quer compromisso formal de que seus atletas chegarão às cidades-sede.

O Irã está alocado no Grupo G da Copa do Mundo, ao lado de Bélgica, Nova Zelândia e Egito. Seus jogos estão programados para Los Angeles e Seattle — duas das cidades americanas com maior densidade de diáspora iraniana, o que torna o imbróglio ainda mais carregado de simbolismo político. A delegação chegou a solicitar formalmente à Fifa a transferência de suas partidas para o México, sede alternativa do torneio, mas o pedido foi negado pela entidade. A recusa fecha uma saída que poderia ter contornado o problema sem exigir intervenção diplomática direta.

Na avaliação do SportNavo, o caso iraniano expõe uma contradição estrutural do modelo de Copa do Mundo que a Fifa consolidou nas últimas décadas: ao expandir o torneio para 48 seleções e distribuí-lo por múltiplos países com contextos geopolíticos distintos, a entidade aumentou exponencialmente os riscos de conflitos entre soberania nacional e neutralidade esportiva. A receita gerada pela Copa de 2026 é estimada em mais de 11 bilhões de dólares — um recorde histórico — mas esse volume financeiro não compra automaticamente a cooperação de governos que operam sob lógicas de segurança nacional.

Consequências esportivas concretas se o impasse não for resolvido

Do ponto de vista regulatório, a Fifa possui protocolos para situações em que uma seleção classificada não consegue participar do torneio por razões alheias ao desempenho esportivo. A entidade pode acionar a seleção que ficou em quarto lugar na repescagem intercontinental como substituta, ou convocar a segunda colocada do grupo de classificação asiático — caso o regulamento assim permita. Nenhum desses caminhos é simples nem rápido, e todos envolvem decisões políticas de alto impacto.

A seleção iraniana, treinada pelo técnico Amir Ghalenoei, chegou à Copa após campanha sólida nas eliminatórias asiáticas. O meia Sardar Azmoun, que atua pelo Bayer Leverkusen, é o nome mais reconhecível do elenco no mercado europeu. Impedi-lo de disputar o torneio por razões de visto seria um precedente sem paralelo na história recente do futebol mundial — comparável, em termos de impacto institucional, à exclusão da África do Sul nos anos de apartheid, embora por mecanismos completamente distintos.

A reunião entre a federação iraniana e a Fifa acontece num momento em que o calendário não oferece folga: o torneio começa em 11 de junho. O primeiro jogo do Irã no Grupo G está marcado para 17 de junho — e é nessa data que saberemos se o futebol, de fato, conseguiu superar quatro décadas de silêncio diplomático.