A última vez que o Flamengo viveu uma combinação tão amarga em mata-matas foi em 2020: eliminação nas oitavas da Libertadores e vice na Copa do Brasil. Seis anos depois, o cenário é ainda mais sombrio. Em 2026, o clube caiu nas oitavas da Libertadores para o Olímpia — perdendo por 3 a 1 em Assunção depois de vencer por 1 a 0 no Maracanã — e foi eliminado nas oitavas da Copa do Brasil pelo Vitória, derrotado por 2 a 0 em Salvador, revertendo a vantagem de 2 a 1 conquistada no jogo de ida. Dois mata-matas, dois acessos às quartas bloqueados. A diferença para 2020 é que agora veio logo depois de uma temporada de 2025 em que o Flamengo foi campeão da Copa do Brasil e semifinalista da Libertadores.

O que 2020 e 2026 têm em comum — e o que mudou

Em 2020, o Flamengo caía cedo nas competições internacionais em meio a instabilidade técnica e pressão por resultados imediatos. O contexto de 2026 repete o padrão: o técnico Jorge Sampaoli tem o trabalho questionado publicamente, com críticas especialmente ao relacionamento com o elenco. O ambiente interno no clube estava conturbado semanas antes das eliminações, com atritos que extrapolaram o vestiário.

Quando o Flamengo vence fora de casa com placar magro, o adversário sente que tem margem para reverter. Quando enfrenta um time motivado como o Vitória — que precisava de apenas uma vitória por 2 a 0 para avançar — o resultado vira estatística negativa. O Vitória embolsou R$ 3 milhões de premiação pela classificação, um dado que resume bem o impacto financeiro da eliminação para o clube carioca.

Quando o retrospecto é analisado friamente, a sequência de 2026 é inédita na última meia década: nenhuma das duas campanhas em mata-mata chegou às quartas de final. Segundo levantamento do SportNavo, desde 2021 o Flamengo havia ao menos chegado às quartas em pelo menos uma das competições a cada temporada.

Galeão na madrugada — a cena que ninguém queria repetir

Na madrugada de sexta-feira, cerca de 40 torcedores esperavam a delegação no Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro. O desembarque estava programado para as 4h50 no Salão Nobre, mas o clube saiu pela área comum — o que foi interpretado pelos presentes como tentativa de desviar da concentração. A irritação aumentou na mesma proporção.

"Time sem vergonha" — grito cantado pelos torcedores no desembarque, enquanto latas eram arremessadas contra o ônibus da delegação.

Jogadores precisaram de barreira de seguranças para entrar no veículo. A Polícia Militar usou spray de pimenta mais de uma vez para dispersar os torcedores, que chegaram a sentar no chão impedindo o ônibus de sair. O trajeto de saída do aeroporto levou cerca de 40 minutos, com o veículo se arrastando por quase 3 quilômetros até um posto de gasolina próximo ao Galeão. Rodolfo Landim, presidente do clube, saiu separadamente da delegação — e também foi alvo de protestos.

Antes mesmo de chegar ao Brasil, a delegação já havia sido recebida com xingamentos em Assunção: torcedores flamenguistas que viajaram ao Paraguai foram até o hotel onde o elenco estava hospedado. Os mais citados negativamente foram Pedro e David Luiz, além do próprio Landim e dos dirigentes Bruno Spindel e Marcos Braz.

Os números da crise em 2026

A lista de tropeços nesta temporada vai além dos mata-matas. O Flamengo não conquistou o Mundial de Clubes, a Supercopa, a Recopa nem o Campeonato Carioca em 2026 — competições que foram adicionadas a uma sequência de eliminações precoces que transforma a temporada atual no pior desempenho coletivo do clube desde 2020.

O impacto nas redes sociais foi imediato. Vídeos do protesto no Galeão viralizaram em poucas horas, com o termo "Flamengo" entre os mais comentados do Twitter/X no Brasil durante a madrugada de sexta. A promessa dos torcedores presentes era transformar o Maracanã em ambiente hostil nas próximas partidas em casa.

"Isso aqui vai virar um inferno" — frase gritada por torcedores no Galeão, segundo relato de jornalistas presentes.

O episódio do preparador físico Pablo Fernández — demitido após agredir o atacante Pedro durante a vitória sobre o Atlético-MG — expôs rachaduras internas que a torcida passou a interpretar como sintoma de uma gestão fora de controle. A punição aplicada ao próprio Pedro pelo clube amplificou a insatisfação.

O que vem pela frente para o Flamengo

Com Copa do Brasil e Libertadores encerradas em 2026, o clube segue apenas no Brasileirão. A pressão sobre Sampaoli e sobre a diretoria deve aumentar a cada rodada sem resultado convincente. A torcida já sinalizou que o Maracanã não será ambiente tranquilo nas próximas semanas.

O que 2020 e 2026 têm em comum — e o que mudou Flamengo repete 2020 e vive pior
O que 2020 e 2026 têm em comum — e o que mudou Flamengo repete 2020 e vive pior

O Flamengo entra em campo pelo Brasileirão neste domingo, 17 de maio, precisando de uma vitória para manter posição relevante na tabela e, principalmente, para tentar baixar a temperatura de uma crise que saiu do campo e foi parar nas câmeras de um aeroporto às cinco da manhã.

O ônibus rubro-negro finalmente conseguiu arrancar do Galeão quase uma hora depois de tentar sair. Nos vidros, nada. Do lado de fora, latas no asfalto e torcedores dispersando na madrugada carioca.