— Cara, quantos jogadores o Flamengo vai perder pra Copa?
— Quatro já são certos pelo Brasil. Mas pode chegar a nove.
— Nove? Isso é metade do time titular.
Esse diálogo aconteceu em bares de Botafogo e Laranjeiras na semana passada, e não é exagero. Flamengo já tem quatro jogadores formalmente convocados por Carlo Ancelotti para a Copa do Mundo de 2026: Danilo, Alex Sandro, Léo Pereira e Lucas Paquetá. Outros cinco aparecem em pré-listas de Uruguai, Colômbia e Equador, com convocações previstas entre 31 de maio e 1º de junho. Se todos forem chamados, o clube rubro-negro terá a maior delegação de um único time sul-americano no torneio desde o Santos de 1962, quando Pelé, Coutinho e Mengálvio representaram o Brasil na Copa do Chile.
Os quatro convocados pelo Brasil e o peso histórico de cada nome
Danilo chega à Copa de 2026 com 36 anos e um currículo que inclui as edições de 2014, 2018 e 2022 — nesta última, foi titular na campanha que terminou nas quartas de final, eliminado pela Croácia nos pênaltis. Alex Sandro, 34 anos, também esteve no Qatar-2022 e soma três Mundiais consecutivos com a camisa canarinho. Léo Pereira, 28 anos, estreia em Copas e chega como titular absoluto na defesa de Ancelotti. Lucas Paquetá, 27 anos, é o nome de maior valor de mercado do grupo — avaliado em 70 milhões de euros pelo Transfermarkt — e carrega sobre si a expectativa de ser o meia-armador que o Brasil não encontrou desde Ronaldinho Gaúcho no auge de 2006.
Historicamente, o Flamengo já conviveu com grandes ausências por Copas. Em 1994, Zinho e Mazinho deixaram o clube para conquistar o tetra nos Estados Unidos. Em 2002, Júnior Baiano integrou o grupo campeão no Japão e Coreia. Mas nunca o clube cedeu quatro jogadores confirmados antes mesmo das convocações de outras seleções. A gestão do elenco para este período exigirá do técnico uma rotação que vai além do habitual.
Arrascaeta, De La Cruz, Varela, Carrascal e Plata — as datas que o Flamengo aguarda
Arrascaeta já se apresentou à seleção uruguaia para dar continuidade à recuperação de uma cirurgia na clavícula. O meia-atacante de 30 anos esteve no Qatar-2022 com o Uruguai, que foi eliminado na fase de grupos com apenas um ponto. Marcelo Bielsa, técnico da Celeste, ainda não definiu a data oficial da convocação, mas as chances de chamar também Nicolás De La Cruz e Guillermo Varela são consideradas elevadas pela imprensa uruguaia. Os três juntos representariam uma ausência coletiva de alto impacto no meio-campo e no corredor direito do Flamengo.
A Federação Colombiana anunciou que divulgará sua lista no dia 31 de maio. Jorge Carrascal, 26 anos, que chegou ao Flamengo em 2024 e se firmou como opção criativa no setor ofensivo, aparece como nome provável na convocação do técnico Néstor Lorenzo. Já o Equador tem convocação prevista para 1º de junho: Sebastián Beccacece considera Gonzalo Plata fundamental em seu esquema, apesar da irregularidade do atacante ao longo desta temporada pelo clube carioca.
"Um clube que cede oito, nove jogadores para uma Copa do Mundo não está sofrendo uma crise — está colhendo o que plantou no mercado. O problema real é o que acontece nos 45 dias de ausência desses atletas", avaliou um comentarista esportivo especializado em futebol sul-americano durante debate televisivo na semana passada.
Na apuração do SportNavo, as datas das convocações de Uruguai, Colômbia e Equador comprimem o prazo que a diretoria rubro-negra tem para planejar substituições pontuais ou acionar atletas da base que já vinham sendo observados pela comissão técnica.
O impacto no calendário da Libertadores e do Brasileirão
O Flamengo enfrenta o Estudiantes de La Plata nesta quarta-feira (20), às 21h30, no Maracanã, pela quinta rodada da fase de grupos da Copa Libertadores. Por ora, os selecionáveis ainda estão à disposição do clube — com exceção de Arrascaeta, já integrado ao grupo uruguaio. A Copa do Mundo de 2026 começa em 11 de junho, nos Estados Unidos, Canadá e México. Isso significa que, a partir da segunda semana de junho, o Flamengo entrará em campo no Brasileirão Série A sem ao menos quatro titulares confirmados, podendo chegar a nove ausências simultâneas.
Para contextualizar o tamanho do problema: em 2014, quando a Copa foi disputada no Brasil, o Cruzeiro — campeão brasileiro naquele ano — cedeu Willian, Everton Ribeiro e Nilton para a Seleção e ainda conquistou o título. Mas a escala era diferente: três jogadores, não nove. O Flamengo de 2026 terá que administrar uma sangria de elenco sem precedentes na história recente do futebol brasileiro de clubes.
A janela de retorno dos jogadores dependerá de quanto tempo cada seleção avançar no torneio. Se Brasil e Uruguai chegarem às semifinais, os atletas só retornam ao Flamengo após 19 de julho — data da final do Mundial. Nesse cenário, o clube perderia ao menos seis rodadas do Brasileirão com desfalques de alto nível, além de possíveis jogos da fase eliminatória da Libertadores.
O que a história das Copas diz sobre clubes nessa situação
O precedente mais próximo é o do Barcelona de 2010, que cedeu oito jogadores para a Copa da África do Sul — sete deles espanhóis, que conquistaram o título. O clube catalão perdeu os primeiros três jogos da temporada 2010/2011 da La Liga sem praticamente metade do elenco titular, mas recuperou o ritmo e terminou o campeonato como campeão. A diferença estrutural é que o Barcelona contava com um banco de reservas de nível internacional; o Flamengo precisará confiar em jovens da base e em atletas que hoje ocupam posições secundárias no elenco.
Danilo, com 36 anos, e Alex Sandro, com 34, provavelmente disputarão sua última Copa do Mundo. Para ambos, é uma despedida em alto nível. Léo Pereira e Paquetá, por sua vez, têm idade para estar em pelo menos mais uma edição do torneio. A gestão desse ciclo geracional, dentro e fora do clube, será um dos temas centrais do segundo semestre de 2026 no Flamengo.
É o mesmo cenário que o São Paulo viveu em 2002 — quando cedeu Rogério Ceni, Luizão e Júlio Baptista para o Mundial do Japão e Coreia e amargou uma sequência de quatro jogos sem vitória no Brasileirão — só que agora a aposta é diferente: o plantel rubro-negro é maior, mais profundo, e o clube já sabe que a Copa vai chegar antes de qualquer decisão doméstica.









