A última vez que dois clubes se reencontraram tão cedo após um duelo eliminatório na Libertadores foi na edição de 2018, quando River Plate e Boca Juniors se cruzaram na fase de grupos antes da histórica final. Em 2026, o Flamengo e o Estudiantes refazem o caminho menos de oito meses depois das quartas de final de 2025 — e a memória do confronto anterior pesa sobre os dois lados, cada um à sua maneira.
O que ficou gravado do confronto de setembro de 2025
No dia 18 de setembro do ano passado, o Maracanã estava lotado quando Pedro marcou aos 15 segundos do primeiro tempo — um dos gols mais rápidos da história da Libertadores. Menos de dez minutos depois, Varela ampliou para 2 a 0. Em termos de xG (expected goals), o Flamengo gerou algo em torno de 2,8 xG no primeiro tempo, número que reflete o domínio avassalador que o time exerceu naquele período.
O problema foi o que veio depois. Apesar de criar chances para um placar ainda mais elástico, o Rubro-Negro parou de pressionar e cedeu espaço. O Estudiantes cresceu, e aos 45+1' do segundo tempo, Léo Pereira marcou contra. A partir dos 37 minutos, Gonzalo Plata foi expulso em lance polêmico — o árbitro anotou falta contra o Flamengo e deu o segundo amarelo ao equatoriano, sem possibilidade de revisão do VAR. A Conmebol, em ação rara, anulou o cartão no dia seguinte, admitindo o erro.
Na volta, em La Plata, o Estudiantes venceu por 1 a 0. A decisão foi para os pênaltis, e Rossi brilhou para classificar o Flamengo. Nas palavras que circularam nos bastidores do clube argentino após a eliminação, a sensação era de uma oportunidade desperdiçada — e esse sentimento alimenta a motivação do elenco para o reencontro desta quarta-feira (20/5).
O que as métricas revelam sobre os dois times em 2026
Quatro rodadas na fase de grupos desta edição já permitem algumas leituras interessantes. O Flamengo chega ao confronto com números ofensivos sólidos, especialmente em progressive passes — passes que avançam pelo menos 10 metros em direção ao gol adversário. Nos últimos três jogos, o time médio do Rubro-Negro registrou cerca de 68 progressive passes por partida, número que coloca a equipe entre as mais verticais do torneio até agora.
O Estudiantes, por sua vez, tem se apoiado em um bloco defensivo compacto, com PPDA (passes permitidos por ação defensiva) em torno de 9,2 — o que indica uma pressão moderada, mas eficiente no terço médio. Traduzindo: eles não pressionam alto, mas sufocam bem quando o adversário tenta construir no meio-campo.
- xG médio por jogo no grupo (Flamengo): ~1,9 — criação consistente, mas com desperdício de finalizações
- xG médio por jogo no grupo (Estudiantes): ~1,1 — time mais reativo, aposta na transição
- Defensive actions no terço defensivo (Estudiantes): alto volume, especialmente pelos lados, onde o Flamengo costuma atacar
O xA (expected assists) de Arrascaeta nas últimas partidas pela Libertadores também chama atenção — o uruguaio tem sido o principal criador de oportunidades do time, com passes que quebram linhas e ativam os atacantes em profundidade. Se o Estudiantes não resolver como neutralizá-lo, vai ter problemas.
O que está em jogo além da vingança argentina
Segundo a estrutura do Grupo A, uma vitória do Flamengo nesta quinta rodada pode garantir a liderança antecipada da chave, independentemente do que acontecer na última rodada. Para o Estudiantes, o cenário é de tudo ou nada em termos de posicionamento — uma derrota complica seriamente a classificação.
"Vamos ao Maracanã para jogar, não para sobreviver", declarou o técnico do Estudiantes em entrevista coletiva antes do embarque para o Rio, sinalizando que o time argentino não vai se fechar atrás desde o início.
Essa postura é interessante do ponto de vista tático. Se o Estudiantes sair para o jogo, o Flamengo terá os espaços que não encontrou no primeiro duelo de 2025, quando os argentinos jogaram mais recuados. A questão é se o time de Filipe Luís — que desde o ano passado amadureceu na gestão do placar — vai saber usar esses espaços sem repetir o erro de administrar mal a vantagem.
O histórico recente entre os dois clubes mostra que o Flamengo tem qualidade para vencer, mas o Estudiantes tem competência para transformar qualquer descuido em drama. No Maracanã, nesta quarta-feira, uma vitória rubro-negra sela o Grupo A antes da última rodada e encerra a conversa sobre vingança antes que ela ganhe corpo.









