Confesso: eu errei sobre a candidatura de Flávio Bolsonaro quando imaginei que o foco inicial da pré-campanha seria construir palanques estaduais sem atritos internos. O que está acontecendo no Paraná nas últimas semanas é exatamente o oposto — e os bastidores revelam uma operação política de considerável complexidade.

A proposta que Alvaro Dias recusou na mesa de jantar

Na terça-feira, dia 26 de maio, o ex-senador Alvaro Dias (MDB) jantou em Brasília com Rogério Marinho, coordenador da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro. O encontro não foi casual: Marinho voltou a apresentar a Dias uma proposta formal para que ele desistisse da candidatura ao Senado pelo Paraná. Em troca, Dias seria nomeado coordenador da campanha de Flávio na região Sul e receberia a promessa de um ministério em caso de vitória eleitoral.

O problema para Flávio é que Alvaro Dias lidera as pesquisas encomendadas pelo próprio PL no Paraná para a vaga no Senado. Tirar um nome com esse nível de intenção de voto do páreo sem causar ruído é, no mínimo, um desafio de engenharia política. A aliados, Dias tem sinalizado que a proposta é improvável de ser aceita: se voltar à vida pública, quer ser senador — não coordenador de campanha. Ele não se elegeu em 2022 e deixou claro que essa pauta ainda está em aberto para ele.

Por que Filipe Barros precisa de espaço no Paraná

O objetivo de Flávio Bolsonaro é criar condições eleitorais mais favoráveis ao deputado Filipe Barros (PL), que vai disputar o Senado paranaense. Com Alvaro Dias no páreo, Barros enfrenta divisão de votos no campo da direita — exatamente o cenário que o PL quer evitar. A lógica do partido é concentrar o eleitorado conservador em um único nome forte, em vez de pulverizar o voto entre dois candidatos com perfis semelhantes.

Nesta sexta-feira, dia 29 de maio, Flávio vai a Curitiba para participar do lançamento das pré-candidaturas de Sergio Moro ao governo do Paraná e de Filipe Barros e Deltan Dallagnol ao Senado. O evento sinaliza que, com ou sem a desistência de Dias, o PL avança com sua chapa. A presença de Flávio no ato funciona como endosso público a Barros — e como recado a Dias sobre quem o partido pretende priorizar.

O xadrez de Marinho conecta RN e PR

A figura de Rogério Marinho é central nesse tabuleiro. Em janeiro de 2026, o senador (PL-RN) abriu mão da própria pré-candidatura ao governo do Rio Grande do Norte para assumir a coordenação da campanha presidencial de Flávio. A decisão, segundo o próprio Marinho, veio de um bilhete do ex-presidente Jair Bolsonaro entregue por seu advogado.

"Nós tomamos essa decisão depois de pensar, de refletir, mas eu não poderia deixar de atender ao apelo do ex-presidente Jair Bolsonaro", afirmou Marinho ao anunciar a retirada de sua candidatura em Natal.

Ao sair do jogo potiguar, Marinho abriu espaço para o ex-prefeito de Natal Álvaro Dias (sem relação com o paranaense homônimo) concorrer ao governo do RN pelo PL. No Paraná, o mesmo Marinho agora opera a tentativa de deslocar Alvaro Dias — o senador — para um cargo de coordenação. O padrão é o mesmo: liberar espaço para candidatos identificados diretamente com o projeto de Flávio.

O que está em jogo para a pré-campanha presidencial

O SportNavo acompanhou a movimentação dessas articulações desde o início de 2026, e o que fica evidente é que a campanha de Flávio precisa de palanques estaduais sólidos, especialmente no Sul. O Paraná elege dois senadores em 2026, e o PL quer garantir pelo menos uma cadeira — de preferência com um nome que reforce a identidade bolsonarista no estado, como Barros, e não com um candidato de legenda diferente que depois pode se tornar independente.

A proposta que Alvaro Dias recusou na mesa de jantar Flávio Bolsonaro oferece ca
A proposta que Alvaro Dias recusou na mesa de jantar Flávio Bolsonaro oferece ca

Alvaro Dias, do MDB, não tem obrigação de seguir a agenda do PL. Mesmo que aceite participar da campanha presidencial de Flávio, sua candidatura ao Senado seria, na prática, uma concorrência direta a Filipe Barros. O impasse é real: Dias sabe que sua força eleitoral é o ativo que o torna interessante para Flávio — e exatamente por isso não tem pressa em negociar sua saída.

"Escolhemos alguém que tem maturidade e competência. Tenho certeza de que, com esse grupo unido, nós venceremos", disse Marinho ao anunciar a chapa do RN — frase que resume a filosofia de unidade que o grupo tenta replicar no Paraná, com resultados ainda incertos.

O prazo para definições não é infinito. O calendário eleitoral de 2026 exige que as convenções partidárias ocorram entre julho e agosto. Alvaro Dias tem até lá para anunciar sua decisão — e Flávio tem até lá para convencê-lo. Em agosto de 2026, a composição da chapa paranaense estará fechada e saberemos se a oferta de um ministério pesou mais do que uma vaga no Senado.