Na última terça-feira, 28, enquanto o mundo do futebol ainda digeria os resultados do fim de semana, a Fifa aprovava em Vancouver, no Canadá, uma das decisões mais politicamente carregadas de sua história recente: a reforma no Regulamento de Governança que permite a atletas afegãs representar seu país em competições oficiais internacionais, mesmo com a federação local sob controle do regime Talibã. O grupo Afghan Women United — Mulheres Afegãs Unidas, em tradução livre — foi reconhecido como entidade apta a vestir a camisa do Afeganistão. Todas as jogadoras vivem atualmente na diáspora, em condição de exílio.
O mecanismo jurídico que tornou o gol possível
A alteração regulatória costurada em coordenação com a Confederação Asiática de Futebol (AFC) abre um precedente significativo no direito esportivo internacional. A nova cláusula permite à Fifa registrar seleções nacionais em "circunstâncias excepcionais", mesmo quando a federação local não puder ou não quiser fazê-lo — uma linguagem deliberadamente ampla, inspirada, em certa medida, nos mecanismos que organismos como a UEFA já utilizam para proteger atletas de conflitos políticos em seus territórios. O objetivo declarado é proteger atletas de situações políticas fora de seu controle, garantindo o que a entidade chama de "princípios de universalidade e não discriminação". O período de transição administrativa previsto é de até dois anos para a plena efetivação burocrática.
O presidente da Fifa, Gianni Infantino, discursou no anúncio em Vancouver com um tom que oscilou entre o triunfo institucional e o reconhecimento das circunstâncias extraordinárias.
"Criamos, juntamente com mulheres muito corajosas, uma equipe de refugiadas. Agora, o Conselho da Fifa decidiu permitir que elas participem de competições oficiais. É um passo importante para todos que acreditam que o futebol pode ajudar essas mulheres que têm sofrido tanto", disse Infantino.
Desde Cabul até o campo de jogo — uma travessia de quatro anos
Quando o Talibã retomou o poder em agosto de 2021, uma das primeiras medidas do regime foi impor proibição total à prática de esportes por mulheres e meninas — o futebol incluído. A restrição gerou protestos imediatos em Cabul e outras cidades, mas o silêncio institucional que se seguiu, por parte tanto da Fifa quanto da AFC, foi recebido com frustração crescente entre ativistas e atletas. Para quem acompanhou de perto a evolução do futebol feminino na Europa — onde o crescimento de ligas como a WSL inglesa e a Liga F espanhola colocou o debate sobre inclusão no centro das discussões — a demora da entidade máxima do futebol soou anacrônica.
A alavanca mais visível desse processo foi Khalida Popal, ex-capitã da seleção afegã e ativista que lidera a luta pelo reconhecimento do grupo desde o exílio. Seu trabalho de articulação política, feito em paralelo às negociações diplomáticas com a Fifa e a AFC, foi determinante para que a mudança regulatória saísse do papel. O anúncio em Vancouver representou, para ela, mais do que uma vitória burocrática.
"É o nosso momento. O futebol é a nossa voz e a nossa plataforma. Nada é impossível quando os órgãos e dirigentes estão conosco", declarou Popal após a aprovação.
A atacante Fatima Yousufi, uma das atletas em exílio que integra o Afghan Women United, também se pronunciou com uma perspectiva que vai além do esporte em si.
"Nunca quisemos desistir por causa da situação no Afeganistão. Nossa missão sempre foi ser uma voz para as nossas irmãs. Este anúncio é um símbolo de esperança para cada menina afegã", disse Yousufi.
O que vem agora — estreia marcada e antecedentes na história do esporte
A análise do SportNavo aponta que a decisão da Fifa tem paralelos históricos interessantes: o comitê olímpico dos refugiados, criado em 2016 para os Jogos do Rio, foi o primeiro grande precedente moderno de representação esportiva dissociada de um Estado soberano funcional. No futebol, contudo, o vínculo entre federação nacional e território sempre foi mais rígido — o que torna a flexibilização regulatória aprovada em Vancouver genuinamente inédita no contexto da modalidade. Há críticos que apontam que a medida, embora bem-intencionada, abre espaço para interpretações jurídicas complexas em outros contextos de conflito ou instabilidade política.
O calendário já tem data marcada: em junho de 2026, o Afghan Women United realizará um acampamento de treinamento na Nova Zelândia, onde enfrentará as Ilhas Cook em partida oficial. Será a primeira vez, desde o retorno do Talibã ao poder, que uma seleção feminina com o nome do Afeganistão entrará em campo — independentemente de qual território a receba ou de qual bandeira tremule nas arquibancadas.








