Quatro anos de resultados. Dois mil, novecentos e noventa e sete jogos. Cento e oitenta e sete seleções. Três números que, juntos, constroem o argumento mais incômodo que o futebol brasileiro enfrenta às vésperas de uma Copa do Mundo em casa — ou, mais precisamente, em casa dos anfitriões norte-americanos e mexicanos. O modelo da Escola Aplicada de Matemática da Fundação Getúlio Vargas (EMAp-FGV) não deixa margem para romantismo: o Brasil chega ao torneio de 2026 como nono favorito ao título, com apenas 4,68% de probabilidade, atrás até do Marrocos, que figura em sétimo lugar com 4,9%.
A vez em que os números também disseram não ao Brasil
Não é a primeira vez que a matemática contraria o instinto da torcida verde-e-amarela. Em junho de 1998, às vésperas da final contra a França no Stade de France, os modelos estatísticos disponíveis — ainda rudimentares para os padrões atuais — já sinalizavam que a seleção de Zagallo chegava fragilizada após o episódio envolvendo Ronaldo na véspera da decisão. O Brasil perdeu por 3 a 0, com dois gols de Zidane no primeiro tempo. Quatro anos depois, em 2002, o cenário se inverteu: a equipe de Luiz Felipe Scolari, com Ronaldo artilheiro da competição com 8 gols, era apontada como azarão por parte da imprensa europeia após uma fase de grupos irregular, e sagrou-se campeã com 100% de aproveitamento nas fases eliminatórias. A história do futebol é uma guerra permanente entre a frieza dos dados e a imprevisibilidade do campo.
O que diferencia o estudo da FGV de 2026 é a escala metodológica. Ao processar os resultados de 2.997 partidas disputadas entre 2022 e 2026, o modelo captura tendências que rankings como o da FIFA — baseado em pontuação acumulada com pesos por importância do jogo — tendem a suavizar. O desempenho recente pesa mais, e o Brasil dos últimos quatro anos não foi uma máquina de vitórias convincentes.
Espanha, Argentina e Inglaterra — o pódio que os dados sustentam
A Seleção Brasileira não compete apenas com o próprio passado glorioso — compete com seleções que, nos últimos quatro anos, construíram argumentos sólidos. A Espanha lidera o ranking da FGV com 15,57% de chances de título. O número não é arbitrário: a Roja de Luis de la Fuente conquistou a Eurocopa de 2024 com seis vitórias em seis jogos, marcando 15 gols e sofrendo apenas 4. A geração de Yamal, Pedri e Rodri representa o ápice de um ciclo que começou com a filosofia do tiki-taka e evoluiu para um futebol mais vertical e intenso.
A Argentina aparece em segundo, com 13,62%. O dado é coerente com o histórico recente: campeã da Copa América de 2021, campeã do mundo em 2022 com 7 vitórias e 1 empate em 8 jogos, e campeã da Copa América de 2024. Lionel Messi, com 13 gols em Copas do Mundo ao longo de sua carreira, ainda integra o elenco convocado por Scaloni. A Inglaterra fecha o pódio com 9,24%, sustentada por uma geração que chegou às finais das Eurocopas de 2021 e 2024 — perdeu as duas, mas demonstrou consistência defensiva e poder ofensivo com Bellingham, Saka e Foden.
O Brasil, nesse contexto, aparece na nona posição. Para quem acompanhou as cinco Copas do Mundo entre 1994 e 2002 — período em que a seleção disputou três finais e venceu duas —, o dado é perturbador. Mas os números do ciclo recente explicam a queda: eliminações nas quartas de final em 2010 (3 a 2 para a Holanda), 2022 (4 a 2 nos pênaltis para a Croácia) e o trauma histórico do 7 a 1 para a Alemanha em 2014, em pleno Mineirão, diante de 58.141 espectadores.
Marrocos na frente do Brasil — o que o modelo capturou
O dado que mais gerou reação entre os torcedores — e que foi registrado pelo SportNavo desde a divulgação do estudo — é o fato de o Marrocos, rival do Brasil na estreia do Grupo C em 13 de junho, aparecer com 4,9% de chances de título, superando os 4,68% da seleção canarinho. A diferença é pequena em termos absolutos, mas simbólica: o modelo considera que o adversário da primeira fase é, estatisticamente, mais provável de levantar a taça do que o pentacampeão.
A lógica tem fundamento. O Marrocos de Walid Regragui foi semifinalista do Mundial do Catar em 2022 — a melhor campanha da história de uma seleção africana —, eliminando Espanha e Portugal pelo caminho. Nos últimos quatro anos, a seleção marroquina acumulou resultados consistentes nas eliminatórias africanas e em amistosos contra seleções europeias. O modelo da FGV captura exatamente essa regularidade, sem o peso histórico das conquistas passadas do Brasil.
Como o trânsito da Avenida Paulista às 18h de uma sexta-feira, o futebol brasileiro parece parado enquanto o mundo ao redor se move com velocidade crescente. A seleção tem jogadores de altíssimo nível — Vinicius Jr., Rodrygo, Raphinha —, mas a coerência coletiva e o sistema tático ainda buscam definição sob o comando de Carlo Ancelotti, cujo trabalho com a seleção acumula menos de dois anos de dados para o modelo analisar.
O que o algoritmo não consegue medir
Modelos matemáticos são ferramentas poderosas, mas têm limites estruturais. O estudo da EMAp-FGV processa resultados, não contextos. Em 1970, o Brasil de Pelé, Tostão, Rivelino e Gérson chegou ao México com uma equipe que havia perdido para a Hungria por 3 a 1 nas quartas de final da Copa de 1966 — um dado que, isolado, teria rebaixado a seleção no ranking de qualquer modelo preditivo. O que aconteceu em seguida foi a campanha considerada a mais brilhante da história do futebol: seis vitórias em seis jogos, 19 gols marcados e apenas 7 sofridos.
Segundo a metodologia descrita pela EMAp-FGV, o modelo não incorpora variáveis qualitativas como motivação, liderança de vestiário ou o impacto psicológico de jogar em território geograficamente próximo ao Brasil — o torneio de 2026 terá jogos nos Estados Unidos, México e Canadá, com uma base de torcedores brasileiros estimada em mais de 2 milhões de pessoas só nos EUA. Esses fatores não entram na equação.
O Brasil estreia contra o Marrocos em 13 de junho, às 19h (horário de Brasília), em jogo que já carrega o peso de uma disputa simbólica entre o 9º e o 7º colocado no ranking de probabilidades. Escócia e Haiti completam o Grupo C. Se os números da FGV se confirmarem, o Brasil terá que superar a estatística logo na abertura — e fazer o que sempre fez quando a teoria tentou limitar o talento: entrar em campo e mudar a história.
Ancelotti, de blazer escuro na beira do gramado, olha para a prancheta. Os números dizem 4,68%. O campo, por enquanto, ainda não disse nada.










