Diz-se que o Real Madrid tem o vestiário mais hermético do futebol europeu — um clube onde segredos morrem entre as paredes de Valdebebas. Na temporada 2025/26, essa premissa ruiu. E a forma como Florentino Pérez reagiu nesta terça-feira, 12 de maio, numa coletiva tensa e reveladora, diz muito mais sobre o estado interno do clube do que qualquer resultado de campo.

O presidente de 79 anos convocou a imprensa para tratar das eleições do Conselho de Administração, mas o assunto que dominou foi outro: a briga entre Federico Valverde e Aurélien Tchouaméni durante um treino na semana passada. O confronto resultou em contusão cranioencefálica em Valverde, que precisou levar pontos após um corte na cabeça e ficará afastado entre 10 e 14 dias. Ambos foram multados em 500 mil euros cada um após processo disciplinar interno encerrado na sexta-feira.

A briga foi grave, mas a fissura é maior

Nenhum detalhe expõe a crise estrutural do Madrid mais do que a reação de Kylian Mbappé, flagrado saindo do treino gargalhando logo após o incidente — uma imagem que circulou amplamente e que Florentino preferiu ignorar em público. O que o presidente não ignorou foi o vazamento. Com uma clareza quase cirúrgica, ele separou os dois problemas:

"Acho isso muito errado. Acho ainda pior que tenham tornado público. Estou aqui há 26 anos, e em nenhum deles dois ou quatro jogadores não se envolveram em brigas. Mas isso fica dentro do clube."

A declaração remete, inevitavelmente, a episódios anteriores. No ciclo galáctico de 2003 a 2006, conflitos entre Ronaldo Fenômeno, Roberto Carlos e parte do elenco eram conhecidos internamente, mas raramente chegavam à Marca ou ao AS com detalhes. A diferença estrutural era a coesão do staff — e, talvez, o peso de figuras como Raúl e Hierro como guardiões do vestiário. No Madrid de 2025/26, essa figura estabilizadora simplesmente não existe.

Florentino identifica o informante — e o perfil revela muito

A frase mais carregada da coletiva foi proferida com uma calma quase desconcertante: "Sabemos quem foi a pessoa que vazou informações sobre a briga entre Valverde e Tchouaméni." O presidente foi além e descreveu o perfil do informante sem citar o nome:

"Essa pessoa está com raiva porque está saindo do clube e por isso vazou. Os jogadores brigaram, como jovens fazem, tomam café, apertam as mãos. Mas um vazamento desse é terrível."

Aqui entra uma variável que os modelos de análise de dinâmica de grupo — o equivalente futebolístico do PPDA, métrica de pressão defensiva que mede quantas ações uma equipe permite antes de recuperar a bola — ajudam a iluminar: quando a coesão interna cai abaixo de um limiar crítico, indivíduos em situação de saída iminente passam a agir como agentes desestabilizadores, não porque acreditam mudar o resultado, mas porque buscam validação externa para sua própria narrativa de injustiça. Em clubes onde o poder é tão centralizado quanto no Madrid de Florentino, esse fenômeno se intensifica.

Historicamente, o clube já viveu dinâmica semelhante. Em 2012, após a temporada em que o Real terminou com 100 pontos na La Liga mas perdeu a Champions para o Chelsea nos pênaltis, houve relatos de tensão entre o entorno de José Mourinho e jogadores históricos como Casillas e Sergio Ramos — tensão que eventualmente transbordou para a imprensa. Florentino demorou meses para agir publicamente naquele episódio. Agora, agiu em menos de uma semana.

A eleição convocada e o recado para os adversários internos

O anúncio de novas eleições para o Conselho de Administração não foi incidental — foi uma manobra política calculada. Ao abrir o processo eleitoral, Florentino transforma críticos internos em candidatos obrigados a se expor, retirando-os das sombras onde operam. A frase que resumiu seu raciocínio:

"Quero falar com aqueles que estão por trás desta campanha, aqueles que operam nas sombras. Que concorram às eleições; agora eles têm a oportunidade de fazê-lo. Eu vou me candidatar para defender os interesses do Real Madrid."

O presidente também defendeu seu legado com números: 66 títulos no futebol e no basquete sob seu mandato, incluindo sete Ligas dos Campeões da UEFA. A temporada 2025/26, porém, fecha sem nenhum troféu — o Barcelona foi campeão espanhol pela 29ª vez, batendo o rival no Camp Nou no último domingo, e também levou a Supercopa da Espanha. É o tipo de temporada em branco que, no início dos anos 2000, teria custado o cargo de qualquer presidente europeu. Florentino, no entanto, conhece bem os mecanismos do poder institucional madridista.

A imprensa como campo de batalha adicional

Se a briga entre Valverde e Tchouaméni foi o gatilho, a coletiva revelou um segundo front de conflito: a relação de Florentino com a mídia espanhola atingiu um patamar de hostilidade raramente visto. O presidente cancelou publicamente sua assinatura do jornal ABC — onde seu pai assinou por décadas — e fez um comentário machista sobre uma jornalista do veículo, questionando se ela "percebe de futebol". A declaração provocou reação imediata e gerou uma polêmica paralela que eclipsou parte da discussão sobre o vestiário.

A temporada 2025/26 do Real Madrid encerra-se, portanto, com três feridas abertas simultâneas: um elenco fraturado internamente, um presidente em guerra com a imprensa e um informante identificado aguardando consequências. As eleições para o Conselho de Administração, cuja data ainda não foi divulgada oficialmente, serão o próximo termômetro real do poder de Florentino — e da capacidade do clube de reorganizar sua hierarquia antes de a janela de transferências de verão abrir em julho.