Falhou. Três vezes seguidas, o Fluminense entrou em campo na fase de grupos da Libertadores e saiu sem vencer — um empate contra o La Guaira na estreia, uma derrota de virada para o Independiente Rivadavia e, por fim, um 2 a 0 sofrido em La Paz, a 3.637 metros de altitude, diante do Bolívar. O resultado colocou o time carioca na lanterna do Grupo C com apenas um ponto.

O que o vestiário escondeu antes de La Paz

A derrota para o Bolívar não surgiu do nada. Antes do embarque para a Bolívia, os sinais de fragilidade já eram visíveis nos treinos: saída de bola instável, linha de pressão mal calibrada e dificuldade para sustentar a compactação no terço médio. Em La Paz, esses problemas se amplificaram pelo fator fisiológico. Com o ar rarefeito agindo como um metrô da Linha 2 no horário de pico no Rio, o ritmo de pressão do Fluminense desmoronou em menos de seis minutos — tempo suficiente para o brasileiro-boliviano Robson Matheus abrir o placar em finalização após cruzamento rasteiro de Sagredo.

A expulsão do zagueiro Bernal aos três minutos do segundo tempo por segundo cartão amarelo reconfigurou o jogo. Com um jogador a mais, o Bolívar explorou os espaços nas costas da linha defensiva tricolor e Robson Matheus ampliou de cabeça, aos 16 minutos. O gol anulado de Soteldo — impedimento de Guga na origem — foi o único momento de perigo real do Fluminense na partida.

Luís Zubeldía ainda não encontrou um bloco médio funcional para o elenco disponível. A transição defensiva é lenta, e a equipe perde referência posicional quando o adversário inverte o jogo com rapidez. Três jogos, três diagnósticos parecidos.

Os números que expõem a crise tática de Zubeldía

A análise do SportNavo aponta que, nas três primeiras rodadas, o Fluminense registrou índices abaixo da média histórica do clube na Libertadores em praticamente todos os indicadores de processo: posse de bola abaixo de 45% nos dois jogos fora de casa, menos de 30 passes progressivos por partida e taxa de recuperação de bola no terço ofensivo próxima de zero. O time joga recuado, mas sem organização defensiva suficiente para sustentar o bloco baixo.

O pivô do problema está na transição ofensiva. Quando o Fluminense recupera a bola, demora mais de quatro segundos em média para cruzar o meio-campo — tempo suficiente para o adversário reorganizar a linha defensiva. Sem velocidade nas costas dos laterais e sem um segundo homem de referência na área, o ataque se torna previsível.

Fábio, de 45 anos, foi um dos poucos destaques individuais: o goleiro igualou o paraguaio Éver Almeida com 113 partidas na história da competição, marca que deve ser superada na próxima rodada. Um recorde individual em meio a uma crise coletiva.

A mesa de decisão e os cenários de classificação

Após a quinta rodada, o cenário mudou parcialmente. O Fluminense venceu o Bolívar por 2 a 1, com gol do meia Carlos Melgar para os bolivianos — comemoração idêntica à de Neymar, explicada pelo próprio jogador como homenagem ao filho.

"Foi para o meu filho. É uma comemoração que tenho com meu filho. É parecida com a do Neymar. É a mesma, na verdade (risos). Mas foi para meu filho", disse Melgar após a partida.

O gol de Melgar tem peso matemático direto: mesmo com a vitória tricolor, os dois times ficaram empatados com cinco pontos no Grupo C, mas o Bolívar avança no critério de confronto direto graças ao 2 a 0 aplicado em La Paz na terceira rodada. Ou seja, um empate na última rodada não serve ao Fluminense — o time precisa torcer por uma combinação favorável.

Na última rodada, marcada para o fim de maio, o Bolívar recebe o Independiente Rivadavia e o Fluminense enfrenta o La Guaira no Maracanã. Para avançar às oitavas, o Flu precisa vencer e torcer por um tropeço boliviano. Uma derrota ou empate praticamente encerra a participação na Libertadores, restando ainda a possibilidade de cair para os playoffs da Copa Sul-Americana dependendo da pontuação final.

Zubeldía precisa ajustar ao menos três pontos estruturais para o duelo contra o La Guaira: elevar a linha de pressão no primeiro terço, acelerar a saída de bola pelos laterais e inserir um segundo referencial no ataque para criar profundidade. Sem isso, mesmo contra um adversário tecnicamente inferior, o Maracanã pode ser palco de mais frustração.

Se o Fluminense vencer e o Bolívar perder para o Rivadavia, o Tricolor garante a segunda vaga do grupo. Se o Bolívar empatar, o Flu ainda avança com a vitória, dependendo do saldo de gols. A pergunta que fica é: Zubeldía terá coragem de mudar o esquema de forma radical para um jogo que, para o Fluminense, já é de mata-mata?