Se o Real Madrid tivesse que escolher um novo treinador hoje, às 18h de Madri, ninguém saberia dizer quem decide isso — e esse é exatamente o problema. Florentino Pérez está no cargo, mas convocou eleições. Mourinho negocia, mas o presidente não confirma. Casillas grita do X que não quer o português de volta. O clube mais títulado do mundo funciona, neste momento, como uma sala de crise sem porta-voz.
Mas vamos ao que aconteceu de fato nesta terça-feira (12). Florentino Pérez se apresentou à imprensa espanhola numa coletiva convocada em caráter de urgência — o tipo de reunião que em Madri cheira a fumaça antes do incêndio aparecer. O dirigente, que comanda o clube desde 2000, foi direto: não vai renunciar. Anunciou que solicitou à junta diretiva o início do processo eleitoral e confirmou que ele próprio será candidato.
"Lamento informar que não irei renunciar", disparou Pérez, antes de emendarar: "Solicitei à junta que inicie o processo eleitoral para eleições, para as quais nós, deste Conselho de Administração, concorreremos."
Florentino sente o cheiro da campanha contra ele
O tom da coletiva oscilou entre o desabafo e a declaração de guerra. Pérez falou em "campanha de difamação", citou boatos sobre sua saúde — incluindo rumores de câncer terminal — e respondeu com dados da sua própria empresa, que fatura 50 bilhões de euros por ano e emprega 170 mil pessoas. A retórica foi clara: estou aqui, estou bem, e não vou embora. Sobre os resultados dentro de campo, o presidente admitiu que "os resultados não foram os melhores", mas lembrou que nem sempre se ganha no esporte. O último título do Real foi a Champions League 2023/24, contra o Borussia Dortmund.
"Trabalho desde 2000 para que os donos do clube sejam os sócios. No Real Madrid, não existe apenas um dono. São os 100 mil sócios", disse Pérez, numa frase que soou tanto como princípio quanto como escudo.
Quando perguntado sobre José Mourinho — cujo nome circula nos bastidores de Madri há dias como possível substituto do interino Arbeloa — Florentino fechou a porta com elegância cirúrgica: disse que não debateria temas de futebol naquela coletiva e que a definição do próximo treinador acontecerá após a escolha do novo presidente. Uma resposta que, ao mesmo tempo, confirmou que há algo a ser decidido e que ele não quer ser quem decide agora.
Quem sai perdendo quando o presidente esquiva e a lenda grita
Enquanto Florentino esquivava em Madri, Iker Casillas não teve a mesma contenção. O ex-goleiro e ídolo do clube publicou no X, também nesta terça, uma posição inequívoca contra o retorno de Mourinho. A frase foi curta, pessoal e sem margem para interpretação: "Não tenho nenhum problema com Mourinho. Ele me parece ser um grande profissional. Acho que outros treinadores estariam mais qualificados para treinar o clube da minha vida. Opinião pessoal. Nada mais."
O detalhe que torna o post de Casillas mais do que uma opinião de torcedor: o goleiro foi dirigido por Mourinho no Real entre 2010 e 2013, período em que conquistaram juntos uma Copa do Rei, um Campeonato Espanhol e uma Supercopa da Espanha. Quem conhece o português de dentro da casa e ainda assim diz "não" — isso pesa. Segundo informações dos bastidores espanhóis, Mourinho teria imposto como condições para retornar um contrato de duas temporadas e autonomia total nas decisões esportivas, sem interferência da diretoria.
Quem perde nesse cruzamento de narrativas é o vestiário. Um elenco que já viu Fede Valverde e Aurélien Tchouaméni trocarem empurrões em dois treinos consecutivos — nos dias 6 e 7 de maio — e que assistiu o uruguaio ser levado ao hospital agora precisa absorver uma crise institucional sem treinador definido. Pérez multou os dois jogadores em 500 mil euros cada, condenou a briga, mas reservou a maior parte da sua raiva ao vazamento do episódio para a imprensa.
"O vazamento é pior, muito pior. Quem vazou isso fez porque não está satisfeito e acredita que vai sair do clube", afirmou o presidente, num recado que o SportNavo avalia como o sinal mais claro de que Pérez já sabe de onde veio o furo — e está contando os dias.
O efeito cascata que Mourinho ainda não sabe que herdará
Existe uma ironia incômoda no centro de tudo isso.
Se Mourinho chegar, herda um grupo rachado, um presidente que convocou eleições e uma lenda do clube fazendo oposição aberta nas redes sociais. Se não chegar, o Real entra na próxima janela sem treinador confirmado, sem processo eleitoral concluído e com um interino que já se sabe que não continua.
O processo eleitoral convocado por Pérez nesta terça é o próximo passo concreto — e é ele que vai determinar quem, de fato, escolhe o treinador da temporada 2026/27. Enquanto o novo presidente não for definido, Mourinho, Casillas e todos os demais personagens dessa novela espanhola vão continuar falando para câmeras sem que ninguém, dentro do Bernabéu, tenha autoridade para dar a palavra final.
O Real Madrid tem eleições pela frente, um treinador por definir e uma crise que já saiu do campo.








