Um clube brasileiro nunca ganhou uma Champions League, mas Flamengo já derrotou o clube de Cristiano Ronaldo no único campeonato em que ambos competem de igual para igual — o das redes sociais. O paradoxo é esse: o futebol sul-americano, historicamente exportador de talentos e importador de receitas, agora produz uma audiência digital que rivaliza com potências europeias de orçamento oito vezes maior.
O Observatório de Futebol do Centro Internacional de Estudos de Esporte (CIES Football Observatory) divulgou nesta quarta-feira, 27 de maio de 2026, um ranking global com os clubes mais seguidos nas principais plataformas digitais — Facebook, Instagram, TikTok, X e YouTube. O Flamengo aparece na 15ª posição, com 71,6 milhões de seguidores somados em todas as contas oficiais, superando o Al-Nassr, da Arábia Saudita, que acumula 66 milhões. O líder absoluto é o Real Madrid, com 487,6 milhões — um número que, sozinho, equivale a quase sete Flamengo empilhados.
O que o CIES mediu e por que essa metodologia importa
A metodologia do CIES não considera apenas volume bruto de seguidores. O estudo cruza dados de maio de 2026 nas cinco maiores plataformas globais, ponderando o peso de cada uma no ecossistema digital de cada mercado. Isso significa que o TikTok — onde o Flamengo possui uma das operações mais agressivas do futebol brasileiro — tem peso diferente do YouTube, que concentra conteúdo de maior duração e monetização direta via AdSense. O ranking resultante, portanto, captura não apenas popularidade, mas presença multiplataforma, um dado mais relevante para patrocinadores do que o simples número de curtidas.
O top-3 reflete a hegemonia europeia: Real Madrid (487,6 mi), Barcelona (441,8 mi) e Manchester United (238,6 mi). Na sequência, Manchester City aparece em 5º com 187,8 milhões, Bayern de Munique em 8º com 165,2 milhões e Atlético de Madrid em 12º com 91,4 milhões. A Inter de Milão figura em 13º com 82,7 milhões — apenas 11,1 milhões à frente do Flamengo. O Borussia Dortmund, em 17º, já está abaixo do clube carioca, com 64,6 milhões.
"Os números levam em consideração as contas oficiais dos clubes nas principais plataformas digitais em maio de 2026", afirma o relatório do CIES Football Observatory, que monitora o futebol mundial com base em Neuchâtel, na Suíça.
Flamengo x Corinthians — 28,5 milhões de razões para uma disputa desigual
A diferença entre o Flamengo (15º) e o Corinthians (22º) é de 28,5 milhões de seguidores — um número que, para ter dimensão, equivale a mais do que a soma de todos os seguidores do Borussia Dortmund nas plataformas consideradas pelo CIES. O Corinthians acumula 43,1 milhões, o que o mantém no grupo das marcas esportivas globais de médio porte, mas a uma distância considerável do rival carioca.
Essa distância tem implicações diretas no mercado de patrocínio. Contratos de naming rights e patrocínio máster negociados por clubes com audiência digital acima de 70 milhões de seguidores carregam um multiplicador diferente nas planilhas das agências de marketing esportivo. A título de comparação, o Flamengo fechou seu contrato com a Rakuten na casa dos R$ 35 milhões anuais — um patamar que o Corinthians, com audiência 40% menor, dificilmente conseguiria replicar em uma negociação equivalente com a mesma empresa, segundo análises do setor de marketing esportivo. O Corinthians, por sua vez, tem trabalhado com patrocínios segmentados por plataforma, uma estratégia que distribui o risco mas dilui o valor unitário de cada acordo.
"A audiência digital virou o principal ativo de negociação dos clubes com marcas globais. Não é mais o tamanho do estádio, é o tamanho da tela", resume um executivo de marketing esportivo ouvido pelo SportNavo, com passagem por negociações de patrocínio na Serie A italiana.
O que os 71,6 milhões valem em receita real e o que vem pela frente
Traduzir seguidores em receita não é uma operação linear, mas o mercado já estabeleceu parâmetros. Clubes com audiência entre 60 e 80 milhões de seguidores globais operam numa faixa de CPM (custo por mil impressões) entre US$ 4 e US$ 7 em conteúdo patrocinado nas plataformas digitais, segundo dados da Nielsen Sports utilizados por agências de marketing esportivo europeias. Aplicando a faixa média de US$ 5,5 ao volume de interações mensais estimado para o Flamengo — considerando taxa de engajamento de 2,3% sobre 71,6 milhões de seguidores — chega-se a um potencial de geração de receita digital direta que ultrapassa US$ 9 milhões anuais apenas em ativações de conteúdo patrocinado, sem contar receitas de transmissão e licenciamento.
O Corinthians, com 43,1 milhões de seguidores e um perfil de engajamento historicamente sólido no Facebook — plataforma onde a torcida alvinegra construiu sua base digital antes da explosão do Instagram e do TikTok —, opera num patamar estimado entre US$ 5 e US$ 6 milhões anuais nessa mesma categoria. A diferença de US$ 3 a 4 milhões anuais em receita digital potencial representa, ao longo de um ciclo de quatro anos, um gap de até US$ 16 milhões — dinheiro suficiente para financiar a contratação de um atacante de nível continental.
O dado mais revelador do estudo do CIES é o que aparece na 25ª posição do ranking: o Persib Bandung, clube indonésio, com 35,6 milhões de seguidores. A presença de um time do sudeste asiático nesse grupo confirma que a digitalização do futebol já não obedece à lógica dos títulos ou das ligas tradicionais — obedece à lógica das comunidades online. Para o Corinthians, isso é tanto um alerta quanto uma oportunidade: a torcida existe, o ativo está formado, o que falta é uma estratégia de monetização à altura do tamanho da base. O próximo relatório do CIES, previsto para novembro de 2026, vai medir o impacto das campanhas de Copa do Mundo no engajamento digital dos clubes brasileiros — e pode redesenhar essa fotografia.










