O microfone ainda estava quente quando o departamento jurídico do Barcelona abriu o computador. Na tarde de terça-feira, 12 de maio de 2026, Florentino Pérez encerrou uma coletiva de imprensa em Madri e chamou o Caso Negreira de "o maior escândalo da história do futebol mundial". Do outro lado da Espanha, em Barcelona, os advogados blaugrana já liam cada linha do discurso. A guerra havia saído dos tribunais e chegado à boca dos presidentes — e agora ninguém sabe onde vai parar.
O que Florentino disse e por que o Barcelona se sentiu agredido
Florentino não poupou adjetivos. Ele afirmou que o Real Madrid está "preparando um dossiê importante" para apresentar imediatamente à UEFA, pedindo que a entidade europeia "ataque o problema pela raiz". A declaração foi direta: o clube merengue quer que árbitros que atuaram entre 2011 e 2018 — o período investigado — sejam afastados de competições organizadas pela La Liga.
"Há três anos descobrimos que estávamos enfrentando um caso de corrupção sem precedentes na história do futebol mundial. É incompreensível que ainda estejamos vendo árbitros daquela época atuando em uma competição organizada pela La Liga", disse Florentino Pérez durante a coletiva.
O Barcelona respondeu com uma nota formal horas depois, informando que seu departamento jurídico está "examinando cuidadosamente" as declarações e avaliando quais providências serão adotadas. A hipótese de um processo por difamação contra Florentino está sobre a mesa. Nenhum prazo foi anunciado, mas o tom do comunicado não deixa margem para dúvidas sobre a gravidade com que o clube catalão trata o assunto.
As acusações contra o Barcelona e o tamanho real do risco
O núcleo do caso envolve pagamentos que o Barcelona teria realizado a José María Enríquez Negreira, ex-vice-presidente do Comitê Técnico de Árbitros da Espanha. O Ministério Público espanhol apura se o clube desembolsou aproximadamente 1,4 milhão de euros — cerca de R$ 7,7 milhões — à empresa DASNIL 95 SL, de propriedade de Negreira, em troca de influência nas decisões de arbitragem. Investigados no processo estão os ex-presidentes Josep María Bartomeu e Sandro Rosell, além dos ex-diretores Albert Soler e Óscar Grau.
As punições previstas são pesadas. Segundo o comunicado do Real Madrid divulgado após reunião do Conselho Administrativo, as acusações enquadram o caso como corrupção no âmbito esportivo, crime que pode resultar em até quatro anos de prisão para os envolvidos, além de multas milionárias, dissolução do clube e sanções esportivas — incluindo, potencialmente, a cassação de títulos conquistados no período investigado. Espera.
O Barcelona nega qualquer irregularidade. A versão oficial do clube é que os valores pagos a Negreira eram referentes a serviços de consultoria — análise de vídeos sobre atuações da arbitragem. Em maio de 2024, a Justiça chegou a anular o caso em uma instância, mas o processo segue em outras frentes, e a entrada do Real Madrid como parte prejudicada adiciona uma camada de complexidade difícil de ignorar.
Laporta contra Florentino e a relação que desabou
Joan Laporta não esperou. Antes mesmo da coletiva de Florentino desta terça, o presidente do Barcelona já havia convocado sua própria entrevista para reagir ao comunicado institucional do Real Madrid, que expressava "profunda preocupação" e confirmava a intenção de comparecer ao processo quando o juiz abrisse espaço para as partes prejudicadas.
"Culés, fiquem tranquilos. O Barça é inocente do que é acusado e vítima de uma campanha contra a sua honra na qual todos estão agora envolvidos. Não é surpresa, vamos defender o Barça e demonstrar a inocência do clube. Muitos terão que se retratar", publicou Laporta em suas redes sociais.
Mas foi numa coletiva anterior que Laporta soltou a frase mais explosiva do confronto. Ao ser questionado sobre a postura do Real Madrid, o dirigente blaugrana disse que o rival foi "historicamente favorecido por decisões de arbitragem" e classificou a alegação de prejuízo esportivo como "um exercício de cinismo sem precedente", lembrando que durante sete décadas a maioria dos dirigentes da federação espanhola eram ex-sócios ou ex-jogadores merengues. Laporta ainda admitiu que a relação institucional entre os dois clubes foi "prejudicada" pelos acontecimentos — uma declaração incomum vinda de um presidente de clube sobre seu maior rival.
O que estava implícito em anos de rivalidade dentro de campo agora é explícito nos tribunais e nas salas de coletiva. O Real Madrid formalizou sua entrada no processo. O Barcelona estuda processar Florentino. A UEFA pode receber um dossiê nas próximas semanas. E os investigados no caso original enfrentam, além das sanções esportivas, a possibilidade concreta de penas criminais — com julgamento que pode se estender ao longo de 2026. Quatro anos de prisão é o número que ninguém quer ouvir, mas que paira sobre Barcelona há três anos.








