Confesso: eu subestimei o peso da lateral esquerda no planejamento do Flamengo para o segundo semestre. Imaginei que Alex Sandro renovaria sem drama e que o clube concentraria energia na reposição do meio-campo. Errei a prioridade — e os movimentos desta semana mostram exatamente isso.
O Flamengo sinalizou interesse simultâneo em dois jogadores de perfis distintos: Marcos Antônio, volante de 25 anos do São Paulo, e Kaiki Bruno, lateral esquerdo do Cruzeiro. A combinação não é acidental — ela mapeia dois buracos reais no elenco rubro-negro, um para 2026 e outro com horizonte em 2027.
O que está em jogo agora com Marcos Antônio
A movimentação em torno do volante ganhou volume depois que o apresentador Craque Neto afirmou, em seu programa de TV, que o acerto com o Flamengo já estava fechado. A resposta do São Paulo foi direta:
"Eu não embarcaria nessa informação se fosse você", disse um dirigente importante do departamento de futebol tricolor.
O Flamengo, por sua vez, não confirmou nem negou. O staff do jogador evitou qualquer declaração. Esse silêncio triangular diz mais do que parece: há interesse genuíno, mas não há acordo.
O São Paulo adquiriu Marcos Antônio em definitivo junto à Lazio por aproximadamente R$ 26,3 milhões e não vai negociar abaixo do custo de reposição. O Flamengo chegou a consultar o clube italiano para verificar se os pagamentos estavam em dia — uma sondagem que, no jargão de mercado, serve para mapear eventuais vulnerabilidades contratuais do vendedor.
Há um complicador adicional: o Flamengo não obteve a prioridade de compra que pretendia no início do ano.
"O São Paulo queria o empréstimo do Allan para conceder essa prioridade, mas, como o jogador foi para o Corinthians, não demos prioridade nenhuma", explicou outro dirigente são-paulino.Sem cláusula preferencial, qualquer proposta rubro-negra compete no mercado aberto.

O timing também pesa. Internamente, o foco do Flamengo está concentrado na situação de Lucas Paquetá, do West Ham, o que coloca Marcos Antônio em segundo plano operacional. Enquanto a negociação principal não se resolve, recursos financeiros e atenção da diretoria ficam represados.
A operação Kaiki Bruno e o que o Cruzeiro já decidiu
O cenário para a lateral esquerda é diferente em urgência e horizonte. Alex Sandro tem contrato com o Flamengo até o fim de 2026 e avalia migrar para um clube com calendário menos intenso. Ayrton Lucas, a alternativa interna, não tem aprovação da torcida. O técnico Leonardo Jardim, que trabalhou com Kaiki Bruno no Cruzeiro durante a temporada passada, pediu o lateral explicitamente.
Kaiki tem contrato com o Cruzeiro até o fim de 2027. Em 2026, acumula 27 jogos e três assistências — números modestos em volume ofensivo, mas o perfil técnico e físico interessa ao esquema de Jardim. O lateral está na pré-lista da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo, o que eleva automaticamente seu valor de mercado e o preço de saída.
O Cruzeiro, segundo a rádio mineira Rede 98, está pessimista quanto à retenção do jogador diante da pressão rubro-negra. O clube celeste já iniciou a busca por substitutos e colocou dois nomes na lista:
- Alexandro Bernabei (Inter) — prioridade máxima do Cruzeiro
- Wendell (São Paulo) — sondagem em andamento
A movimentação do Cruzeiro por substitutos antes de qualquer acordo formal sinaliza que a diretoria celeste já precifica a saída de Kaiki como provável, não como hipótese.
A questão dos direitos econômicos
Kaiki Bruno tem vínculo até 2027, o que significa que o Cruzeiro detém 100% dos direitos econômicos e não tem obrigação de negociar por valores abaixo de sua avaliação interna. Pelo Transfermarkt, o lateral está avaliado em torno de 4 a 5 milhões de euros — faixa razoável para o mercado brasileiro, mas que o contexto de Seleção pode inflar antes da janela de julho.
O mapa da temporada muda se os dois chegarem ao Maracanã
A lógica das duas contratações é complementar e tem horizonte diferente. Marcos Antônio resolveria a reposição de volume e marcação no meio de campo já na segunda metade de 2026 — posição em que o Flamengo sente falta de um jogador de recuperação de bola com saída limpa. Kaiki Bruno seria o planejamento para 2027, quando a lacuna na lateral esquerda se torna estrutural.
A análise do SportNavo mostra que o Flamengo opera duas janelas simultaneamente: uma de necessidade imediata (volante) e uma de antecipação estratégica (lateral). Essa dupla frente é financeiramente exigente — implica desembolso de valores de aquisição, luvas e salários em dois momentos distintos, além de eventuais comissões de intermediação que costumam girar entre 5% e 10% do valor bruto da transferência em negociações domésticas.
A torcida do São Paulo, por sua vez, já reagiu nas redes sociais ao interesse rubro-negro em Marcos Antônio. Parte dos torcedores tricolores demonstrou compreensão com uma possível saída, diante do desempenho irregular da equipe no Campeonato Paulista — incluindo derrota por 3 a 1 para o Palmeiras. Esse ruído de torcida raramente define negociações, mas sinaliza o termômetro político interno que o presidente Harry Massis precisará administrar caso a proposta formal chegue.
O Flamengo volta a campo nesta quinta-feira (14), contra o Vitória, às 21h30, no Barradão, pelo jogo de volta da quinta fase da Copa do Brasil. Com vantagem de 2 a 1 do confronto de ida, um empate classifica o clube às oitavas. O resultado em campo não altera o prazo das negociações — mas uma classificação confortável libera a diretoria para concentrar atenção nas tratativas da janela. Acompanhe o desempenho do Flamengo nesta fase: a janela de transferências de julho abre enquanto o clube ainda disputa quatro frentes simultaneamente.









