26 de outubro de 2024. Naquele sábado em Salt Lake City, Deiveson Figueiredo saiu do octógono pela segunda vez consecutiva sem ter a mão levantada — e, pela segunda vez consecutiva, o adversário era um dos melhores do mundo no peso-galo. A derrota para Cory Sandhagen, por decisão unânime, veio apenas quatro meses depois do nocaute técnico sofrido diante de Merab Dvalishvili. Dois resultados, um diagnóstico: o homem que governou o peso-mosca com brutalidade entre 2020 e 2022 está pagando o preço de enfrentar a elite antes de consolidar uma base sólida numa nova categoria.
O cartel que pesa mais do que qualquer adversário
Figueiredo tem 38 anos e um histórico que poucos lutadores na história do UFC podem ostentar: cinco reinados no peso-mosca, 14 finalizações no cartel e o recorde de defesas de cinturão na divisão até 57 kg. O problema é que esse passado glorioso não aparece no ranking do peso-galo — e é lá que sua carreira está sendo julgada agora. Nos últimos quatro compromissos, o paraense de Soure acumula apenas uma vitória, sobre Rob Font, em setembro de 2023. O restante: derrota para Brandon Moreno (outubro de 2023), nocaute técnico para Dvalishvili (junho de 2024) e decisão perdida para Sandhagen. Uma taxa de aproveitamento de 25% num período em que qualquer candidato ao cinturão precisa de no mínimo 75% para manter relevância no topo.

Song Yadong, seu adversário no main event do UFC Fight Night 277 — o chamado UFC Macau —, chega ao Galaxy Arena com um currículo parecido em termos de tropeços recentes. O chinês, que atua na categoria desde 2018, também perdeu para os principais nomes do top 10: Sandhagen e Petr Yan já bateram nele. Mas Song tem um trunfo que Figueiredo perdeu temporariamente — a consistência. Antes de suas derrotas para os contendores de elite, o chinês construiu uma sequência de seis vitórias consecutivas entre 2020 e 2022, o que lhe garantiu capital suficiente para absorver os resultados negativos sem sair do radar do cinturão.
O que os analistas enxergam nesse duelo em Macau
Segundo a análise de Jed Meshew e Alexander K. Lee para o MMA Fighting, ambos os lutadores estão firmemente dentro do top 10 do peso-galo, mas igualmente distantes de uma disputa de título após perderem para vários dos principais contendores da divisão. O ponto central do confronto, conforme discutido no preview show do UFC Macau, é justamente esse: quem vencer não recebe automaticamente um shot pelo cinturão, mas volta à conversa de maneira que a derrota torna impossível.
"Ambos estão bem estabelecidos no top 10 do peso-galo, mas ambos perderam para vários contendores principais, deixando os dois bem longe de uma disputa pelo título", avaliou a dupla de analistas do MMA Fighting antes do card.
Nas casas de apostas, Song Yadong aparece como favorito moderado para o confronto — uma posição que reflete não apenas o momento melhor do chinês, mas também o histórico recente de Figueiredo, que foi nocauteado por Dvalishvili e perdeu por pontos para Sandhagen sem conseguir impor seu jogo de finalização em nenhum dos dois combates. Figueiredo, que historicamente finalizou adversários em peso-mosca com uma eficiência que poucos lutadores da UFC já demonstraram — mais finalizações do que toda a divisão do peso-galo acumulou em um único ano —, ainda não encontrou a forma de replicar esse domínio 61 kg acima.
Por que uma vitória aqui vale mais do que parece
O card do UFC Macau tem outros confrontos de peso: Zhang Mingyang e Alonzo Menifield se enfrentam na co-main event, enquanto Sergei Pavlovich e Tallison Teixeira travam um duelo ranqueado nos pesados. Mas é o main event que carrega o maior peso simbólico da noite — não pelo título que está em jogo (nenhum), mas pela narrativa que define a sobrevivência de dois veteranos numa divisão cada vez mais jovem e cada vez mais competitiva.
Para Figueiredo, uma vitória sobre Song representa algo além do resultado no cartel. Seria a prova de que ele consegue bater em lutadores de nível semelhante no peso-galo — algo que ainda não ficou claro. Suas três derrotas na categoria vieram contra Moreno (que é seu rival histórico e veio de peso-mosca também), Dvalishvili (atual campeão) e Sandhagen (ex-desafiante). Ou seja, o paraense só perdeu para os melhores — mas também só enfrentou os melhores, o que não deixa margem para avaliar onde ele realmente se encaixa na hierarquia da divisão.
"O que está em jogo aqui não é apenas uma posição no ranking — é a narrativa de um ex-campeão que ainda tem algo a provar numa nova divisão", resumiu a análise do preview do MMA Fighting.
O ranking e os cenários depois de Macau
Em matéria do SportNavo, o cenário pós-Macau foi mapeado a partir das movimentações do ranking do peso-galo. Atualmente, Figueiredo figura entre os dez primeiros da divisão, mas uma nova derrota praticamente o retira da conversa pelo cinturão por pelo menos mais um ciclo de lutas — o que, aos 38 anos, pode significar o fim da janela de oportunidade. Song Yadong, por sua vez, com 27 anos, tem tempo para reconstruir, mas também precisa de uma vitória convincente para não se tornar o tipo de lutador que vence os medianos e perde para os grandes.

O vencedor do confronto no Galaxy Arena deve saltar para a faixa entre o quinto e o sétimo colocado do ranking, dependendo dos resultados paralelos da divisão. Com Dvalishvili como campeão e nomes como Sandhagen, Yan e Dominick Cruz ainda circulando pela divisão, a disputa por uma vaga no title shot exige pelo menos mais duas vitórias consecutivas sobre adversários ranqueados após Macau. Figueiredo tem exatamente 38 anos, 38 lutas no cartel profissional e uma única chance de inverter uma sequência negativa que dura 730 dias.










