Confesso: quando Brasília foi confirmada como sede da Copa do Mundo Feminina de 2027, escrevi que o Mané Garrincha seria um dos palcos mais imponentes do torneio. Hoje vejo o porquê de ter sido otimista demais com a gestão do estádio. A realidade administrativa chegou para cobrar a conta.

A notificação que colocou Brasília em xeque

Na quarta-feira, 13 de maio, a Fifa enviou uma notificação formal à administração da Arena BSB — nome atual do estádio Mané Garrincha — sinalizando a possibilidade de romper o contrato que garante Brasília como cidade-sede do Mundial Feminino de 2027. O documento foi elaborado por Jill Ellis, diretora-executiva de Futebol da entidade, e encaminhado pelo CEO da Arena BSB, Richard Dubois, aos gestores do estádio.

A Fifa foi direta no texto:

"Várias questões permanecem sem solução e constituem violações contratuais."
Não há margem para interpretação. A entidade não está negociando — está notificando.

O nó contratual que a Arena BSB não desatou

O ponto central da disputa é a ausência de confirmação sobre a disponibilidade "exclusiva e incondicional de todos os camarotes, espaços, áreas e escritórios" do estádio durante o período do torneio. Para a Fifa, essa garantia é inegociável em qualquer contrato de sede de Copa do Mundo — masculina ou feminina.

O prazo para regularização vence na sexta-feira, 15 de maio. Mas aqui está o detalhe que pesa contra Brasília: esse prazo já foi prorrogado diversas vezes, sem que nenhuma solução concreta tenha sido apresentada. Quando a Fifa decide reabrir uma janela depois de outra, ela está sinalizando paciência. Quando redige uma notificação formal com linguagem de ruptura contratual, ela está sinalizando que a paciência acabou.

Tem um ditado popular que cabe aqui como uma luva: quem não tem cão caça com gato. A Fifa, sem garantias firmes de Brasília, já deve estar mapeando alternativas para substituir o Mané Garrincha no calendário do torneio.

O que está em jogo para o Mundial Feminino de 2027

A Copa do Mundo Feminina acontecerá no Brasil entre 24 de junho e 25 de julho de 2027. O Mané Garrincha estava previsto para receber ao menos cinco jogos da competição — um número expressivo, que coloca Brasília entre as cidades com maior participação no torneio.

Quando uma cidade-sede perde o credenciamento da Fifa, os jogos são redistribuídos entre os demais estádios já homologados. Quando o problema é de gestão administrativa — e não estrutural —, o dano à imagem do país-sede é ainda maior, porque sinaliza desorganização interna.

O Brasil já passou por situações similares na Copa de 2014, quando prazos de obras e exigências contratuais geraram tensão com a Fifa em diferentes estádios. A diferença é que, naquela ocasião, os problemas eram majoritariamente de infraestrutura física. Aqui, a questão é contratual e administrativa — ou seja, algo que deveria ter sido resolvido em meses, não em anos.

Brasília tem 48 horas para evitar o pior cenário

A Arena BSB precisa apresentar, até o dia 15 de maio, um compromisso formal e documentado de que irá resolver todas as pendências apontadas pela Fifa. Não basta intenção declarada — a entidade exige garantias escritas e vinculantes sobre a disponibilidade integral do estádio.

Se o prazo passar sem resposta satisfatória, a Fifa tem respaldo contratual para retirar Brasília da lista de sedes e acionar cidades reservas. O torneio começa em junho de 2027, mas o calendário de preparação e homologação dos estádios não espera: as decisões operacionais precisam estar fechadas com mais de um ano de antecedência. O relógio corre, e desta vez não haverá nova prorrogação.