Diz-se que o Real Madrid é o clube com o vestiário mais disciplinado e hermético do futebol mundial — uma instituição que transforma crises em silêncio e silêncio em títulos. A temporada 2025/26, porém, prova que essa reputação tem mais marketing do que substância: brigas entre titulares vieram a público, o Barcelona garantiu La Liga no clássico do último fim de semana, e o presidente Florentino Pérez precisou convocar uma coletiva para apagar um incêndio que ele mesmo admite não ter conseguido conter internamente.
Uma temporada que expôs as rachaduras do projeto merengue
O contexto importa para entender o peso das declarações desta terça-feira, 12 de maio. O Real Madrid encerra a temporada 2025/26 sem nenhum título relevante — La Liga já pertence ao Barcelona, a Champions League ficou pelo caminho antes das semifinais, e a Copa do Rei também não veio. Para um clube acostumado a colecionar troféus como outros colecionam selos, o jejum desta temporada tem a dimensão de uma ruptura. A distância entre o desempenho esperado e o entregado pelo elenco merengue neste ciclo equivale, em termos de expectativa frustrada, à distância entre Recife e Porto Alegre — geograficamente são mais de 3.300 quilômetros, mas o abismo esportivo parece ainda maior quando se olha para a prateleira vazia de títulos.
Paralelamente ao fracasso nos gramados, o ambiente interno em Valdebebas se deteriorou de forma acelerada nas últimas semanas. Desentendimentos entre Aurélien Tchouaméni e Federico Valverde, além de um episódio separado envolvendo Antonio Rüdiger e Carreras, vazaram para a imprensa e expuseram um vestiário fragmentado. O técnico Álvaro Arbeloa, segundo informações que circulam na Espanha, também enfrenta resistência de parte significativa do elenco.
Florentino na coletiva — os números de 26 anos e a retórica da resistência
Diante desse quadro, Florentino Pérez escolheu o ataque como melhor defesa. Na coletiva realizada em Madri nesta terça, o presidente utilizou seus 26 anos à frente do clube como escudo narrativo ao minimizar os conflitos internos:
"Estou há 26 anos aqui e em nenhum momento deixou de haver discussões ou brigas entre jogadores. Isso acontece em qualquer equipe competitiva. O problema maior, para mim, foi alguém ter exposto isso publicamente. Quem fez isso claramente está descontente e acredita que será demitido. Os jogadores discutem, brigam e depois seguem normalmente. O vazamento foi o pior de tudo", afirmou o dirigente.
A fala revela uma estratégia deliberada: tirar o foco dos conflitos em si e redirecioná-lo para quem os tornou públicos. Florentino chegou a afirmar que o clube já identificou o responsável pelo vazamento — informação que, segundo apuração do SportNavo, foi recebida com ceticismo por parte da imprensa espanhola presente na coletiva, dada a ausência de qualquer nome ou prova apresentada publicamente.
Eleições convocadas — a manobra política por trás do anúncio
O ponto mais estratégico da coletiva foi o anúncio de novas eleições para o Conselho de Administração do clube. Florentino enquadrou a convocação não como fraqueza, mas como afirmação de princípios — e aproveitou para atacar adversários sem nomeá-los diretamente:
"Por que estou convocando eleições? Por um motivo simples. Desde 2000, trabalhei para que o clube continuasse pertencendo aos sócios, diferente do modelo de muitos outros times. No Real Madrid não existe um proprietário único. Criaram uma situação absurda através de campanhas que tentam gerar uma opinião pública contrária ao clube e também contra mim. Tentaram me tirar daqui, mas eu não vou sair. Serei o último sócio do Real Madrid a deixar este clube", declarou o presidente.
A retórica da propriedade coletiva é uma arma tradicional de Florentino em momentos de pressão — ao invocar os sócios como legitimidade, ele torna qualquer crítica externa uma agressão à estrutura democrática do clube. A convocação eleitoral, nesse sentido, funciona menos como renovação de mandato e mais como plebiscito de confiança: o presidente se coloca à disposição do voto sabendo que, historicamente, os sócios madridistas tendem a ratificar a gestão vigente em períodos de instabilidade.
O vestiário como protagonista involuntário da crise
Por mais que Florentino tente deslocar o debate para o vazamento, os conflitos entre Tchouaméni, Valverde e Rüdiger não desaparecem por decreto presidencial. Tchouaméni, contratado por 80 milhões de euros em 2022, vive sua temporada mais irregular desde que chegou ao Bernabéu. Valverde, uruguaio de 26 anos e um dos poucos que manteve nível consistente, teria protagonizado uma discussão acalorada com o francês durante treino recente. Rüdiger, defensor alemão de 32 anos, esteve no centro de outro episódio separado. A coincidência de múltiplos conflitos em curto espaço de tempo indica menos azar e mais um ambiente de pressão acumulada sem válvula de escape adequada.
O técnico Álvaro Arbeloa, que assumiu o cargo em circunstâncias já delicadas, não tem o capital político nem o histórico de títulos para impor autoridade sobre um elenco de estrelas em fim de ciclo. A combinação de resultados ruins, liderança técnica contestada e gestão presidencial sob pressão cria um triângulo de instabilidade que as eleições, por si sós, não resolverão.
As eleições convocadas por Florentino devem ocorrer ainda no primeiro semestre de 2026. Sem um adversário de peso anunciado até agora, o presidente parte como favorito a renovar o mandato — mas voltará a um clube onde as paredes de Valdebebas, que deveriam guardar segredos, desta vez falaram mais alto do que qualquer troféu poderia calar. A imagem que fica é a do próprio Florentino na tribuna do Bernabéu, sozinho, enquanto o Barcelona erguia a taça de La Liga a poucos quilômetros dali.








