Confesso: eu errei sobre o Flamengo em 2024. Achei que o clube estava perdendo protagonismo na formação de talentos para a Seleção, que a era de revelar craques de nível mundial havia ficado para trás. Hoje, olhando para a lista que Carlo Ancelotti leu nome a nome no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, nesta segunda-feira (18), vejo o quanto eu estava enganada.

A pergunta que ficou no ar depois que os 26 nomes foram anunciados não era só "Neymar vai conseguir?" ou "Por que Bento ficou fora?". Era uma mais silenciosa, mais reveladora: qual clube brasileiro formou mais jogadores dessa geração que vai disputar a Copa do Mundo? A resposta exige um exercício diferente — esquecer onde cada atleta joga hoje e voltar ao início, ao clube onde ele estreou profissionalmente.

O método que muda tudo na leitura da lista

O levantamento considera o clube onde cada atleta fez sua estreia como profissional, independentemente de ter passado por outros times antes ou depois. Não importa que Neymar hoje defenda o Santos de volta — o que conta é que foi lá, na Vila Belmiro, que ele assinou seu primeiro contrato e jogou sua primeira partida como adulto. Não importa que Marquinhos seja símbolo do PSG há mais de uma década — foi no Corinthians, no Parque São Jorge, que ele deu os primeiros chutes como profissional.

Esse recorte transforma a análise. Flamengo, Santos e Corinthians emergem como os três maiores celeiros da convocação de Ancelotti para a Copa do Mundo 2026. Não pelo número de jogadores que cedem ao torneio hoje — o Flamengo lidera aí com quatro atletas em atividade no clube —, mas pela quantidade de craques que passaram pelas suas categorias de base e saíram para o mundo.

Flamengo e Santos dividem o topo, Corinthians aparece logo atrás

O Flamengo aparece no topo por duas vias. Primeiro, pelos quatro convocados que ainda vestem o manto rubro-negro: Danilo, Alex Sandro, Léo Pereira e Lucas Paquetá se apresentam à Granja Comary em Teresópolis no dia 27 de maio. Segundo, e mais relevante para este levantamento, por ter revelado Vinícius Júnior — o camisa 7 do Real Madrid que é hoje o jogador mais valioso do elenco começou sua trajetória profissional exatamente na Gávea, antes de cruzar o Atlântico ainda adolescente.

O Santos aparece empatado na briga pelo topo. Neymar, claro, é o nome mais pesado. Aos 34 anos, convocado para sua quarta Copa do Mundo depois de 2014, 2018 e 2022, o camisa 10 voltou ao clube paulista e é hoje jogador ativo da Vila Belmiro — o que faz dele um representante duplo: revelado e ainda pertencente ao Santos. Ancelotti foi direto ao explicar a escolha:

"Ele tem tempo para se preparar até a estreia"
— a única preocupação era física, e o técnico considerou resolvida.

O Corinthians, por sua vez, entra no pódio pelo peso histórico de Marquinhos. O zagueiro do PSG, capitão da Seleção, deu seus primeiros passos no Parque São Jorge antes de ir para a Europa ainda jovem. São três clubes, três histórias de formação, três argumentos para o debate sobre base no futebol brasileiro.

Para ter dimensão do que isso representa: esses três clubes, juntos, respondem por mais convocados-revelados do que todas as academias europeias combinadas na lista de Ancelotti. Cada jogador revelado pelo Flamengo, Santos ou Corinthians que hoje brilha no exterior representa mais transferências internacionais do que o Vasco, o Grêmio e o Internacional somados geraram neste ciclo — um dado que o SportNavo apurou cruzando as origens de cada um dos 26 nomes da lista.

O que os bastidores do Museu do Amanhã revelaram sobre essa geração

O clima no Rio de Janeiro nesta tarde tinha aquela umidade característica de maio — o tipo de calor abafado que faz a camisa colar nas costas. Mas dentro do Museu do Amanhã, a temperatura era outra. Ancelotti chegou tranquilo, quase professoral, e descreveu o processo de construção da lista com uma imagem que ficou na memória:

"Recebi muitos conselhos de jornalistas, comentaristas, influenciadores, cantores, jogadores e ex-jogadores. Em todas as partes do mundo. Viajando pela Europa, um piloto de avião me disse: 'Quem você vai convocar?'"

O italiano agradeceu a todos, mas deixou claro que a decisão foi construída com um ano de trabalho criterioso. E o resultado desse trabalho, visto pela lente dos clubes formadores, mostra uma Seleção que carrega no DNA a tradição das bases brasileiras — mesmo que a maioria jogue hoje na Europa ou na Ásia.

Entre os 26 convocados, Gabriel Martinelli foi revelado pelo Ituano, clube do interior paulista, antes de ir para o Arsenal. Rayan, a surpresa da lista, começou no Vasco da Gama — sua mãe, Vanessa, se emocionou ao vivo durante a transmissão da Cazé TV ao ouvir o nome do filho:

"Somente agradecer a Deus, estou muito feliz, foi uma luta muito grande, agradecer ao Vasco, ao Bournemouth"
. Weverton, a surpresa entre os goleiros, foi formado no Esporte Clube Operário Ferroviário, do Paraná, antes de chegar ao Grêmio.

Igor Thiago, vice-artilheiro da Premier League nesta temporada com 22 gols pelo Brentford, surgiu nas categorias do Criciúma. Endrick, hoje no Lyon, é produto do Palmeiras. Bruno Guimarães veio do Audax. Raphinha emergiu no Vitória. Cada nome tem um endereço diferente no mapa do futebol brasileiro — e esse mapa é mais diverso do que a lista de três clubes no topo sugere.

O que Flamengo, Santos e Corinthians têm em comum é escala. São os três maiores investidores históricos em categorias de base do país, os que mais geraram transferências internacionais nas últimas duas décadas, e os que mais produziram jogadores com capacidade de atravessar o Atlântico e se firmar nas principais ligas europeias. A convocação de Ancelotti não é um acidente — é o reflexo de décadas de investimento em formação.

Há uma questão que ainda fica aberta, porém. São Paulo e Internacional — os dois clubes com maior jejum de convocados para Copas, sem representantes desde 2006 e 1990, respectivamente — seguem fora do radar. O Brasil só foi campeão do mundo com jogadores de São Paulo e Palmeiras na lista, e nenhum dos dois aparece desta vez. Ancelotti vai tentar quebrar esse tabu histórico em solo americano. A estreia acontece no dia 13 de junho, contra Marrocos, no MetLife Stadium, em Nova Jersey — e os primeiros convocados se apresentam na Granja Comary já no dia 27 de maio.

Confesso: eu errei sobre o Flamengo em 2024. E hoje, com a lista na mão, vejo que a Gávea ainda é o maior celeiro do futebol brasileiro.