O árbitro Lukasz Bosacki ainda não cruzou o octógono quando a pergunta já estava suspensa no ar do Galaxy Arena: um lutador com três derrotas nas últimas quatro lutas pode genuinamente ameaçar um top 10 da divisão? A resposta de Deiveson Figueiredo começa às 04h00 do horário de Brasília desta madrugada de sábado, em Macau, quando o paraense de Soure sobe ao octógono para enfrentar Song Yadong no evento principal do UFC Fight Night.
O que os números de Figueiredo revelam antes do primeiro round
Quem olha o cartel de Figueiredo com preguiça enxerga apenas o sinal de alerta: 1 vitória e 3 derrotas nas últimas quatro aparições no UFC, com o nocaute sofrido para Merab Dvalishvili sendo o mais recente capítulo dessa sequência. Quem analisa com rigor técnico, porém, percebe que o paraense ainda carrega um finish rate de 37% na divisão dos galos — número que o coloca entre os lutadores de maior poder de finalização do peso. Sua striking accuracy histórica gira em torno de 48%, acima da média da divisão, e seu ground and pound em posição de montaria segue sendo uma das ferramentas mais perigosas do roster.
A derrota para Dvalishvili, no entanto, expôs uma vulnerabilidade que Song Yadong certamente estudou: Figueiredo tem dificuldade no sprawl quando o adversário encadeia double leg com transição para clinch. O georgiano explorou esse gap com uma taxa de takedown accuracy de 61% naquela noite, mantendo Figueiredo na grade e acumulando rounds pelo volume. O brasileiro precisará de uma resposta técnica diferente — mais pressão no striking à distância média e menos tentativa de contra-luta no solo.
"Eu sei o que preciso corrigir. Vim para Macau para provar que ainda sou um dos melhores do mundo nessa divisão", declarou Figueiredo durante a semana de luta, segundo informações divulgadas pelo UFC.
Song Yadong e o que o chinês traz de diferente para esse confronto
Song Yadong chega a Macau — sua casa, na prática, dado o suporte da torcida chinesa que estará no Galaxy Arena — com um perfil técnico que difere radicalmente do de Dvalishvili. O chinês não é um wrestler de alto volume: é um striker de timing preciso, com striking differential positivo em seis de suas últimas oito lutas e uma capacidade de encaixar rear naked choke em situações de transição que poucos adversários antecipam. Seu cartel conta com vitórias sobre Marlon Vera e Cory Sandhagen, o que valida a posição de top 10 que ocupa na divisão.
O que para o argentino é a frieza do boxeador de Córdoba que nunca perde o eixo no clinch, para o brasileiro é o jogo de pernas do lutador carioca que transforma pressão em ângulo de ataque — e Song tem algo dos dois. Ele mistura paciência de striker com oportunismo de grappler, e essa combinação torna o trabalho de Figueiredo ainda mais complexo do que foi contra Dvalishvili. A tendência de Song de buscar o clinch contra a grade quando está em desvantagem no striking pode, paradoxalmente, ser o ponto onde Figueiredo encontra espaço para o seu ground and pound mais efetivo.
"Song é um lutador completo, mas todo lutador completo tem um momento de transição onde fica vulnerável. Meu trabalho é encontrar esse momento", afirmou Figueiredo em entrevista publicada esta semana, segundo o UFC.com.br.
O que ainda falta resolver para que essa luta faça sentido no ranking dos galos
A vitória de Figueiredo sobre Song não o colocaria automaticamente em posição de disputa de cinturão — o campeão Merab Dvalishvili e os pretendentes imediatos estão à frente no ranking — mas reposicionaria o brasileiro no mapa de forma concreta. Uma derrota, por outro lado, praticamente encerraria qualquer narrativa de contendência real para o paraense de 36 anos, que viu o cinturão dos moscas ser conquistado e perdido antes de subir de categoria.
A análise técnica aponta para uma luta decidida no detalhe: Figueiredo precisará manter o striking differential positivo nos dois primeiros rounds, evitar as transições de Song para o clinch e usar sua superioridade em ground and pound caso consiga a queda. Song, por sua vez, terá que gerenciar a distância com precisão e não deixar o brasileiro encontrar ritmo no striking de médio alcance, onde o paraense é mais eficiente. Em matéria do SportNavo publicada anteriormente, a tendência técnica já apontava para esse confronto como um dos mais equilibrados do card asiático do UFC em 2026.
O UFC Fight Night de Macau tem 13 lutas no card total, com prelims transmitidas ao vivo e comentadas por Brendan Fitzgerald, Laura Sanko e Michael Bisping. Figueiredo tem 36 anos e entra no octógono com 24 vitórias e 4 derrotas no cartel profissional — 37% delas encerradas por finalização ou nocaute na categoria dos galos.












