Todo mundo sabe que Deiveson Figueiredo perdeu para Song Yadong em Macau no último sábado, 30 de maio. A finalização no segundo round foi transmitida ao vivo, virou GIF, virou discussão de grupo. O que quase ninguém está falando é o que aconteceu antes disso — nos treinos, nas escolhas táticas, no corpo de um atleta de 38 anos que decidiu mudar de divisão e ainda assim enfrenta os mesmos fantasmas.

O que o vestiário de Macau não mostrou nas câmeras

Existe um momento específico em qualquer luta — eu passei por isso no meu oitavo ano de circuito, num evento em Bangcoc — em que o seu corpo sabe antes da sua cabeça que o round não vai terminar bem. Não é fraqueza. É fisiologia. O lactato sobe, a mandíbula afrouxa um milímetro, e o adversário que você treinou para neutralizar de repente parece diferente do vídeo que você estudou. Figueiredo entrou no octógono em Macau carregando esse peso invisível: uma derrota anterior ainda fresca em 2026, uma mudança de categoria dos moscas para os galos — de 56,7 kg para até 61,2 kg — e um adversário, Song Yadong, que tem 28 anos e um gás aeróbico que não perdoa erros de postura.

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Tecnicamente, o problema de Figueiredo nos últimos combates tem sido a guarda alta demais nos momentos de pressão — ele recua com o queixo exposto quando tenta criar ângulo para o cruzado de direita, que sempre foi a arma principal do cartel dele. No muay thai, a gente chama isso de 'guardar o rosto com os olhos': você fecha a guarda, mas o pescoço não acompanha, e qualquer clinch bem executado vira uma alavanca. Song Yadong explorou exatamente esse padrão no segundo round, quando encurralou Figueiredo na grade e trabalhou o corpo antes de buscar o pescoço. A finalização — um mata-leão executado com calma cirúrgica — não foi sorte. Foi leitura de combate.

Lesão, idade ou a divisão errada para Deiveson Figueiredo

A questão dos 38 anos é real, mas precisa de contexto. Randy Couture defendeu o cinturão dos pesados com 45. Dan Henderson ainda competia no alto nível aos 41. A idade, sozinha, não explica o declínio de Figueiredo — o que explica é a combinação de fatores que se acumulam quando um atleta decide mudar de divisão depois de ter sido campeão nos moscas. Subir de peso não é só comer mais carboidrato. É recalibrar o timing de golpe, a distância de guarda, a tolerância ao dano de adversários que pesam mais e batem mais forte. E esse processo, quando começa depois dos 35 anos, tem uma curva de aprendizado muito mais íngreme.

Há relatos — ainda não confirmados oficialmente pelo camp de Figueiredo — de que o brasileiro chegou a Macau lidando com um desconforto no ombro direito desde o camp de preparação. Não é informação de prontuário médico, mas qualquer lutador que já treinou com uma articulação comprometida sabe o que isso significa para a mecânica do soco: você inconscientemente protege o lado machucado, encurta o movimento, e o adversário — especialmente um que assistiu às suas últimas lutas — percebe isso no primeiro clinch. Figueiredo não confirmou nem negou publicamente. Segundo o próprio lutador, em declaração após o evento,

"Eu não estava 100%, mas não vou usar isso como desculpa. Song foi melhor do que eu naquela noite."
Essa frase diz muita coisa nas entrelinhas.

A mudança de categoria, aliás, merece uma análise mais fria. Figueiredo foi campeão dos moscas — cinco defesas de cinturão, uma das marcas mais sólidas da divisão na história recente do UFC. Nos galos, ele enfrenta uma grade de adversários que inclui nomes como David Martinez e Mario Bautista — que agora estão acima dele no ranking, em 7º e 8º lugar respectivamente — além de uma série de lutadores que cresceram nessa categoria e têm a estrutura corporal naturalmente adaptada ao peso. Figueiredo, por mais experiente que seja, chega ali como visitante.

A queda no ranking e o que o UFC vai cobrar agora

O UFC atualizou os rankings na terça-feira, 2 de junho — protocolo padrão da organização, três dias após qualquer evento. O resultado para o brasileiro foi a queda de duas posições na divisão dos galos: de 7º para 9º lugar, perdendo espaço para David Martinez e Mario Bautista. A organização não tem obrigação de proteger legados. O ranking é dinâmico, e duas derrotas consecutivas em 2026 — a segunda delas por finalização na luta principal de um evento numerado — colocam Figueiredo numa posição que poucos ex-campeões conseguem reverter sem uma sequência de pelo menos duas vitórias expressivas.

Figueiredo não foi o único brasileiro afetado pela última atualização. Tallison Teixeira também saiu do Top 15 dos pesados após seu resultado recente no octógono — e o cenário coletivo do MMA brasileiro em 2026 está longe de ser confortável. Mas o caso de Figueiredo tem um peso simbólico diferente: ele foi o rosto da divisão dos moscas por quase quatro anos. Ver o 'Deus da Guerra' — apelido que ele carrega com orgulho desde os tempos de Soure, no Pará — descendo no ranking dos galos é o tipo de imagem que o UFC prefere não ter na capa do site.

Historicamente, ex-campeões que mudam de divisão após 35 anos e acumulam duas ou mais derrotas seguidas raramente voltam ao cinturão — os casos de BJ Penn nos leves e de Frankie Edgar nos galos são referências dolorosas nesse sentido. Mas Figueiredo tem algo que esses dois não tinham na mesma medida: um poder de finalização que nunca desapareceu completamente, e uma capacidade de vencer lutas feias que ainda aparece em flashes. O problema é que flashes não bastam contra adversários de 28 anos que chegam ao segundo round com o mesmo gás do primeiro.

O próximo passo lógico para o camp de Figueiredo — e a decisão que o UFC vai cobrar nos próximos 60 dias — é definir se o brasileiro volta para os moscas, onde tem histórico e respeito, ou se aposta mais uma ficha nos galos contra um adversário que permita reconstruir confiança e ritmo. Uma luta contra alguém entre o 10º e o 12º lugar do ranking dos galos seria o caminho mais provável para uma reabilitação gradual. A pergunta que fica para você que acompanha o cartel de Figueiredo há anos: se o UFC oferecer uma luta de retorno nos moscas contra um top 5 da divisão, Figueiredo aceita o desafio ou prioriza terminar o ciclo nos galos onde começou?